A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Qui Jun 24, 2010 1:09 am

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Melania Keter
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Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Sáb Jun 26, 2010 1:07 am

Capítulo I - parte 1

O princípio


Uma vez, há muitos anos, em um lugar muito longe, morava um Cavaleiro. Considerava-se um Cavaleiro bom, generoso e amoroso; além disso, como já havia chegado ao topo da Montanha da Verdade, se sentia ainda mais amoroso, mais generoso e melhor.

Regressava no lombo de seu cavalo porque queria se encontrar com sua esposa, Julieta, e seu filho, Cristóvão, que estavam lhe aguardando. Porém, de repente, e após se sentir invadido por um pensamento alarmante, puxou as rédeas para que se detivesse o cavalo.

— ¡Merlin! — chamou em voz alta.

Atrás dele, o mago apareceu sentado, na garupa do cavalo. Como de costume, o mago leu os seus pensamentos.

- Vos preocupa que Julieta não vos esteja esperando. - O cavaleiro assentiu.

- Quando iniciei minha busca para me libertar de minha armadura, estava tão triste e deprimido que não tive integridade suficiente para enfrentá-la. Fui sem dizer nem uma palavra.

- ¿E então? —perguntou Merlin.

- Merlin, estive fora doze anos. ¿O que pode dizer um homem à sua esposa quando este foi embora de casa às escondidas e não regressou em doze anos?

- Diga-lhe que a festa durou mais do que pensava.

Então, os olhos de Merlin brilharam.

O Cavaleiro fulminou a Merlin com o olhar.

- Vós sempre me aconselhais bem. Estou falando do meu matrimônio. ¿Não existe nada sagrado para vós?
Merlin sorriu.

- Ainda que não exista nada sagrado para mim, eu venero todas as coisas.

Uma das coisas de Merlin que tirava do sério ao Cavaleiro era que cada vez que tinha uma crise, o mago ficava filosófico.

Lendo-lhe o pensamento, Merlin voltou a exasperá-lo:

-Uma crise só existe quando uma pessoa permite que exista.

Após essas palavras, Merlin desapareceu, precisamente porque, embora o Cavaleiro fosse
bastante carinhoso, provavelmente teria intentado dar um sopapo em Merlin.

O Cavaleiro esporeou seu cavalo e partiu ao galope. O último comentário de Merlin o tinha animado. «Merlin deve estar certo, devo estar criando uma crise onde não existe», pensou o Cavaleiro.

Assim que se livrara de uma crise ima-ginária, de repente, um cavaleiro de negra armadura, montado em um cabalo preto, saiu de uma curva do caminho bloqueando-lhe o passo.

- ¿Quem és? — o increpou o cavaleiro da armadura preta.

- Sou um cavaleiro de dia e um cavaleiro de madrugada. Em poucas palavras, sou um cavaleiro — respondeu-lhe o Cavaleiro, que já tinha recuperado o bom humor que o caracterizava.

-Entrastes nas minhas terras preparado para lutar —lhe disse o cavaleiro escuro, que não tinha nenhum sentido do humor.

- Eu já não luto —respondeu o Cavaleiro.

O amor que o Cavaleiro tinha aprendido a sentir tanto por ele próprio como pelos demais irradiava de sua pessoa. Esse poder resplandecia em seus olhos como dois raios azuis. Então, o cavaleiro escuro ficou petrificado, incapaz de brandir a espada. Depois dessa experiência, nunca voltou a ser o mesmo. Vencido pelo amor, lhe era difícil recuperar seu mísero e natural sentimento de ódio. Com o transcorrer dos anos, iria refletir sobre como o Cavaleiro bom, generoso e amoroso tinha estragado a vida.

Enquanto o nosso Cavaleiro continuava cavalgando, deu-se conta de que Merlin tinha razão. Quando uma pessoa ama não tem motivo para participar na luta cotidiana. De repente, ouviu uma voz feminina que pedia auxílio e, de imediato, fez com que o seu cavalo se detivesse. Entre as árvores conseguiu ver a uma bela donzela na torre de um castelo. O Cavaleiro galopou com rapidez até o fosso e lhe perguntou:

- ¿Pedias auxílio?

- Sim - gritou a loira donzela. Um perverso mago me fez prisioneira.

O Cavaleiro sentiu que o sangue lhe fervia nas veias. Encontrava-se ante um dos seus velhos princípios: salvar a damas em perigo. Tempos atrás, quando o negócio da cavalaria não estava demasiado próspero, costumava resgatar donzelas em apuros.

Seus pensamentos retrocederam ao momento em que resgatou à sua esposa Julieta de uma situação parecida. Julieta era uma princesa e seu pai, o Rei, havia decretado que concedesse a mão de sua filha a quem a resgatara do malvado ogro. O Cavaleiro resgatou a Julieta, mas disse ao Rei que preferia continuar solteiro. Porém, o Rei insistiu e o Cavaleiro e Julieta se casaram. O Cavaleiro pensou que isso era pagar um alto preço por uma boa façanha.

O grito da donzela o tirou dos seus pensamentos:

- Não fique ali parado, ¡me resgate!

- Já não me dedico a isso - disse o Cavaleiro, sacudindo a cabeça.

-¿Que classe de Cavaleiro és que não resgatas donzelas?

- Quando subi à Montanha da Verdade descobri que isso de resgatar as pessoas não é muito amoroso. Como foste tu que criaste essa prisão, é melhor que tu mesma a destruas, de modo que não quero tirar da senhora esse poder. Agora, se a senhora me perdoar, tenho uma esposa que me está esperando em casa... ¡Penso eu! — respondeu-lhe o cavaleiro. E foi embora galopando.

- ¡Vos denunciarei à Associação de Cavaleiros! – gritou a princesa furiosa.

Ao Cavaleiro não intimidou a ameaça. Na realidade, se sentia bastante contente consigo mesmo. Havia quebrado outro padrão. Já não era adicto a resgatar donzelas em perigo.

Depois de refletir um pouco, se deu conta de que os Cavaleiros haviam estado resgatando às donzelas de seus dragões e de seus ogros, e lhes oferecendo ‘proteção’, coisa que as donzelas interpretavam como prova de seu amor, e os cavaleiros, por sua parte, pensavam que isso era o que eles, como homens, tinham que fazer para se ganhar o amor. O Cavaleiro se perguntou se homens e mulheres se amariam alguma vez por ser eles quem são e não pelo que fizeram.
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Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Sáb Jun 26, 2010 7:00 pm

Capítulo I – parte 2


Enquanto cavalgava, pensava que Julieta se alegraria bastante quando lhe dissesse que já não ia voltar a resgatar mais donzelas. Auxiliaria que se resgatassem a elas mesmas. Resgatar damas era algo da cavalaria que sempre tirava Julieta do sério.

Já próximo do castelo viu a seu sogro, o Rei, que galopava rumo a ele no lombo do seu formoso corcel branco e preto.

- ¡Ei, Rei!- gritou-lhe.

Ao Rei, custou certo tempo para reconhecer ao Cavaleiro, ainda que quando o fez, seu rosto se iluminou de satisfação. Ordenou ao seu cavalo que se detivesse e cumprimentou ao Cavaleiro.

- Não o tinha reconhecido. Já não levas vossa armadura.

- Demorou doze anos para enferrujar e cair - comentou o Cavaleiro.

O rei olhou para ele com grande respeito:

- Isso significa que chegastes ao topo da Montanha da Verdade.

O cavaleiro assentiu.

- Eu nunca fui além do Castelo do Silêncio... ¿Como conseguistes?

- Se tivesse continuado levando a minha armadura, teria morrido - respondeu o Cavaleiro.

O Rei assentiu:

- Não tinhas escolha.

- ¡Correto! – disse o Cavaleiro. Quando não existem alternativas, as decisões são fáceis de se tomar.

O Rei olhou detidamente ao Cavaleiro:

- Não só tens um aspecto diferente, senão que também falas de modo distinto.

- Não sou aquele que eu era – admitiu o Cavaleiro.

- Isso já é definitivamente uma melhora – comentou o Rei.

- Espero que Julieta pense o mesmo. Quando me fui, nossa relação não estava muito boa.

O Rei disse:

- Filho, não sejas tão duro contigo mesmo. ¡Estás casado com Julieta há quatorze anos! – sentenciou o Rei.

- Talvez seja porque estive fora doze desses quatorze anos – falou o Cavaleiro.

- Não há nada como a distância para que uma relação funcione. De todo modo, me sinto feliz por ti, e em honra à tua ascensão ao topo da Montanha da Verdade, venho pedir-vos que me chamem pelo meu nome de batismo. Nunca mais tereis que me chamar Rei – assentiu o Rei com a cabeça de modo compreensivo.

O Cavaleiro estava surpreendido.

- Grato, senhor. ¿Qual é o seu nome?

- Rei – respondeu.

O Cavaleiro olhou para ele estupefato:

- ¿Seu nome de batismo é o mesmo que o nome de seu cargo?

- Meus pais não tinham imaginação – respondeu o Rei.

O Cavaleiro coçou a cabeça, cismado:

- Não muda nada se o chamo Rei.

- Certamente que sim – replicou o Rei. - Agora podes chamar-me Rei sem faltar-me o respeito.

O Cavaleiro se deu conta de que havia mudado. Há um tempo teria considerado estúpida essa conversa.

- Agradeço bastante a honra, mas agora tenho que ver Julieta – disse o Cavaleiro ao Rei. Mas o rosto do Rei o impediu de esporear ao cavalo.

- Não vais encontrar as coisas exatamente como as deixaste – comentou o Rei vacilante.

- Não terá outro Cavaleiro, ¿certo? – perguntou o Cavaleiro temeroso.

- ¡Não, não! – se apressou a dizer o Rei. Não é tão inteligente para fazer isso. – Limpou a garganta um tanto incômodo. – Quero dizer... sendo como eras, teria sido inteligente da parte dela fazer isso, mas tal como sois agora, tem sorte de não tê-lo feito.

- Será melhor que eu volte a chamá-lo Rei por respeito... antes que o perca – disse o Cavaleiro um pouco irritado.

- Só intento adverti-lo de que Julieta está diferente – comentou o Rei em um tom um pouco severo.

O Cavaleiro estava perplexo. Se Julieta se encontrava em casa, em seu castelo, onde ele a havia deixado, então, ¿o que podia ser tão mau? ¿O que havia querido lhe dizer o Rei?

Seus medos desapareceram ao entrar a cavalo no pátio do castelo e ver Julieta sentada em seu jardim, lendo um livro. Quando esta olhou o cavalo, levantou a vista. O passar dos anos não havia alterado sua doce beleza. Ao observar que era o Cavaleiro, a surpresa, a satisfação e a incerteza apareceram em seu semblante.

O Cavaleiro lhe sorriu:

- Posso perceber em vós surpresa, satisfação e incerteza.

Julieta olhou-o assustada:

- Nunca antes havias mostrado sentimento algum, especialmente no que diz respeito à minha pessoa.

O Cavaleiro saltou do cavalo e se aproximou de Julieta:

- Aquilo era antes. Agora é assim.

Ficaram se olhando um ao outro, tímidos, incômodos. Havia passado muitos anos desde que se separaram.

- E já não tens a armadura – comentou ela tocando-lhe suavemente o torso com a ponta dos dedos.

O Cavaleiro a olhou fixamente, tomou seu rosto entre as mãos e a beijou. Quando os lábios se uniram, as lágrimas brotaram de seus olhos.
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Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Dom Jun 27, 2010 7:00 pm

Capítulo I – parte 3

As duas semanas seguintes foram como seus primeiros dias de recém-casados. Amaram-se, riram e brincaram. Dançaram com a música do alaúde de Bolsalegre, o bufão da corte. Por todo o reino, correu a notícia de que o Cavaleiro havia ascendido ao topo da Montanha da Verdade e que se convertera em um herói nacional tão rápido como tiveram uma nação. Bolsalegre compôs uma canção de êxito sobre ele e a intitulou: ‘Dias frios e cavaleiros cálidos’.

