por Melania keter em Dom Jun 27, 2010 7:00 pm
Capítulo I – parte 3
As duas semanas seguintes foram como seus primeiros dias de recém-casados. Amaram-se, riram e brincaram. Dançaram com a música do alaúde de Bolsalegre, o bufão da corte. Por todo o reino, correu a notícia de que o Cavaleiro havia ascendido ao topo da Montanha da Verdade e que se convertera em um herói nacional tão rápido como tiveram uma nação. Bolsalegre compôs uma canção de êxito sobre ele e a intitulou: ‘Dias frios e cavaleiros cálidos’.
O Rei ofereceu um baile em honra do Cavaleiro e vieram pessoas de todas as partes para conhecê-lo.
O Cavaleiro pensava que no baile não havia ninguém mais bela que Julieta, e esta considerava que não havia ninguém que fosse tão bonito e encantador como o Cavaleiro. Haviam voltado a se enamorar, mas de um modo diferente. Ele almejava ardentemente transmitir-lhe seus sentimentos. Queria compartilhar com ela suas aventuras na escalada da Montanha da Verdade... os conhecimentos que Merlin lhe havia ensinado, os segredos da Natureza que os animais lhe haviam revelado, e queria compartilhar também como, finalmente, conseguiu chegar ao topo depois de haver se permitido o risco de cair no abismo das recordações, perdoar a si mesmo e pedir perdão aos demais.
O único momento delicado ocorreu quando seu filho, Cristóvão, agora um belo e esplêndido adolescente, foi competir em um torneio juvenil. O jovem olhou com receio a seu pai e lhe disse:
- Não esperes voltar ao ponto em que o deixamos, pois já me fiz maior.
Julieta, impressionada, continha o fôlego perguntando-se como reagiria o Cavaleiro.
- Quem sabe podemos seguir crescendo juntos – respondeu o Cavaleiro, depois de olhar carinhosamente a seu filho.
Os olhos do rapaz umedeceram. Ele e seu pai se fundiram em um abraço.
De vez em quando, o Cavaleiro se perguntava o que havia querido dizer o Rei quando disse que Julieta estava diferente. Ainda que fosse a mesma. Até a manhã do décimo quarto dia não percebeu o primeiro indício de diferença. Julieta se levantou cedo e se vestiu com uma roupa nada feminina... Parecia um lenhador. Finalmente, disse ao Cavaleiro:
- Que tenhas um bom dia, carinho, vou trabalhar.
- ¿Trabalhar? – repetiu o Cavaleiro sem entender absolutamente nada.
- Sim, respondeu Julieta. – Quando tu te foste, comecei a tecer tapetes e beber vinho para deixar passar as horas. Aos três anos, bebia mais do que tecia. Finalmente tive que buscar algo em que ocupar meu tempo.
O Cavaleiro se sentou na cama e lhe perguntou surpreso:
- ¿Que fazes?
- Reabilito castelos.
- ¿O que é?
Julieta repetiu:
- Reabilito castelos. Estão muito mal desenhados. Os cômodos são demasiado grandes, os corredores têm demasiadas correntes de ar e os muros de pedra são excessivamente frios.
- ¿Pagam-te para fazer isso? – quis saber o Cavaleiro.
Julieta sorriu com grande felicidade:
- Bastante bem. Estou fazendo com que os seus lares resultem mais cálidos e aconchegantes. Fiz meu nome criando castelos íntimos.
Olhou-o inquisitivamente:
- Não te importas com que eu trabalhe, ¿certo?
- Oh, não, ¡penso que é genial! – respondeu o Cavaleiro vacilante.
Acompanhou-a até o pátio e auxiliou-a a montar a cavalo.
- Pode ser que hoje eu não venha jantar em casa, mas há bastante comida na cozinha. Tenho certeza que Cristóvão e tu preparareis um bom jantar.
O Cavaleiro a olhou perplexo enquanto se distanciava cavalgando. Isso sim é que era realmente uma mudança. Durante anos, Julieta o havia visto marchar para combater. Agora, ele a via ir trabalhar.
O Cavaleiro permaneceu imóvel no pátio, dominado por sentimentos contrapostos. A única coisa comparável a felicidade que sentia por Julieta ter encontrado algo que lhe permitia ser independente dele era sua infelicidade por haver conseguido.
E, falando de trabalho, ¿o que ia fazer agora? Já não fazia mais parte do mundo cavaleiresco: lutar, guerrear, combater. Agora estava metido nas coisas do amor. Mas, ¿como converteria o amor em moedas de ouro para manter seu castelo, sua família e seus criados?
Seus pensamentos se interromperam com a chegada de Cristóvão que conduzia o cavalo aos estábulos do pátio. Estava vestido com a armadura. O Cavaleiro iluminou seu rosto. Em que belo jovem havia se convertido Cristóvão. Animou-lhe a idéia de passar o dia com seu filho. O Cavaleiro lhe chamou.
- Espera, ¡tomarei meu cavalo e irei montar contigo!
- Sinto muito, pai, não posso – contestou Cristóvão. – Tenho treinamento.
- ¿Que treinamento? – perguntou o Cavaleiro.
- Sir Percival está treinando um grupo para chegar a ser cavaleiros e temos torneios juvenis – respondeu Cristóvão.
O Cavaleiro sentiu logo uma espécie de receio.
- ¿Por que fazes isso? – perguntou.
Cristóvão o olhou surpreendido:
- Para ser como tu, pai.
- Mas nem sequer eu mesmo quero ser como eu... ou seja , como o eu que costumava ser – disse o Cavaleiro.
- Mas em todas as partes te conhecem como o Cavaleiro bom, generoso e amoroso que ascendeu ao topo da Montanha da Verdade. Eu quero fazer algo grande, como tu fizeste.
O Cavaleiro o olhou com tristeza.
- ¿Como pensas fazê-lo? – lhe perguntou.
- Lutando contra outros cavaleiros, ganhando e sendo o melhor – respondeu Cristóvão.
- Filho, a vida não é competir, ganhar e ser melhor que os demais. A vida é amor e dar o melhor de ti mesmo – lhe disse docemente o Cavaleiro.
- ¿A vida é isso? – perguntou Cristóvão com reservas.
O Cavaleiro assentiu.
- O amor não te fará ganhar cruzadas! - replicou-lhe Cristóvão, e foi embora galopando.
O Cavaleiro ficou olhando-o fixamente e em seguida gritou:
- ¡Merlin me auxilie!
O mago apareceu num instante. Estava nu, com uma toalha envolta na cintura. Tinha o cabelo e meio corpo úmidos.
- Preferiria que não te assaltassem as crises enquanto estou tomando banho – queixou-se Merlin.
- Então, admites que isto é uma crise – disse o Cavaleiro.
Merlin assentiu com a cabeça:
- Ele quer ter o senhor como modelo.
- Como o modelo que eu era - protestou o Cavaleiro.
- E tu queres que ele tenha como modelo o que tu acreditas ser agora - sentenciou Merlin.
- Isso mesmo - disse o Cavaleiro.
- Quando estavas no topo da Montanha da Verdade encontraste no teu interior o centro do amor. Estavas te afastando mais e mais dele. Respira profundamente pelo menos três vezes e tenta voltar a te centrar –comentou-lhe amavelmente Merlin.
O Cavaleiro fez dessa forma.
- Agora digas o que sentes verdadeiramente com respeito a Cristóvão – quis saber Merlin.
- Que devo deixá-lo crescer atendendo à sua própria imagem e ser o que ele necessita ser - disse lentamente e com pouca vontade o Cavaleiro.
Merlin sorriu e assentiu.
- Mas eu poderia lhe evitar o sofrimento, a luta, a dor e a tristeza aos quais vai ter que enfrentar.