O Rei ofereceu um baile em honra do Cavaleiro e vieram pessoas de todas as partes para conhecê-lo.

O Cavaleiro pensava que no baile não havia ninguém mais bela que Julieta, e esta considerava que não havia ninguém que fosse tão bonito e encantador como o Cavaleiro. Haviam voltado a se enamorar, mas de um modo diferente. Ele almejava ardentemente transmitir-lhe seus sentimentos. Queria compartilhar com ela suas aventuras na escalada da Montanha da Verdade... os conhecimentos que Merlin lhe havia ensinado, os segredos da Natureza que os animais lhe haviam revelado, e queria compartilhar também como, finalmente, conseguiu chegar ao topo depois de haver se permitido o risco de cair no abismo das recordações, perdoar a si mesmo e pedir perdão aos demais.

O único momento delicado ocorreu quando seu filho, Cristóvão, agora um belo e esplêndido adolescente, foi competir em um torneio juvenil. O jovem olhou com receio a seu pai e lhe disse:

- Não esperes voltar ao ponto em que o deixamos, pois já me fiz maior.

Julieta, impressionada, continha o fôlego perguntando-se como reagiria o Cavaleiro.

- Quem sabe podemos seguir crescendo juntos – respondeu o Cavaleiro, depois de olhar carinhosamente a seu filho.

Os olhos do rapaz umedeceram. Ele e seu pai se fundiram em um abraço.


De vez em quando, o Cavaleiro se perguntava o que havia querido dizer o Rei quando disse que Julieta estava diferente. Ainda que fosse a mesma. Até a manhã do décimo quarto dia não percebeu o primeiro indício de diferença. Julieta se levantou cedo e se vestiu com uma roupa nada feminina... Parecia um lenhador. Finalmente, disse ao Cavaleiro:

- Que tenhas um bom dia, carinho, vou trabalhar.

- ¿Trabalhar? – repetiu o Cavaleiro sem entender absolutamente nada.

- Sim, respondeu Julieta. – Quando tu te foste, comecei a tecer tapetes e beber vinho para deixar passar as horas. Aos três anos, bebia mais do que tecia. Finalmente tive que buscar algo em que ocupar meu tempo.

O Cavaleiro se sentou na cama e lhe perguntou surpreso:

- ¿Que fazes?

- Reabilito castelos.

- ¿O que é?

Julieta repetiu:

- Reabilito castelos. Estão muito mal desenhados. Os cômodos são demasiado grandes, os corredores têm demasiadas correntes de ar e os muros de pedra são excessivamente frios.

- ¿Pagam-te para fazer isso? – quis saber o Cavaleiro.

Julieta sorriu com grande felicidade:

- Bastante bem. Estou fazendo com que os seus lares resultem mais cálidos e aconchegantes. Fiz meu nome criando castelos íntimos.

Olhou-o inquisitivamente:

- Não te importas com que eu trabalhe, ¿certo?

- Oh, não, ¡penso que é genial! – respondeu o Cavaleiro vacilante.

Acompanhou-a até o pátio e auxiliou-a a montar a cavalo.

- Pode ser que hoje eu não venha jantar em casa, mas há bastante comida na cozinha. Tenho certeza que Cristóvão e tu preparareis um bom jantar.

O Cavaleiro a olhou perplexo enquanto se distanciava cavalgando. Isso sim é que era realmente uma mudança. Durante anos, Julieta o havia visto marchar para combater. Agora, ele a via ir trabalhar.

O Cavaleiro permaneceu imóvel no pátio, dominado por sentimentos contrapostos. A única coisa comparável a felicidade que sentia por Julieta ter encontrado algo que lhe permitia ser independente dele era sua infelicidade por haver conseguido.

E, falando de trabalho, ¿o que ia fazer agora? Já não fazia mais parte do mundo cavaleiresco: lutar, guerrear, combater. Agora estava metido nas coisas do amor. Mas, ¿como converteria o amor em moedas de ouro para manter seu castelo, sua família e seus criados?

Seus pensamentos se interromperam com a chegada de Cristóvão que conduzia o cavalo aos estábulos do pátio. Estava vestido com a armadura. O Cavaleiro iluminou seu rosto. Em que belo jovem havia se convertido Cristóvão. Animou-lhe a idéia de passar o dia com seu filho. O Cavaleiro lhe chamou.

- Espera, ¡tomarei meu cavalo e irei montar contigo!

- Sinto muito, pai, não posso – contestou Cristóvão. – Tenho treinamento.

- ¿Que treinamento? – perguntou o Cavaleiro.

- Sir Percival está treinando um grupo para chegar a ser cavaleiros e temos torneios juvenis – respondeu Cristóvão.

O Cavaleiro sentiu logo uma espécie de receio.

- ¿Por que fazes isso? – perguntou.

Cristóvão o olhou surpreendido:

- Para ser como tu, pai.

- Mas nem sequer eu mesmo quero ser como eu... ou seja , como o eu que costumava ser – disse o Cavaleiro.

- Mas em todas as partes te conhecem como o Cavaleiro bom, generoso e amoroso que ascendeu ao topo da Montanha da Verdade. Eu quero fazer algo grande, como tu fizeste.

O Cavaleiro o olhou com tristeza.

- ¿Como pensas fazê-lo? – lhe perguntou.

- Lutando contra outros cavaleiros, ganhando e sendo o melhor – respondeu Cristóvão.

- Filho, a vida não é competir, ganhar e ser melhor que os demais. A vida é amor e dar o melhor de ti mesmo – lhe disse docemente o Cavaleiro.

- ¿A vida é isso? – perguntou Cristóvão com reservas.

O Cavaleiro assentiu.

- O amor não te fará ganhar cruzadas! - replicou-lhe Cristóvão, e foi embora galopando.

O Cavaleiro ficou olhando-o fixamente e em seguida gritou:

- ¡Merlin me auxilie!

O mago apareceu num instante. Estava nu, com uma toalha envolta na cintura. Tinha o cabelo e meio corpo úmidos.

- Preferiria que não te assaltassem as crises enquanto estou tomando banho – queixou-se Merlin.

- Então, admites que isto é uma crise – disse o Cavaleiro.

Merlin assentiu com a cabeça:

- Ele quer ter o senhor como modelo.

- Como o modelo que eu era - protestou o Cavaleiro.

- E tu queres que ele tenha como modelo o que tu acreditas ser agora - sentenciou Merlin.

- Isso mesmo - disse o Cavaleiro.

- Quando estavas no topo da Montanha da Verdade encontraste no teu interior o centro do amor. Estavas te afastando mais e mais dele. Respira profundamente pelo menos três vezes e tenta voltar a te centrar –comentou-lhe amavelmente Merlin.

O Cavaleiro fez dessa forma.

- Agora digas o que sentes verdadeiramente com respeito a Cristóvão – quis saber Merlin.

- Que devo deixá-lo crescer atendendo à sua própria imagem e ser o que ele necessita ser - disse lentamente e com pouca vontade o Cavaleiro.

Merlin sorriu e assentiu.

- Mas eu poderia lhe evitar o sofrimento, a luta, a dor e a tristeza aos quais vai ter que enfrentar.

- Nossa experiência é o único que não podemos oferecer aos demais. Cada um tem que passar pela sua própria dor e pesar para poder encontrar a alegria e a Verdade que há deste lado - disse-lhe Merlin com doçura.

O Cavaleiro olhou ao seu filho, que já era um ponto no horizonte.

- ¿Por que tem que ser assim?

- A intenção não era que homens e mulheres sofressem. Mas, concedeu-se livre arbítrio, e infelizmente, o utilizaram sem levar em conta a harmonia com o universo - respondeu-lhe Merlin.

O Cavaleiro olhou-o com tristeza:

- Quando, no topo da Montanha da Verdade, caiu de mim o último pedaço da armadura, pensei que minha vida seria mais fácil.

A luz da compaixão inundou os olhos de Merlin:

- Mais fácil, não querido, apenas mais sutil.

- O que aprendi na Montanha, é o estou vivendo agora, ¿certo?

Merlin assentiu.

Aconselho-te que cada vez que te sintas fora de vosso centro de amor, respires profundamente.

Dito isto, o mago desapareceu.

Nos meses que transcorreram junto a Julieta, o Cavaleiro se descobriu suspirando uma e outra vez.

Mesmo que o Cavaleiro fosse, na realidade, mais carinhoso, amável e sensível que nunca, tinha umas idéias perfeitamente definidas com respeito à forma com a qual Julieta deveria se comportar como esposa. E Julieta tinha as suas próprias idéias sobre como viver sua vida, e não eram nem remotamente parecidas às do Cavaleiro.

- O problema - opinava Julieta - é que voltaste a casa esperando me encontrar aqui sentada, tecendo tapetes, bebendo vinho e te esperando. Pois bem, as coisas mudaram.

- Alegra-me que não estejas tecendo e bebendo - disse o Cavaleiro -, sobretudo bebendo. Mas gostaria que percebesses que voltei a casa.

Julieta continuou:

- E esperavas que continuasse necessitando, como antes, ser tu a cabeça da família e que eu cumprisse todos os vossos pedidos.

- Alegro-me de que não precises de mim da mesma forma, e não espero que faças tudo o que eu quiser, mas eu gostaria de que me dedicasses tanto tempo como ao teu trabalho de arrumar castelos.

Julieta estava comovida:

- Gostaria que realmente fosse assim, mas me encontras no mês de um trabalho tremendo e estou pagando horas extras aos gesseiros que trouxe da Saxônia e Glastonbury.

O cavaleiro começava a se sentir confuso.

- Não me necessitas em absoluto – disse nervosamente.

Julieta o rodeou com os braços e o beijou na boca com firmeza, ainda que, para ser franco, também com doçura, e depois correu ao pátio para montar no seu cavalo. O Cavaleiro a seguiu.

- Não estarias tão triste se ainda tivesses o negócio da Cavalaria, mas estás retirado e com muitíssimo tempo livre entre as mãos- disse Julieta.

Pulou sobre o cabalo e saiu galopando. O Cavaleiro permaneceu ali, observando-a.

As semanas posteriores não foram melhores para o Cavaleiro.

Quando não eram os gesseiros de Saxônia, Julieta estava ocupada com os pedreiros da Tiscana, e essa mudança de papéis no lar o enfastiava muitíssimo. Teria almejado retornar a casa com os seus novos conhecimentos e governar ao seu filho e a sua esposa com a Verdade, com Amor e com Bondade. Mas ao cabo de seis meses, essas três qualidades foram-se a tomar vento fresco. Agora se sentia só e com pouca auto-estima, uma vez que era um Cavaleiro desempregado. Estava irritadíssimo.

As coisas não foram melhor quando Julieta lhe ofereceu que se tornasse seu sócio na empresa de reabilitação. Ele não sentia a mínima vontade de ser sócio de nenhum negócio que ela dirigisse.
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Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Seg Jun 28, 2010 7:07 pm

Capítulo I – parte 4


Um dia, enquanto estava em uma caçada, queixou-se ao Rei de suas desditas matrimoniais.

O Rei ficou um tanto surpreendido.

- Eu pensava que desde tua ascensão ao topo da Montanha da Verdade teu casamento estivesse ainda melhor.

- Dei-me conta de uma coisa, Rei – disse o Cavaleiro. – Viver com a Verdade é uma coisa, viver com uma mulher é outra coisa.

O Rei começou a rir.

- Julieta é justo igual à sua mãe. Annabelle era uma mulher bela, forte e com determinação – suspirou com saudades. – Queria algo mais que um matrimônio, queria ser minha companheira.

O Cavaleiro suspirou:

- Deve ser uma debilidade congênita nas mulheres.

- Recordo o dia em que eu tinha que marchar para participar de uma cruzada – disse o Rei. – Procurei-a pelo castelo para me despedir dela, mas não a encontrei em nenhuma parte. Fui ao pátio para montar em meu cavalo e ali, montada em seu cavalo, a meu lado e vestindo uma armadura, estava Annabelle.

O Cavaleiro ficou atônito.

- ¡Uma mulher com armadura!

O rei assentiu:

- Eu lhe disse: ‘Annabelle, deves estar brincando, poderiam matar-nos’. Ela me contestou: ‘Prefiro falecer a teu lado que falecer pouco a pouco enquanto espero em casa’.

O Rei desviou a vista do Cavaleiro, seus olhos estavam úmidos:

- A guerra santa durou mais que o previsto. Voltei a casa para dizer a Annabelle que aquela havia sido minha última cruzada.

- Isso deve tê-la feito bem feliz – disse o Cavaleiro.

O Rei limpou de novo a garganta:

- Eu o disse prostrado ante sua tumba.

A história do Rei causou um grande impacto no Cavaleiro. No dia seguinte, aceitou a oferta de Julieta de participar como sócio na empresa de reabilitação, e nos meses que se seguiram trabalharam juntos, lado a lado. Por desgraça, isto não fez com que a situação entre eles melhorasse. Por um lado, o Cavaleiro não estava interessado pelo labor de reabilitar castelos, e por outro lado, continuava precisando que Julieta o necessitasse como antes... que lhe visse como o cabeça da família, e que ao menos de vez em quando aceitasse seus conselhos. Julieta, ao intentar recuperar seu poder, se opunha ao Cavaleiro em praticamente qualquer coisa.

Julieta era compassiva com a séria mudança que havia implantado em sua relação e, de vez em quando, se havia um banquete, ela pessoalmente preparava pratos para o Cavaleiro. Sabia que ele necessitava desse tipo de cuidados; no entanto, não se sentia com vontade de voltar a ser ama de casa. Incomodava-a enormemente fingir um papel que já não sentia seu.

Tudo aconteceu em um dia, na hora do jantar enquanto servia seu prato favorito, uma bela ‘paella’. Pequenas coisas como o fato de que Julieta deixasse cair bruscamente a bandeja sobre a mesa e jogasse a colher de servir sobre a mesa do lado, indicaram ao Cavaleiro que o prato viria acompanhado de uma discussão.

O cavaleiro suspirou:

- Bem, Julieta, ¿que acontece?

- Vos direi o que acontece – disse com brusquidão. – Supõe-se que és iluminado, carinhoso e sábio, e eu todavia estou servindo-te. – Quase lhe atirou o prato com a paella.

O Cavaleiro deteve o prato justo a tempo para evitar que se derramasse no colo.

- Mas a idéia de fazer o jantar e servir foi tua, e estavas contente por isso – lhe disse o Cavaleiro, desconcertado.

- Agora que estou enfadada por preparar o jantar me sinto péssima – replicou ela.

- ¿Que há de mau em servir-me o jantar? És minha esposa.

Julieta se sentou em uma cadeira junto a ele.

- O fato de que dizes precisamente isso demonstra o mal que havia naquilo. Esperas que eu faça coisas para ti só pelo fato de ser tu o homem e eu a mulher. ¿O que há de nossa sociedade?

- Somos sócios – protestou o Cavaleiro. – Eu comprei estes frutos do mar e tu os cozinhaste.

- Mas isso é porque nunca me ocupei em comprar os frutos do mar e tu nunca aprendeste a cozinhá-los.

- Vamos comer – disse o Cavaleiro. – Estou cansado de sentenciar sobre a paella.

- Pensei que as coisas seriam diferentes quando voltasses de tua busca – comentou Julieta – mas seguimos pelejando.

- Só quando estamos despertos – disse o Cavaleiro intentando que deixasse tema.

A Julieta não serviu como auxílio, mas sorriu.

-És bem mais sensato, e mais sensível, mas continuas sem compreender-me.

- Sou inteligente – interveio o Cavaleiro – não compreensivo.

Julieta voltou a olhá-lo enfadada.

- Se és tão inteligente, não entendo porque que não me compreendes.

- Porque compreender é um trabalho de jornada completa – lhe respondeu o Cavaleiro.

Julieta tirou a comida sobre a mesa:

- ¿Como queres que seja feliz com um homem que não me compreende?

- ¿Como esperas que seja feliz com uma mulher que não compreende que não posso compreendê-la?

O rosto de Julieta parecia o de uma leoa enjaulada. Reprimiu-se e finalmente disse:

- Gostaria de falar com Merlin sobre este assunto.

Uma voz familiar disse:

- Por suposto, querida.

Julieta lançou um grito de assombro. Merlin havia aparecido sentando à mesa, justo a seu lado. O Cavaleiro não se surpreendeu, pois estava acostumado a que Merlin aparecesse sempre que se mencionava seu nome especialmente a hora do jantar.

- ¡Que feliz estou que estejas aqui! – disse Julieta que apreciava ao velho mago.

- Eu também. Estás servindo meu jantar favorito – respondeu Merlin e olhou ao Cavaleiro. – ¿Passas-me a paella, por favor? Julieta, querida, és uma cozinheira maravilhosa.

O Cavaleiro observou Merlin com receio. Pareceu-lhe que ia fazer uma piada de mau gosto.

A cara do mago não confirmava as suspeitas do Cavaleiro. Serviu-se inocentemente de uma boa quantidade da paella. Levou a boca um pouco e mastigou com complacência.

Julieta não deu sinais de agradecer sua complacência.

- Isso já não significa para mim um cumprimento. Os homens são propensos a ver as mulheres como cozinheiras, mas apreciam muito pouco nossa inteligência e nosso espírito. É a maneira que têm de evitar que uma mulher seja mais do que ele é.

Merlin sorriu:

- Daqui a uns tantos séculos, esse comentário a converteria em uma defensora dos direitos da mulher.

- ¿O que é uma defensora dos direitos da mulher?

- Uma mulher que quer ser tratada como uma pessoa – respondeu Merlin.

O rosto de Julieta se iluminou.

- Isso é o que eu sou – disse com júbilo. ¡Sou uma pessoa!

Voltou-se ao Cavaleiro e lhe espetou com virulência:

- ¡Sou uma pessoa! ¿Que dizes sobre isso?

- ¿Passas-me o molho?

- Pois bem, ¡ris de que eu seja uma pessoa! – lhe gritou atirando o molho em cima do prato e também em cima dele.

Merlin levantou a mão para deter a discussão que ia mais além.

- Por favor, comendo, não. Não é bom para a digestão. – E se serviu de uma quantidade generosa de molho. Suspirou: - Os dois estavam tendo problemas que, há séculos, os casais tinham, e que terão nos séculos vindouros. O casamento havia se convertido em um estado de impasse sacramental.

Olhou ao Cavaleiro e disse:

- Não importa o quão iluminado uma pessoa chegue a estar – ponderou – Tu, como homem que és, não pensas e nem sentes como uma mulher. – E a Julieta lhe disse: - E tu não vais pensar e nem sentir como um homem - sorriu carinhosamente o Cavaleiro. - Chegaste bem longe em tua busca e retornaste mais sábio e também mais compreensivo. Agora estás realmente no início. – E dirigindo-se a Julieta: - E uma vez que tu também estás no início tens que aprender bastante do que o Cavaleiro aprendeu. Além disso, tens que aprender a ter uma relação amorosa completa. Estaria bem que vos levasse comigo a fazer uma busca conjunta.

Julieta parecia entusiasmada.

- ¿Estariam dispostos a sair depois de amanhã? - perguntou a Merlin.

- Estou disposto a sair depois deste momento - respondeu Merlin sorrindo.

- Cristóvão voltará do torneio depois de amanhã - aclarou o Cavaleiro.

- Não podemos ir embora sem nos despedir dele – disse Julieta – além disso, preciso tempo para fazer as malas – e encaminhou-se para a porta e em seguida se dirigiu a Merlin: - ¿O que veste uma pessoa para empreender a busca?

Merlin soltou uma gargalhada.

- Nunca haviam me perguntado isso antes.

- Porque até agora nunca tinhas levado uma mulher a realizar uma busca – disse o Cavaleiro.

- Simplesmente quero estar adequadamente vestida para cada ocasião – sentenciou Julieta, dignamente.

O Cavaleiro começou rir:

- Isso é ser mulher, segundo tu.

Julieta fez-lhe uma cara feia e saiu desvairada do quarto.

Merlin sorriu.

- Sugiro-te que não digas isso nunca a Julieta. Dessa forma, só provocarias mais enfrentamentos.

- É verdade – aceitou o Cavaleiro.

- Aos homens, desconcerta-os a forma diferente com a qual agem as mulheres com respeito a eles, e por esse motivo chamam às mulheres o sexo oposto, mas enquanto pensas em Julieta como alguém do sexo oposto, farás dela a tua adversária em vez de o teu amor- prosseguiu Merlin.

- Então, ¿o que faço? - perguntou o Cavaleiro, indefeso.

Como toda resposta, Merlin tirou um alaúde de baixo da túnica e começou a tocar e a cantar:

Não tentes compreendê-la
E nunca, nunca submetê-la
Tão só querê-la
E se a sua maneira de pensar te faz pestanejar
Tão só amá-la

- Existem muitos mais versos – esclareceu Merlin enquanto guardava o alaúde embaixo da túnica - mas penso que já te fizeste uma idéia.

- Não, em absoluto. Se não intento compreendê-la, ¿como posso aprender a amá-la?

- Porque se trata justo do contrário – respondeu Merlin com doçura. - Não poderás compreender a Julieta de verdade até que não aprendas antes a amá-la incondicionalmente. – O Cavaleiro abriu a boca para expressar a sua confusão, mas Merlin o deteve com uma mão levantada e um doce sorriso. Prosseguiu: - Se tentas amar a Julieta compreendendo-a antes, buscarás motivos lógicos para explicar porque pensas como pensas e porque ages como ages, e inclusive porque sentes como sentes. Em outras palavras, sempre que sejas capaz de encontrar uma explicação que possas entender mentalmente, poderás aceitar o seu comportamento.

À medida que o Cavaleiro ia entendendo a questão da compreensão, assentia com a cabeça.

- Porém, terá momentos em que não encontrarás uma explicação que te satisfaça, e então não só não a amarás, como também estarás tremendamente incomodado com ela - prosseguiu Merlin.

O Cavaleiro assentiu de novo. Tinha experimentado vários desses momentos.

- Por conseguinte, – disse Merlin - teu amor por Julieta depende de que os atos dela, as suas idéias, e seus sentimentos satisfaçam as explicações que tua mente te exige. Quando amas a alguém com a mente, o amor não pode ser constante. Quando amas a alguém com o coração, o amor está sempre presente, como está também a compreensão.

O Cavaleiro sentia-se constrangido.

- ¿Quanto tempo me levará fazer isto? – perguntou.

Merlin começou a rir.

- ¿Não dispões do resto de tua vida?

- Sim, mas penso que tentar amar a Julieta cada momento a fará mais curta – respondeu o Cavaleiro.

Merlin voltou a rir.

- Percebes o que acabas de dizer: ‘penso’. Quando não penses, quando apenas ames já não voltarás a ‘tentar’ compreender ou amar; simplesmente o farás. A partir desse momento, já não pensarás mais em ti mesmo como uma pessoa inteligente ou boa, generosa e amorosa. Simplesmente o serás.