- Nossa experiência é o único que não podemos oferecer aos demais. Cada um tem que passar pela sua própria dor e pesar para poder encontrar a alegria e a Verdade que há deste lado - disse-lhe Merlin com doçura.
O Cavaleiro olhou ao seu filho, que já era um ponto no horizonte.
- ¿Por que tem que ser assim?
- A intenção não era que homens e mulheres sofressem. Mas, concedeu-se livre arbítrio, e infelizmente, o utilizaram sem levar em conta a harmonia com o universo - respondeu-lhe Merlin.
O Cavaleiro olhou-o com tristeza:
- Quando, no topo da Montanha da Verdade, caiu de mim o último pedaço da armadura, pensei que minha vida seria mais fácil.
A luz da compaixão inundou os olhos de Merlin:
- Mais fácil, não querido, apenas mais sutil.
- O que aprendi na Montanha, é o estou vivendo agora, ¿certo?
Merlin assentiu.
Aconselho-te que cada vez que te sintas fora de vosso centro de amor, respires profundamente.
Dito isto, o mago desapareceu.
Nos meses que transcorreram junto a Julieta, o Cavaleiro se descobriu suspirando uma e outra vez.
Mesmo que o Cavaleiro fosse, na realidade, mais carinhoso, amável e sensível que nunca, tinha umas idéias perfeitamente definidas com respeito à forma com a qual Julieta deveria se comportar como esposa. E Julieta tinha as suas próprias idéias sobre como viver sua vida, e não eram nem remotamente parecidas às do Cavaleiro.
- O problema - opinava Julieta - é que voltaste a casa esperando me encontrar aqui sentada, tecendo tapetes, bebendo vinho e te esperando. Pois bem, as coisas mudaram.
- Alegra-me que não estejas tecendo e bebendo - disse o Cavaleiro -, sobretudo bebendo. Mas gostaria que percebesses que voltei a casa.
Julieta continuou:
- E esperavas que continuasse necessitando, como antes, ser tu a cabeça da família e que eu cumprisse todos os vossos pedidos.
- Alegro-me de que não precises de mim da mesma forma, e não espero que faças tudo o que eu quiser, mas eu gostaria de que me dedicasses tanto tempo como ao teu trabalho de arrumar castelos.
Julieta estava comovida:
- Gostaria que realmente fosse assim, mas me encontras no mês de um trabalho tremendo e estou pagando horas extras aos gesseiros que trouxe da Saxônia e Glastonbury.
O cavaleiro começava a se sentir confuso.
- Não me necessitas em absoluto – disse nervosamente.
Julieta o rodeou com os braços e o beijou na boca com firmeza, ainda que, para ser franco, também com doçura, e depois correu ao pátio para montar no seu cavalo. O Cavaleiro a seguiu.
- Não estarias tão triste se ainda tivesses o negócio da Cavalaria, mas estás retirado e com muitíssimo tempo livre entre as mãos- disse Julieta.
Pulou sobre o cabalo e saiu galopando. O Cavaleiro permaneceu ali, observando-a.
As semanas posteriores não foram melhores para o Cavaleiro.
Quando não eram os gesseiros de Saxônia, Julieta estava ocupada com os pedreiros da Tiscana, e essa mudança de papéis no lar o enfastiava muitíssimo. Teria almejado retornar a casa com os seus novos conhecimentos e governar ao seu filho e a sua esposa com a Verdade, com Amor e com Bondade. Mas ao cabo de seis meses, essas três qualidades foram-se a tomar vento fresco. Agora se sentia só e com pouca auto-estima, uma vez que era um Cavaleiro desempregado. Estava irritadíssimo.
As coisas não foram melhor quando Julieta lhe ofereceu que se tornasse seu sócio na empresa de reabilitação. Ele não sentia a mínima vontade de ser sócio de nenhum negócio que ela dirigisse.
Melania Keter