As palavras de Merlin comoveram profundamente ao Cavaleiro. Sua voz parecia apenas um sussurro:

- ¿Pensas que me acontecerá isto?

- A busca te proporcionará a resposta - disse Merlin enquanto olhava com carinho ao Cavaleiro.
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Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Qua Jun 30, 2010 1:08 am

Capitulo 2 (Primeira Parte)
Começa a Busca

No pátio do castelo Julieta observava como o Cavaleiro lutava para levantar duas canastras cheias com a roupa da busca e as amarrava ao lombo de um asno nada disposto. Depois, o Cavaleiro secou a testa e respirou profundamente. Recordou que Merlin havia lhe ensinado que a energia que reunia quando respirava profundamente era amor. E nesse momento necessitava todo o amor que conseguisse reunir para suavizar ao máximo a sua voz.

-¿Que diabos levas na tua bagagem?
- De tudo, respondeu Julieta alegremente – Como não sabia o que se vestia para uma busca, a solução mais pratica era levar de tudo.

O Cavaleiro voltou a respirar profundamente. Sentia que o amor por Julieta alargava o seu coração.
- Querida, ainda que a busca levasse cinqüenta anos, não chegarias a vestir a roupa de duas canastras.
Apenas uma delas tem roupa -respondeu- Engordei, mas tento perder peso, por tanto precisarei roupa para quando estiver gorda e quando estiver magra. A segunda canastra esta cheia de sapatos.
O Cavaleiro olhava fixamente para ela.
Os sapatos de uma pessoa nunca são demasiados. Gastam-se e desde que engordei parecem se gastar mais ainda.

O Cavaleiro não sabia se poderia respirar suficiente amor para se enfrentar a essa situação. Provavelmente tivesse perdido o controle se Merlin não tivesse surgido do estábulo trazendo três belíssimos cavalos.
- O melhor é sair antes de ficarmos sem a claridade do dia- disse Merlin.
Não podemos ir embora até que Cristóvão volte a casa -esclareceu Julieta. – Deveria ter chegado ontem -disse com preocupação.

Merlin sorriu e indicou uma colina que estava à direita
Olhem ali – ordenou-lhe-, aparecerá em qualquer momento.
Fiel ás palavras do mago, Cristóvão apareceu repentinamente sobre a colina. Puxou as rédeas e o cavalo empinou. Constituía uma bela estampa com a sua armadura e a sua pena vermelha na viseira do capacete. Montava o cavalo como se fosse uma parte dele próprio. Cumprimentou os pais e se lançou ao monte de modo temerário.

O Cavaleiro sentiu a mesma onda de calor que sentia sempre que olhava para o seu filho.<< como ele se parece comigo -pensou-, e por sorte, que diferente que ele é de mim.>>
Os anos nos que tinha estado sem o seu filho tinham-no conduzido a um lugar onde já não o necessitava, e, tal como tinha lhe ensinado Merlin, quando não precisamos de uma pessoa é só então quando podemos amá-la de verdade. O Cavaleiro agradecia a Julieta que tivesse educado ao menino nos princípios da sensibilidade, o amor e a afetividade de sua parte feminina sem que isso dizimasse em modo algum a sua masculinidade.
Observou como Cristóvão descia do cavalo agilmente, ou seja, com toda a agilidade com a qual se pode desmontar um cavalo levando uma armadura de 45 quilos. Cristóvão tirou o capacete, beijou e estreitou entre os seus braços a sua mãe, e abraçou ao seu pai.

- Estava almejando que retornasse hoje do torneio, Cristóvão - disse o Cavaleiro.
Em outra época, o Cavaleiro teria formulado uma pergunta transcendente: <<venceste?>> mas agora era capaz de fazer à única e autentica pergunta: - Te divertistes, filho?
Como sabia o quanto ele gostava de rimas, Cristóvão respondeu:
“Pelejei e brinquei noite e dia. Não fiz nada ruim, tudo foi bonomia”
Pai e filho se largaram a rir. O Cavaleiro olhou agradecido a Merlin, e lhe disse: Ensinaste-lhe bem durante a minha ausência, Merlin.

Foi uma alegria constante - respondeu Merlin.
Desde Arthur não tinha tido um estudante tão ágil.
Olhou ao garoto com grande carinho e respeito. Os olhos de Cristóvão refletiam os mesmos sentimentos.
De repente Cristóvão viu o asno e os três cavalos selados. Julieta se deu conta.
- Merlin quer que o teu pai e eu mesma realizemos uma busca –lhe explicou.

Cristóvão olhou para ela surpreso e se dirigindo a Merlin disse:
- Quantos anos eu terei quando eles voltarem?

Merlin se riu:
- Os dois parecem estar bem dispostos e o tempo se mede pela disposição.
- Estou convencida que não estaremos muito tempo fora, querido. Enquanto isso, talvez você gostaria de ficar com o seu avô – Julieta se apressou a responder.
Os olhos azuis de Cristóvão brilharam:
- Por que não? Não tem muitas pessoas que tenham um avô rei.

O Cavaleiro rolou de rir.
- Brinca com ele, Cristóvão. Quando ele ri esquece de ser quem acredita ser.
Todos riram.
Merlin olhou rumo á saída do sol: Não podemos nos atrasar mais.
Despediram-se todos e Julieta, segurando as lagrimas, abraçou Cristóvão.
- Comporte-se bem – sussurrou
- Sinto-me bem pois sei que estão fazendo uma coisa boa para vocês – sussurrou também Cristóvão.
Julieta subiu ao cavalo com o auxilio do Cavaleiro. Todos se despediram de Cristóvão, este olhou como o trio desaparecia pela colina e, de repente se sentiu bastante só. Houve uma época na qual Cristóvão teria se sentido afundado, teria pulado no seu cavalo e galopado em busca de seu avô, porem, Merlin tinha lhe ensinado a não fugir dos sentimentos, mas a viver com eles. Cristóvão, a contragosto, ficou com a sua solidão,e , para a sua própria surpresa, começou a chorar.
Enquanto limpava as lágrimas, percebeu que o que fazia com que ele chorasse não eram apenas a sua solidão e a tristeza, mas também a raiva e o ressentimento que sentia com os pais por tê-lo deixado sozinho. Não tinha conseguido vê-los demasiado e agora estariam fora durante meses, talvez anos. A raiva e o ressentimento aumentaram. Desabafou-se fisicamente pegando um machado e cortando um monte de lenha. Finalmente, raiva e suor brotaram de seu interior. Sentou-se em cima de um tronco para sossegar e se sentiu um pouco melhor... Além disso, soube que existia outra forma de ver o abandono dos seus pais . De repente sentiu uma sensação de liberdade... Não se responsabilizaria pelas ações deles, seria responsável por si mesmo. Levantou-se e sentiu que uma nova atitude o invadia por completo. Tinha dado outro passo para chegar a ser ele mesmo, e sorriu ao sentir a força de ter dado mais um passo rumo á maturidade. Sacudiu a cabeça e suspirou pensando no que tinha passado nas ultimas horas.
- Merlin, Merlin, por que é tão difícil crescer?- murmurou.

A voz de Merlin sussurrou-lhe a resposta
As flores crescem com gotas de chuva
Os humanos crescem com lagrimas de penúria
Não penses que tudo é em vão, se caminhas com amor irmão
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Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Qua Jun 30, 2010 10:07 pm

Capitulo II (Segunda Parte)

Julieta, o Cavaleiro e Merlin chegaram rapidamente ao bosque. Saíram para recebê-los todos os animais dos quais o Cavaleiro tinha falado a Julieta. O Cavaleiro estava transbordante de alegria. Abraçou o Esquilo, a raposa, o cervo, a Rebeca, a pomba e ao grande urso preto.

Nunca pensei que veria todos de novo- disse o Cavaleiro.

Nós sim sabíamos que voltaríamos a te ver respondeu o Esquilo.

- Tens muito que apreender – assentiu a raposa com a cabeça.

Merlin apresentou a Julieta os animais, ao que Julieta se enamorou de imediato.
O Cavaleiro estava surpreso do fácil que tinha sido para Julieta aceitar o fato de que os animais falassem entre si. Merlin viu a sua surpresa.

- As mulheres –explicou ao Cavaleiro- têm o dom de saber receber. Por isso recebem novos pensamentos, novos sentimentos e novas idéias com mais rapidez que os homens.

- E isso, a faz melhor do que eu?- O Cavaleiro parecia nervoso.

- Apenas diferente- Merlin riu-se e depois acrescentou: é melhor não comparar uma pessoa com outra, um sexo com outro.

Julieta ouviu este ultimo e olhou o mago com carinho e admiração.

- Como chegastes a ser tão sábio?
- Admitindo que não sei nada- respondeu Merlin.

- Não entendo- disse o Cavaleiro.

-Quando pensamos que sabemos de tudo, não fica espaço para aprender mais nada.
Mas se soubéssemos que não sabemos nada, temos espaço para aprender tudo – explicou-lhe Merlin.

- Gostaria de viver eternamente contigo e com os animais do bosque- suspirou Julieta, invadida pela beleza desse pensamento.

- Eu também gostaria que pudesse fazê-lo- disse o cervo, acariciando a bochecha de Julieta com o focinho.
- És um cervo encantador – comentou Julieta enquanto abraçava ao carinhoso animal.

Todos riram. Julieta falou aparte ao Cavaleiro:
- Não te atrevas a voltar a levar a casa um cervo para que o guise. Poderíamos comermos um dos seus parentes.
- Voltarei a ser vegetariano – prometeu o Cavaleiro.

- Bom, teríamos que repousar um pouco- sentenciou Merlin , pois amanha começaremos bem rápido.
- Nos acompanharão os animais como fizeram na busca do Cavaleiro?- perguntou Julieta.

Merlin a interrompeu.

- Desta vez tem espaço apenas para dois animais pequenos
- Pois então eu fico de fora – disse o urso.
- Irei eu- interveio Esquilo.
- Eu também- propôs Rebeca.
- Vocês poderão vir depois- esclareceu Merlin aos demais.

Pois então, na manhã seguinte, á saída do sol, Julieta se vestiu com as suas melhores roupas de busca e se reuniu com Merlin para receber instruções.

Perante a supressa de todos, Merlin movimentou a mão e formou uma deliciosa bolha violeta envolta deles. A bolha se elevou ao céu e os levou flutuando até o horizonte.
Aterrissaram na praia de um vasto oceano. A bolha estourou e todos olharam ao seu arredor

- Aonde estamos? – Perguntou o Cavaleiro

- Este é o oceano que tu e Julieta tereis que atravessar – esclareceu Merlin- Chama-se Mar do Matrimonio.
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Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Sex Jul 02, 2010 5:00 am

Junto ao Belíssimo Mar

Aqui tem muitíssima água - observou Ardi. Nem sequer sinto que posso atravessá-la voando - disse Rebeca.
- ¿Como vamos atravessar este mar? —perguntou Julieta.
- Ainda não aprendi a andar sobre a água - comentou secamente o Cavaleiro. Julieta bateu palmas emocionada.

- ¿Vai nos ensinar a andar sobre a água? - perguntou ao mago.
- Conheço uma maneira mais fácil — disse Merlin. Movimentou a mão esquerda e apareceu uma bela barca pequena. Tinha forma de coração.

- ¡Que barca mais bonita!

- Sim, está talhada no amor do coração - sorriu Merlin.
- Apenas espero que flutue... Não nado muito bem, comentou Esquilo, que era bem prático depois de examinar a barca.
- Não nada muito bem, não. Não nada tão bem....– corrigiu Merlin.
- Não estou de humor para receber correções – disse Esquilo - Na verdade não tenho certeza se quero ir.
- A barca se manterá flutuando sempre que Julieta e o Cavaleiro não brigarem - esclareceu Merlin.
- Agora já sei que não quero ir – disse Esquilo.
- Eu também não quero ir – uniu-se Rebeca - Se começarem a brigar a 10 milhas da costa, nunca conseguirei retornar à mesma.
- Não é questão de discutir ou de não estar de acordo um com outro - o que fará essa barca afundar será continuar incomodado, enfadado ou não querer ver o ponto de vista do outro - comentou Merlin.
- Me parece que também não sei se quero ir - disse o Cavaleiro.
Julieta olhou a embarcação e depois o vasto oceano, e perguntou um tanto temerosa:
- ¿Como chegou a ser tão grande o mar do Matrimônio?
- Ao longo dos séculos, milhões e milhões de homens e mulheres que se amaram e sofreram desavenças, traições e abandonos encheram o mar do Matrimônio com lágrimas de auto-compaixão - respondeu Merlin.
Julieta contemplou o mar com tristeza:

- Aí devem estar algumas das minhas lágrimas.
- E também as minhas – disse o Cavaleiro.
- Se são capazes de atravessar esse oceano de auto-compaixão, pesar e dor, no outro lado encontrarão alegria eterna, felicidade e êxtase - explicou Merlin.
Julieta respirou profundamente, ergueu-se sobre o seu metro e cinqüenta e oito com uma vozinha quase imperceptível:
- Estou disposta a tentar.
O Cavaleiro olhou o mar durante um bom tempo, e em seguida os olhos de Julieta e finalmente anunciou:
- Eu também.
E assim foi como o Cavaleiro, Julieta, Esquilo e a pomba subiram à barquinha com forma de coração. Com um gesto, Merlin colocou a barca no mar.
O Cavaleiro se dirigiu à proa e tomou o timão.

Julieta foi detrás dele:

-¿Por que tens que ser tu quem dirige a embarcação?
- Almejo chegar a salvo ao outro lado - respondeu o Cavaleiro.
- ¿Conheces o rumo?- Perguntou Julieta.
O Cavaleiro negou com a cabeça.
- Repito, ¿por que tens que ser tu quem dirige a embarcação? — voltou a perguntar Julieta.
O Cavaleiro encolheu os ombros e disse simplesmente:

- Porque sou o homem - o meu dever é vos levar e te proteger.
- Pois até agora – disse Julieta com um tom mordaz – nos levaste eficazmente a quatorze anos de infelicidade.
Até esse momento, o mar tinha estado calmo, mas depois dessas palavras começou a esbravejar. Uma vez que regressou da busca, compreensivo e sábio, bem poucas coisas havia que pudessem irritar ao Cavaleiro, mas Julieta o tirava do sério a cada instante.

- Não sabes muito mais do que eu a respeito de como se deve navegar através deste oceano – concluiu.
- O que eu não sei não me fará dano. O que tu não sabes pode me fazê-lo - disse o Cavaleiro com brusquidão.
O mar estava mais agitado e ameaçador – Rebeca posou em um lado da barca, disposta a empreender o vôo à terra. Esquilo ia levando solavancos de um lado ao outro e o seu aspecto era como se fosse a perder todas as avelãs que tinha para o café da manhã. Rebeca apontou para a popa com uma das suas asas e gritou:
- ¡Caramba, olhem!
Todos se voltaram e se encontraram frente a uma onda de seis metros que sem dúvida alguma faria com que virassem.
- Céu santo! Por que não tomam o timão entre os dois? - gritou Esquilo.
- Da minha parte concordo - disse Julieta, depois de duvidar por um momento.
O Cavaleiro teria duvidado mais um pouco, mas uma oleada da onda o convenceu a fazê-lo.
- Da minha parte, também está bem - disse, e ambos pegaram o timão. A onda sumiu de repente e o mar ficou calmo novamente.
Esquilo e Rebeca deixaram escapar um suspiro de alivio.
Julieta sorriu. Com a mão sobre o timão, sentiu pela primeira vez a alegria de navegar na direção na qual ia viver com o Cavaleiro. Começou cantar:
Isto é o que eu entendo por um sócio.
O Cavaleiro olhou para Julieta com uma nova consideração. Ela tinha almejado seguir o seu próprio caminho, mas não tinha querido acabar com ambos para consegui-lo. Começava a admirar a sua força de vontade quando, de repente, viu que dava um golpe à esquerda no timão. O Cavaleiro endireitou imediatamente o timão.
- ¿Por que fizeste isso? – perguntou Julieta.

- Porque estavas nos desviando do rumo, claramente - respondeu o Cavaleiro.
- ¿Como o sabias? – quis saber Julieta.
- Porque estou seguindo à estrela polar – replicou-lhe o Cavaleiro.
- Como consegues saber onde está a estrela polar, se é de dia?
- Porque me lembro - disse o Cavaleiro.
- Além disso, ¿como sabes que temos que ir rumo ao norte? Perguntou-lhe.

- ¿E a ti, o que é que te faz pensar que temos que ir rumo ao sul? - repôs o Cavaleiro com voz tensa.
- O intuo - respondeu com acridez.
Esquilo não gostava em absoluto do rumo que estava tomando a conversa, e estava certo. O mar mais uma vez, começou se picar.
- Eu também tenho uma intuição. E a minha intuição me diz que vamos para o norte para atravessar o mar - disse o Cavaleiro.

Julieta colocou mais ênfase na sua resposta:
- Não creio que tenhas intuição alguma, creio que estás fingindo.
- Durante anos reclamaste de que penso e não sinto, e agora que sinto e intuo, me dizes que estou fingindo, apenas porque os meus sentimentos diferem dos teus - replicou o Cavaleiro, cada vez mais bravo.
O mar refletia a irritação do Cavaleiro e fervia de espuma.

- ¿Por que não vamos metade do caminho rumo ao norte e a outra metade rumo ao sul? – repôs Rebeca, nervosa, em uma tentativa de paz.

- O rumo não é o problema - disse Julieta olhando fixamente o Cavaleiro.
- Tu queres controlar o rumo da mesma maneira que me controlaste durante esses anos de matrimônio.
- Se eu deixasse o controle - comentou o Cavaleiro-, tu perderias o teu passatempo predileto.
- ¿Qual? – lhe perguntou ela.
- Me culpar quando as coisas não andavam bem.
Enquanto, uma onda de nove metros se dirigia à direita da embarcação, Esquilo gritou apontando para a onda.
- ¡Calma, por favor!

Mas Julieta e o Cavaleiro estavam tão envolvidos na disputa que tinham soltado o timão e a barquinha com forma de coração dava voltas e voltas sobre si mesma perigosamente.

- E quando não me culpas tentas me mudar.
- A única coisa que quero é que sejas melhor para que nossa vida melhore - gritou Julieta.
- ¿Como sabes o que é melhor? - queixou-se o Cavaleiro- ¡Estás ressentida demais para saber o que é melhor!

Estas palavras foram as últimas que se ouviram.
O Cavaleiro ia acrescentar algo, mas as suas palavras ficaram embaixo da água. A onda os envolveu por completo e fez virar a barca em meio do mar.
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Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Sex Jul 02, 2010 7:00 pm

Salvos pela Bolha

Todos teriam se afogado se não tivesse aparecido Merlin, com a sua bolha cor azul lavanda, para tirá-los de lá.
Enquanto flutuavam em direção ao Bosque de Merlin, Julieta chorava e o Cavaleiro estava bastante abatido.
- Nós fracassamos – gemeu Julieta.

Merlin sorriu-lhes com grande ternura.
- Não - respondeu - Isto não é um fracasso, é apenas uma experiência.

- Se não fosse por ti, Merlin, essa experiência teria acabado no fundo do mar - disse o Cavaleiro.

Merlin os consolou, e lhes disse que até o momento, que ele soubesse, nenhum casal tinha atravessado o mar do Matrimônio em uma viagem relâmpago.

O esforço que cada um tem que fazer é permanente, constante: é um aprendizado contínuo de como respeitar os pensamentos e sentimentos do outro, ao invés de cada um insistir em ter razão. Quando se intenta uma vez, pode se sair a navegar de novo e ter uma experiência bem mais feliz.

- Se navegarem de novo será sem mim, disse Esquilo, desgastado, enquanto escorria a água do rabo.
- Sou demasiado sensível para fazer esse tipo de viagens – concordou Rebeca de modo veemente.

- ¿Por que o Cavaleiro e eu acabamos sempre brigando? - pergunto Julieta.
- Para mim é muito mais fácil brigar com outros cavaleiros – disse o Cavaleiro - e com certeza tenho mais chances de ganhar.

Merlin sorriu:

- A diferença com um casal é que ainda ganhando se perde.
- Eu não acredito que esteja tentando ganhar – disse Julieta. Apenas tento sobreviver.

Merlin assentiu com a cabeça:
- Ambos tentais sobreviver, o que responde a tua pergunta, Julieta, de porque os dois estavam sempre discutindo.
- ¿Perceberam que a primeira coisa que fizeram ao entrar na barca foi pegar o timão?

Julieta e o Cavaleiro assentiram.
- Desejavam aquilo que todos os homens e todas as mulheres querem em uma relação: o controle.

- Eu penso com maior clareza que Julieta – defendeu-se o Cavaleiro.
Julieta olhou-o irritada:

- Acreditas que pensas com mais clareza, mas fizeste muitas bobagens.
- Certamente, alguma vez também errei - interrompeu o Cavaleiro.
- Mas não terias errado se tivesses ouvido as minhas opiniões – disse Julieta em um tom desesperado.

Esquilo olhou com ansiedade as montanhas íngremes afastadas, e dirigindo-se a Merlin disse:
- Se continuarem discutindo, ¿essa bolha explodirá?

Merlin riu e respondeu:
- Eu diria que sim.

E, se dirigindo a Julieta e ao Cavaleiro, lhes disse:
- Se não quiserem fazer parte da paisagem, o melhor é deixarem de discutir.

Ambos se acalmaram e sentiram-se envergonhados.

Merlin teve compaixão deles:
- Muitos casais se afundaram no mar do Matrimonio, e muitos amantes que sonharam com relações felizes assistiram como a sua bolha explodira.

Julieta olhou para o Cavaleiro com lágrimas nos olhos e lhe disse:
- Carinho, eu não quero que isso nos aconteça.
- Eu também não - disse o Cavaleiro – E a abraçou apertando-a contra si.

Suas roupas molhadas fizeram com que, ao se beijar, chorassem água.
A bolha aterrissou em uma clareira do bosque. Ao saírem dela o urso, a raposa e o cervo deram-lhes as boas vindas.

- Afundou-se a barca, ¿é verdade? - disse a raposa olhando ao ensopado casal.
Enquanto acariciava a cabeça da raposa Merlin sussurrou:
- Sem julgamentos, por favor.
A raposa, por ser um animal bem astuto respondeu:
- Não estava julgando, Merlin, apenas observando.

O urso quis intervir na conversa:
- Te conheço, raposa, sempre ditas sentenças. Se Merlin não te detivesse, terias dito ao Cavaleiro e a Julieta como eles são bobos.
O urso se deteve e levou a pata à boca, quando se deu conta de que acabava de emitir um julgamento.
Julieta riu e disse:
- Tens razão, urso, quase que nos afogamos.
- É importante levar em conta os julgamentos porque nessa busca não deveis ver a si mesmos com parcialidade, preconceitos ou critica – sentenciou Merlin.

- Isto poderá ser duro – disse Julieta.
- Apenas há que se levar em conta a experiência.
- É importante que ambos admitam os próprios erros, pois se cada um joga a culpa no outro, os julgamentos bloqueiam as ações e nenhum dos dois pode mudar.
- Quer dizer que uma pessoa não consegue mudar se julgar a si mesma ou aos demais? - perguntou o Cavaleiro.
Merlin assentiu:
- Exatamente. Se uma pessoa julga a outra, esta não se permite ver a mudança que experimenta.

Julieta espirrou de imprevisto.
- Vou fazer uma mudança agora mesmo. Vou trocar essa roupa por uma que esteja seca - disse.
Merlin fez um gesto com a mão e embaixo de um pinheiro apareceu um maravilhoso fogo. O cavaleiro, Esquilo e Rebeca sentaram-se também para se secar.

Julieta, seca e feliz, se sentou junto a eles.
O Cavaleiro pensou que um dos seus julgamentos sobre Julieta era que sempre carregava demasiadas roupas nas viagens. Imediatamente o julgamento desapareceu, sobretudo porque tinha almejado que ela levasse alguma roupa seca para ele. Em seguida se deu conta de que julgar alguém evita que ele faça o que tem que fazer.
- Estás certo - observou Merlin.

O Cavaleiro olhou para cima perplexo. Lhe desesperava que Merlin lesse o seu pensamento.
Julieta olhou a Merlin intimidada:
- ¿Sabia o que o Cavaleiro estava pensando?
- Ele sempre sabe o que todos pensam - disse o Cavaleiro, entre admirado e aflito.

- Sabias o que eu pensava enquanto trocava de roupa? - perguntou Julieta, que parecia incomodada.
Merlin sorriu com picardia:

- Estou engordando.
Julieta ruborizou. Todos rolaram de rir. Julieta voltou a se corar.
- Se sabes o que penso não tenho privacidade.
- Ninguém tem pensamentos realmente privados e acreditamos que por não expressá-los em voz alta ninguém os conhece – respondeu Merlin.
- Não sei bem o que quer dizer.
Merlin arrancou uma folha de uma árvore. Abriu a bela mãozinha de Julieta e introduziu a folha nela.
- Digamos que esta folha é o teu pensamento.
Julieta estava encantada com a idéia de que a folha fosse o seu pensamento… E perguntou:
- E agora, ¿o que?
- ¡Sopre!
Julieta obedeceu e a folha abandonou a sua mão. Uma brisa a levou e ela logo sumiu de vista.
- Vosso pensamento - disse Merlin -, assim como a folha, está agora no universo. Os pensamentos criam ação. Para que aconteça algo, antes há que pensá-lo. As milhões de pessoas que têm pensamentos positivos enchem o mundo de beleza. Os pensamentos negativos criam ações negativas.
- ¿Mesmo que não se digam?- perguntou Julieta.
Merlin assentiu:
- A própria energia dos pensamentos negativos cria tensão e desassossego. As pessoas que sentem raiva e violência fazem as cruzadas e as guerras.
- A nível pessoal, os pensamentos negativos entre casais conduzem à ação do divórcio.
Por um momento, todos permaneceram calados, impactados pelas palavras de Merlin.
O cervo rompeu o silêncio.
- Estou contente de ter nascido animal. A única coisa que quero é dormir, comer e sobretudo fugir de qualquer um que queira me comer.
O Cavaleiro se deu por aludido e disse:
- Juro que a partir desse momento nenhum cervo irá parar na minha boca.
- Nem na minha - completou Julieta.
- Isso está muito bem - disse a raposa -, mas não é de raposa a gola que levas na tua jaqueta?
Julieta tocou a jaqueta, envergonhada.
- Poderia ser meu tio.
- Perdeu ao seu tio o ano passado em uma caçada - apontou Esquilo.
Com certo remorso Julieta se agachou e abraçou a raposa, dizendo:
- Oh, sinto, sinto muito.
A raposa não aceitou a sua compaixão.
- A pessoa que toca uma pele de raposa nunca tocará a minha pele - disse indignada. Então viu que Merlin a estava olhando, e continuou com uma vozinha: perdôo a mim mesma.
- Mas eu quero que perdoes a mim –pediu Julieta.
- Não é necessário, ela perdoou a si mesma por te lhe colocado no dilema de ter que pedir-lhe perdão - disse Rebeca.
Julieta sacudiu a cabeça, confusa:
- Não entendo isso.
- A maioria das pessoas não entende o perdão. Sempre pedem perdão umas às outras, quando o que cada uma delas precisa é perdoarem a si mesmas por terem criado uma situação na qual o perdão é necessário – argumentou Merlin.
- Penso entendê-lo – disse o Cavaleiro - Se escutarmos o nosso ego ao invés do nosso coração, sempre precisaremos que nos perdoem para nos sentirmos melhor.
Merlin assentiu:
- Em grande parte é assim. Ouso dizer que, antes que termine esta busca, já tereis entendido tudo.
- ¿Qual é o passo seguinte que temos que dar? - perguntou o Cavaleiro.
Merlin fez de novo um gesto com a mão e a bela bolha cor lavanda voltou a aparecer. Indicou a Julieta e ao Cavaleiro que entrassem nela.
Julieta se deteve e disse para os animais:

- ¿Virá algum conosco?
- A única condição para que eu venha é que essa parte da busca seja em terreno seco - respondeu Esquilo.
Merlin rolou de rir:
- Te afirmo que assim será.
- Eu iria se não fosse demasiado pesado para essa bolha - disse o urso.

- A bolha pode suportar muitas vezes o teu peso - respondeu-lhe Merlin
- Eu não quero ficar para trás – acrescentou Rebeca.
A raposa e o cervo decidiram que iriam também.

Enquanto flutuavam no ar, o Cavaleiro disse aos animais que estava bem contente que tivessem decido acompanhá-los, e que isso lhe dava maior segurança para completar a viagem.

- Nunca teria tido sucesso na minha primeira busca se não fosse por eles – explicou o Cavaleiro a Julieta.

A bolha ascendeu nas alturas, e depois finalmente, pousaram em uma outra parte do bosque, que estava coberta por uma espessa bruma.
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Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Dom Jul 04, 2010 1:07 am

Capítulo V (Primeira Parte)
O bosque das ilusões

Julieta contemplou o bosque e estremeceu:

- Dá medo – disse.
- Há quem o descreva como sinistro.
- Chama-se o Bosque das ilusões – respondeu Merlin.
- ¿Por que se chama assim?- perguntou o Cavaleiro.
- Porque a ilusão é como uma bruma. Oculta a realidade - respondeu Merlin.

Ao se aproximarem do bosque, o Cavaleiro e Julieta titubearam - não tinha um aspecto convidativo.
Julieta voltou a estremecer.

- Parte desta bruma é tão espessa como a neblina. ¿Não te assusta? – perguntou ao urso.
O urso negou com a cabeça.
- Eu não vejo nenhuma bruma nem tampouco nenhuma neblina.
- Nem eu - disse o cervo.

Julieta e o Cavaleiro se deram conta, com certo assombro, de que nenhum dos animais via a bruma.
- Isso se deve a que os animais não vivem com ilusão. Não têm falsas crenças sobre como são as coisas. Veem tudo tal e qual é – explicou Merlin.

O Cavaleiro respirou aliviado.

- Estou bem contente de que vieste conosco.
- O objetivo dessa busca – esclareceu Merlin a Julieta e ao Cavaleiro - é transpassar a bruma das vossas ilusões até o outro extremo do bosque, assim podereis chegar a entender a si mesmos, quem são para si e para o outro.

E virando-se para os animais disse:

- Nenhum de vós guiará a Julieta ou ao Cavaleiro através da bruma. Eles são os que devem encontrar o seu próprio caminho através das suas ilusões, ou esta busca não terá sentido.
- Mas, ¿e se nos perdermos?- protestou Julieta.
- Tenho certeza de que o fareis – disse Merlin. - Quando acontecer, me chamem com toda liberdade e, no mesmo instante aparecerei.

Julieta olhou assustada a espessa bruma. E não com tanto entusiasmo comentou:
- Suponho que o melhor é que comecemos a nossa busca.

O Cavaleiro lhe passou um reconfortante braço por acima do ombro:
- Não se preocupe, querida, – exclamou - eu te protegerei.
- Não - aclarou Merlin. - Já a protegeste demasiado, impedindo que descobrisse quem é ela realmente. Nesta parte da busca cada um deve seguir sozinho.

- Não se preocupe - disse o urso a Julieta - eu tomarei conta de você
- Eu também irei contigo - acrescentou o cervo.
Rebeca pousou no ombro de Julieta.
- ¡E eu! – disse Rebeca, beijando-a na bochecha.

Julieta se sentiu muito reconfortada com o amor dos animais.

A raposa se dirigiu ao Cavaleiro:
- Segundo parece, Esquilo e eu ficaremos contigo.

Merlin fez um gesto e a bruma se levantou ligeiramente ao final do bosque. Julieta e o Cavaleiro conseguiram enxergar dois sinais: em um deles, uma flecha que apontava um caminho brumoso à esquerda, que falava <<mulheres>>. À direita , outro sinal com uma flecha vermelha que dizia <<homens>>.

O cavaleiro se animou um tanto:
- Pelo menos sabemos por onde começar.
E disse a Julieta:
- Eu irei pelo caminho que assinala homens e tu pelo que marca mulheres.
- Não preciso que me digas o óbvio – disse Julieta com certa esperança.

Merlin os interrompeu para evitar que se iniciasse uma discussão.

- Às vezes, o óbvio é uma ilusão. São dois seres humanos – e disse ao Cavaleiro-: dá a casualidade de que estás no corpo de um homem.- E, se voltando para Julieta -: E dá a casualidade de que tu estás no corpo de uma mulher. A ilusão é que há uma diferença. A realidade é que tu, Cavaleiro, tens as características de um homem, e tu, Julieta, as de uma mulher. Porém, ambos têm traços masculinos e femininos. Se separaram quando não aceitaram as características do outro ser humano. Sendo que ambos participam nesta busca para aprender a manter uma bela relação com o outro, é necessário que tu – disse ao Cavaleiro - aprendas como pensa e sente uma mulher.

- E se voltando a Julieta lhe disse-: e é importante que tu aprendas como pensa e sente um homem. Quando ambos fizerem isso, não existirão diferenças que vos separem.
Dessa forma, então, com os animais como companhia, o cavaleiro começou andar rumo ao caminho indicado para <<mulheres>> e Julieta rumo ao caminho indicado para <<homens>>. Ao chegar ao cruzamento dos caminhos no qual deviam se separar, voltaram-se e olharam para atrás.

Cada um via que o outro pensava o mesmo naquele instante. Se fracassassem na hora de encontrar o caminho através da bruma, se perderiam no bosque, separados um do outro para sempre.
Com lágrimas nos olhos e certo pesar no coração, começaram os seus caminhos separados.
Julieta avançava cuidadosamente pelo caminho, com os olhos enturvados por lágrimas e a bruma.
O urso lhe ofereceu uma folha de eucalipto para que secasse os olhos e ela agradeceu. Depois aproximou-lhe a folha de um lírio silvestre para que pudesse assoar o nariz. Ela o fez, e se sentiu bem melhor.

O cervo acariciou-lhe a bochecha:
- Não te preocupes, retornarás a ver o Cavaleiro.

- Mas, ¿e se eu não puder atravessar a bruma da ilusão e ele sim? Ou se eu puder e ele não?- gemeu Julieta.
- Merlin diz que se pensas no pior, o mais provável é que ocorra - respondeu Rebeca.
- Não estava pensando, estava sentindo - replicou Julieta.

Não tinha acabado de pronunciar essas palavras quando viu um sinal através da bruma. E estava escrito: <<sequem os olhos, deixem de pestanejar, em vossos pensamentos terão que pensar>>
Julieta se sentia duplamente brava: primeiro com Merlin, por prever que choraria, e, segundo, porque a mensagem do sinal implicava que teria de pensar sobre o pensamento.

O Cavaleiro lhe dizia com freqüência que ela não pensava com clareza, e uma vez chegou a chamá-la tola. Não voltou a dizer aquilo mais, pois ela deixou de servir-lhe a janta durante um mês.

Quando finalmente superou a sua bravura, sentou-se sobre um tronco a refletir sobre o pensamento. Isto era certamente uma característica masculina, comentou Julieta aos animais. Rebeca, que havia pousado novamente no seu ombro, lhe disse:
- Mas também é uma característica tua, e como comentou Merlin, para te entender melhor a ti mesma e ao Cavaleiro terás que entender os vossos traços masculinos.

- ¡Ah, pois tudo bem então! - suspirou Julieta. Sentou-se mais comodamente no tronco e começou a pensar sobre o pensamento.
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Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Dom Jul 04, 2010 7:37 pm

Capitulo 5 (Parte 2)

Em outra parte do bosque, o Cavaleiro estava experimentando certa raiva. Acabava de chegar a um sinal no qual se podia ler: <<Se os pensamentos e sentimentos consegues equilibrar, verás o quanto feliz te encontras>>

Desde que havia voltado à sua busca estava mais em contato com os seus sentimentos, era capas de se conectar a eles, pensava de si mesmo que era um homem sensível. ¿O que mais tinha que aprender?

- Se sinto, sinto ¿Qual é o problema?- reclamou Esquilo.
- Estás começando a te parecer com o sinal – respondeu a raposa.

O Cavaleiro se sentou a contragosto em um tronco, a meditar e sentir.

* * *

Julieta se deu conta de repente de que devia estar sentada no tronco há várias horas, pois estava bastante faminta. Olhou ao se redor para ver se encontrava alguém mais com fome, mas não havia sinais nem do cervo, nem de Rebeca e nem do urso. Nesse momento o urso apareceu detrás dela, entre a neblina, e por não reconhecê-lo deixou escapar um grito de pânico.

- Sou só eu – disse o urso com voz tranqüila – Estava colhendo alguns frutos do bosque.

Rebeca e o cervo apareceram ao mesmo tempo.
- Ouvimos que gritavas - comentou Rebeca.
- Sinto tê-los ocupado – pediu perdão Julieta. O urso se aproximou por detrás e me assustei. Não cheguei a nenhuma conclusão a respeito do pensamento.

- Antes de te sentires assustada - lhe perguntou Rebeca- ¿não pensaste que havia algo que tenha te assustado?

- Pois, eu, isto.... – duvidou Julieta.
Então, de repente, se deu conta de algo bastante importante. Até agora apenas confiava no que sentia. Mas agora se dava conta da verdade, e assim comunicou aos animais:

- Um pensamento pode vir a ser um sentimento e um sentimento pode vir a ser um pensamento.
Assim que pronunciou essas palavras, se esvaziou a bruma em uma parte do bosque. Agora podia ver com clareza o céu azul e sentir o sol sobre si.
- Pode ser que atravessar esse bosque não seja tão difícil como pensava - disse Julieta-, pois tenho ao meu lado a uma bela pomba como tu.

Rebeca olhou ao seu redor algo nervosa:
- Não digas a Merlin que te dei uma pista. Supõe-se que eu não devia fazer isso.
O riso de Merlin se ouviu no ar.
* * *

O Cavaleiro estava ainda sobre o tronco, compenetrado nos seus pensamentos e seus sentimentos. Estava sentado horas sem chegar a nenhuma parte. Finalmente chamou:
- ¡Merlin, Merlin!
O mago, tal como tinha prometido, apareceu. Trazia um alaúde.

- Perdoa que esteja te importunando - disse o Cavaleiro.
- Estava tocando música para um grupo de esquilos. Precisavam que os animasse, pois umas gralhas malvadas roubaram-lhes todas as avelãs que guardavam para o inverno.
- Eu precisaria me animar também - comentou o Cavaleiro- estou sentado aqui há mais de dois dias tentando resolver os meus pensamentos sobre os sentimentos.
- Levas aqui bastante mais tempo - sentenciou Merlin. - Levas uma semana.

O Cavaleiro ficou atônito:

- Não é de estranhar que me sinta tão fraco.
- Sete dias sem comer podem debilitar – Nos olhos de Merlin apareceu uma chispa de sarcasmo.
- Não estou de humor para vossas brincadeiras – respondeu o Cavaleiro.

- Queres com certeza uma resposta - disse Merlin-, mas o melhor é que a encontres tu mesmo: Porém te darei uma dica - E dedilhando o alaúde começou a cantar-: << Nos charcos aos vossos pés tereis que olhar. A resposta aos vossos sentimentos poderás encontrar >>. – E, dito isto, desapareceu.

O Cavaleiro continuou através da bruma que se espargia aos seus pés e viu três pequenos charcos, que se haviam formado com a recente chuva. Ajoelhou-se e olhou-os cuidadosamente.
- Vou precisar de vosso auxilio – disse aos animais -, pois não sei como vou encontrar a resposta em três charcos de lama.

- Merlin nunca o faz demasiado fácil - comentou a raposa.
O Esquilo, a raposa e o Cavaleiro olharam os charcos e viram as próprias imagens refletida neles. Finalmente, o esquilo falou:

- São de diferentes medidas.

O Cavaleiro assentiu com a cabeça:
- Mas não vejo que isso possa responder a nada.

- Eu penso - disse a raposa – que o charco no qual estou olhando é mais profundo do que os outros dois.
O esquilo e o Cavaleiro assentiram e, de repente, a este lhe sobreveio uma inspiração:
- ¿E se os meus sentimentos fossem como a água dos charcos?
- Detesto ter que admitir – disse a raposa - mas não consigo entender o que dizes. Temo que terás que te explicar.

Na medida que o Cavaleiro falava, a sua voz ia adquirindo um tom de excitação:
- E se os meus sentimentos são pouco profundos como aquelas poças por ter medo dos sentimentos profundos?

Ficou de pé com um pulo.

- É isso! – exclamou. - Temo o impacto dos meus sentimentos profundos.
- Mas por quê? – perguntou-lhe Esquilo.

O Cavaleiro deu alguns passos para frente e para trás.
- Não o sei - disse.

Deteve-se na metade de um passo maior:

- Aguarde, pode ser que eu saiba! Se deixar que os pensamentos sejam demasiado profundos eu sinto dor. Sim, posso sentir dor e pena, algo que indica que não quero me enfrentar.

- Me pergunto se isso é verdade - disse a raposa.
A resposta a essa verdade surgiu de imediato, pois do bosque começou a se dissipar grande quantidade de bruma e o Cavaleiro pôde ver claramente o caminho. Começou a andar com regozijo:

- Todo esse tempo acreditei que pensava com profundidade, mas se tratava apenas de uma ilusão.

E dito isto, dissipou-se ainda mais bruma e ele pôde ver com claridade a beleza das árvores, das flores e do céu, e pareceu-lhe que dentro dele também se aclarava algo. Pôde respirar mais profundamente e se sentiu como se cantasse. E assim fez com toda a força dos seus pulmões.

O esquilo e a raposa estremeceram:

- A alegria tem as suas desvantagens – disse Esquilo.

* * *
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Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Ter Jul 06, 2010 1:07 am

Capitulo V (parte 3)

Julieta também cantava alegremente.
Havia dissipado a ilusão de que os pensamentos eram mais confiáveis que os sentimentos. Deu-se conta de que uma mente equilibrada eleva os sentimentos. Agora podia recuar quando seus sentimentos lhe causassem medo, pânico, desespero ou ansiedade em seu interior. Ao invés de deixar que a abrumassem, poderia melhorá-los com pensamentos puros e sãos e resistir aos dissabores emocionais.

Regozijada com a sua nova maneira de ser, começou a cantar alegremente:

Sou um pássaro que voa alto
Ainda que chegar ao céu não posso
E quase no mar afogado morro,
Mas ainda que agora melhor sou eu.


Porém se deteve na senda com os animais, pois a neblina surgia de novo diante de si. Continuou através da mesma e viu um letreiro que dizia <<o melhor é estudar as tuas ações e ver a verdade da tua agressividade >>

-¿O que significa isto? – perguntou Julieta estupefata.
- ¿O que significa agressividade? – quis saber o cervo, que nunca tinha ido à escola.
- Se refere à maneira de se comportar das pessoas prepotentes – respondeu Julieta.

- Agressivo, eu não sou, observou o cervo.
- É uma característica masculina que eu não admiro em absoluto - sentenciou Julieta.
- Mas também é uma das características da tua parte masculina - recordou-lhe Rebeca.

Julieta estava um tanto ofendida, não gostava de se considerar agressiva, uma vez que isto significava se apropriar das coisas, tanto das que nos pertencem como das que não; tinha a ver com a ação violenta ou a dominação. Enfim, todas as qualidades das quais ela não gostava nos homens.

- Não - disse em voz alta - Não tenho intenção de ser agressiva.
- ¿E se não és agressiva como consegues o que queres? - Perguntou o urso, coçando a cabeça, pensativo.
- Tenho ao Cavaleiro para que me dê as coisas que quero - respondeu Julieta.
- ¿E que acontece se ele não te der as coisas que tu queres? - interveio o cervo.
- Irei atrás dele até que o faça - respondeu Julieta.
- ¡Mas isso é subjugar! Exclamou Rebeca.
- Não importa, um marido espera que o subjuguem – replicou Julieta.

- ¿E que aconteceria se ele não te desse o que tu queres ainda que o subjugasses?- disse o cervo.
- Nesse caso, lhe enganaria - respondeu Julieta imediatamente.

Então, Julieta se calou, pois não gostava do rumo que estavam tomando as coisas.
- Merlin chama a isso de manipulação – disse Rebeca.

Julieta se pôs à defensiva:
- Essa é a única forma na qual as mulheres podem conseguir aquilo que querem ... e tem que fazê-lo por meio dos homens.

- Então, deves te sentir um tanto indefesa - argüiu Rebeca.
- Pois... isto... Sim, sinto-me indefesa – admitiu Julieta.
- Mas se tua parte masculina é agressiva, pode ser que finjas insegurança porque assim te resulta mais fácil - sentenciou o urso.

Julieta ia se irritando a cada vez mais. Não queria admitir que dava a aparência de insegurança para não ter que se utilizar da agressividade natural. Mas, se não admitisse aquilo diante do urso, o cervo e Rebeca ¿o que pensariam dela?

Merlin apareceu de improviso e disse:

- É duro ter que admitir que a pessoa se criou uma falsa debilidade para não ter que expor a sua própria agressividade.
- Apareces apenas para dizer isso, ¿não?- disse Julieta olhando fixamente a Merlin.

Merlin sorriu:

- Recordas o que eu disse antes de começar essa busca? Eu disse que não vos julgueis a si mesmos.
Então Julieta lembrou que tinha sido agressiva ao começar a sua empresa de reabilitar castelos, e que não tinha pedido auxílio ao Cavaleiro.

- ¡Exato!, - bateu palmas Merlin. - Já não tens que depender dos homens de agora na frente.

- Nunca gostei dos homens agressivos, e suponho que não gostarei de mim mesma se eu chegar a ser assim.
- Tu não gostavas de como os homens utilizam a sua agressividade... lutando, dominando e possuindo. Tu não deves usá-la dessa maneira - aclarou Merlin.
Julieta assentiu.

- O impulso – prosseguiu Merlin - pode se utilizar com suavidade, amor e compaixão. Evitar essas qualidades em ti mesma significa evitar a responsabilidade de ser quem és.
De repente, Julieta pareceu bem resolvida.

- De agora em diante deixarei de dar a impressão de ser uma pessoa indefesa e aceitarei a minha responsabilidade como pessoa firmemente carinhosa e compreensiva – disse Julieta.
Não tinha acabado de pronunciar essas palavras quando uma grande porção de neblina desapareceu.

Julieta se sentiu invadida por uma grande força, e que seria capaz de criar mais e com maior claridade por si só.
Dirigiu-se a Merlin para lhe agradecer pela sua magia, mas ele se havia desvanecido magicamente.
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Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Ter Jul 06, 2010 7:37 pm

Capitulo VI

O Esquilo e a raposa tinham começado a cantar com o Cavaleiro. Cantavam também a pleno pulmão, sobretudo para não ouvir como cantava o Cavaleiro.
Pouco depois se encontraram com a seguinte capa de bruma de ilusão. Parecia ainda mais espessa que a que acabavam de deixar atrás.
O Cavaleiro buscou o sinal de costume, e, efetivamente, ali estava a um lado do caminho onde leu:

Julieta é uma rosa entre as rosas

¿Por que a vês como um adversário?
- Porque isso é o melhor que ela sabe fazer; se opor à maioria das coisas que digo ou almejo fazer- disse o Cavaleiro ao instante.

- ¿Sempre fez isso? Perguntou a raposa com curiosidade.
O Cavaleiro assentiu:
- Desde o começo. Nem sequer gostou do modo como a resgatei do castelo do ogro.

- Julieta me contou que quando escalaste até a janela onde ela se encontrava para resgatá-la, a empurraste ao fosso e estragaste os seus melhores trajes de princesa. Que tu caíste depois, e, como não sabias nadar, ela teve que te resgatar - disse Esquilo.

Ao Cavaleiro incomodou um pouco que houvessem inteirado dessa parte da história.

- Ninguém é perfeito - aclarou um tanto aborrecido.
- Mas tu decidiste te casar com ela – disse Esquilo.
- Decidi me casar com ela quando o rei disse que me cortaria a cabeça se eu não o fizesse - respondeu o Cavaleiro.
- Então, na realidade, ¿não a amas?- perguntou-lhe a raposa olhando-o severamente.

Os olhos do Cavaleiro se umedeceram.

- Amo-a muitíssimo - respondeu.
- Suponho que a mim também me tiraria do sério que alguém estivesse me levando sempre a mal - disse a raposa com tom compreensivo.
- Veja a festa de casamento, por exemplo.
- Combinamos que ambos queríamos uma festa de casamento. A minha idéia era celebrá-la de uma forma intima, com apenas uns poucos amigos - confessou o Cavaleiro.

- ¿E qual era idéia dela?- perguntou Esquilo.

- Foi uma festa intima, com três mil convidados - disse desanimado o Cavaleiro.

A raposa sacudiu a cabeça, desconcertada.

- É duro falar dos acordos a partir dos desacordos.
O Cavaleiro se sentou em um tronco e, apoiando o queixo entre as mãos, começou a estudar mais a fundo a sua rivalidade com Julieta.
Pensou que tudo seria mais simples se as mulheres pensassem como os homens.

- Mas não o fazem ¿verdade?- disse a voz de Merlin.

Sobressaltado, o Cavaleiro olhou envolta dele.

Merlin estava sentado na margem de um regato próximo com os pés dentro das alegres águas.
- Me alegra que apareceste - comentou o Cavaleiro - estava enrolado com os meus pensamentos.

Merlin lhe indicou que se sentasse ao seu lado:
- ¿Por que não te unes a mim? Mete os pés na água e talvez parte da sua claridade te chegue à cabeça.
O Cavaleiro olhou com dureza a Merlin. Com freqüência lhe era difícil discernir se o mago lhe estava instruindo ou provocando, mas fez o que o mago lhe indicou.

Merlin acariciou a cabeça de um peixe que tinha se aproximado nadando até ele e disse:

- Contar-vos-ei uma história. Não é uma história real, pois a inventei para te falar da idéia que tens de Julieta como adversário.

Merlin alimentou o peixe com umas migalhas que tinha feito aparecer e prosseguiu:

- Retrocedamos aos jardins do Éden.
Um dia em que Adão estava sentado embaixo da macieira, tinha um aspecto solitário e infeliz.
Deus deu-se conta disso. Aproximou-se de Adão e lhe perguntou, com a perspicácia que só Deus pode ter: << ¿Adão, estás sozinho e infeliz?>>
Adão olhou para Ele e respondeu:
- Sim.
- O que necessitas é uma mulher- lhe disse Deus.
Adão olhou perplexo para Deus.

- ¿O que é uma mulher?

- Uma mulher é teu homólogo feminino, alguém que te amará, que cuidará de ti e atenderá todas as tuas necessidades - lhe respondeu Deus.

- ¿E quanto me custará isso?- indagou Adão, que era uma pessoa desconfiada.

Um braço, uma perna e o olho direito - respondeu-lhe Deus.

- ¿O que posso conseguir por uma costela?- perguntou Adão depois de refletir um momento.

O Cavaleiro rolou de rir. Merlin continuou.

- Por causa da avareza de Adão. Deus lhe apresentou um ser que ia confundir e desconcertar a Adão e aos outros homens nos séculos vindouros.

- Ela não pensava como um homem, não funcionava como um homem e baseava a sua vida inteira nos terrenos pouco firmes de uma coisa chamada emoção.
Por ser tão diferente dos homens, estes a chamaram o sexo oposto.
- Um bom nome - grunhiu o Cavaleiro.

Merlin sorriu:

- O que aconteceria agora se Adão houvesse estado disposto a dar um braço, uma perna e um olho?

- É muita renúncia para se arriscar a conseguir uma mulher com a qual fosse mais fácil viver – disse o Cavaleiro.

- Merlin se riu:
- Eu não disse que tivesse que renunciar a tanto, eu disse que estivesse disposto a fazê-lo.

De imediato o brilho da água do regato se refletiu nos olhos do Cavaleiro, que tinha começado a captá-lo.

- Queres dizer que se eu estivesse disposto a dar mais de mim, ¿Julieta não me pareceria tão oposta?

A neblina começou a se dissipar suavemente, e então o Cavaleiro percebeu que ia por bom caminho.
O Cavaleiro meteu os pés na água com entusiasmo:
- Se Julieta e eu estamos dispostos a renunciar à idéia de quem cada um de nós acredita ser, não existirá oposição alguma entre ambos.

Merlin assentiu.

O Cavaleiro riu alegremente ao ver a grande quantidade de bruma que se havia desvanecido, da mesma forma que fez Merlin, pois o Cavaleiro já não precisava dele.

<<Sempre existirão diferenças no comportamento humano - pensou o Cavaleiro – Julieta não é diferente por ser mulher. É apenas um ser humano.
A sua maneira de se comportar é a certa para ela, do mesmo modo que a minha maneira de funcionar é a certa para mim.>>

Tinha descoberto uma regra universal.
Todas as possibilidades são igualmente válidas.

Agora, o cavaleiro podia ver quilômetros e quilômetros livres de neblina e era capaz de perceber com uma clareza que nunca antes tinha experimentado.
Cheio de júbilo, o Cavaleiro começou a cantar.
Entrou com ar resolvido no caminho da claridade cantando a pleno pulmão. Os animais o seguiram.

Em seguida chegaram a um sinal à beira de uma grossa camada de bruma. O Cavaleiro leu-o:

¿Percebes o que defraudas quando não recebes?

Esses sinais são cada vez mais difíceis – reclamou o Cavaleiro.

- Estou contente de que nós animais não tenhamos que participar nesta busca – comentou a raposa.
- Não sei o que significam essas palavras – admitiu Esquilo.
- Perceber significa ver, ou seja, ver com claridade; e defraudar significa enganar – aclarou o Cavaleiro.

Olhou para acima:

- Me pergunto a quem estou enganando.
- Merlin disse que, a longo prazo, apenas te enganas a ti mesmo - disse a raposa.

O Cavaleiro não lhe prestava demasiada atenção a essa intervenção, mas desde que estava no bosque da ilusão, acreditava que devia expô-la.
Refletiu sobre a situação. ¿Enganava-se a si mesmo dizendo que estava disposto a receber?

É verdade que sempre pensava em si mesmo como em uma pessoa generosa. Estava disposto a dar a sua vida pelo seu rei.
Pensando no passado se deu conta de que tinha perdido muito tempo e energia resgatando belas princesas em apuros.
Deteve-se ao perceber, que na realidade, havia metido as princesas em mais problemas tentando resgatá-las.
Também tinha prestado os seus serviços a causas nobres, como cruzadas, guerras santas e matanças de dragões.

Quando era menino lhe haviam dito que era mais nobre dar do que receber.
- ¿Por que tenho que pensar em receber?- disse em voz alta.

Depois de dizer isso, uma brisa suave percorreu o bosque fazendo sussurrar as folhas das árvores, e, com ela, o murmúrio da voz de Merlin:
- Um homem recebe dessa voz feminina que tem.

Tratava-se de uma idéia totalmente nova para o Cavaleiro, e, na medida em que refletia sobre ela, começava a se perguntar que diferença haveria se a sua parte receptiva pertencesse ao seu lado feminino ou masculino.

Explicou aos animais o que Merlin lhe havia dito, com a esperança de que eles apontassem alguma idéia à sua receptividade.

Esquilo comentou que ele pensava melhor com o estômago cheio.
- Eu também, concluiu a raposa.
E, de repente, o Cavaleiro se deu conta de que ele também estava faminto. Tinha se envolvido tanto na busca que quase não tinha pensado em comer.
Esquilo reuniu algumas avelãs e uns poucos frutos do bosque e a raposa contribuiu com um coelho que tinha caçado.
O Cavaleiro apenas compartilhou as avelãs e os frutos, uma vez que depois do episódio ocorrido com o cervo era um vegetariano mais radical.

Depois do jantar, se deitaram com satisfação ao redor do fogo que o Cavaleiro tinha preparado.
Esquilo se deleitou, cuspiu suavemente um troço de casca e alfinetou de súbito o Cavaleiro.

- ¿Quanto és capaz de receber de Julieta?

O Cavaleiro o pensou durante um momento:

- Permito-me receber bastantes coisas de Julieta: as suas comidas, os seus trabalhos, seu amor, a sua alegria e sua frescura.
- ¿Quanto amor dela estás disposto a receber?- perguntou Esquilo, a quem Merlin tinha preparado bem.

- Bastante – disse o cavaleiro-, embora exista um limite.

- ¿O que queres dizer?- perguntou a raposa olhando-o com interesse.

- Bom se me dá demasiado carinho ou é doce demais, geralmente é que está tentando conseguir algo de mim, ou que quer me fazer mudar de idéia, ou, o que é pior, que quer mudar a minha vida – respondeu o Cavaleiro.

- Então - disse Esquilo - é que não confias plenamente no seu amor.

- Podes interpretá-lo assim – respondeu o Cavaleiro lentamente –mas penso dessa forma porque não existe outro modo de interpretá-lo.
A raposa, que tinha andado com Merlin o suficiente como para aprender por si mesma algumas coisas, disse:
- Me parece que tu crês que se recebes demasiado terás que pagar um alto preço por isso.

O Cavaleiro assentiu ligeiramente, um tanto resistente em admitir. E foi apenas assentir para que parte da neblina desaparecesse, e, inspirado por isso, continuou com os seus pensamentos:

- É verdade... Se deixo que a minha parte feminina ame demasiado a minha parte masculina, teme ter que dar algo em troca.
Ao dizer isto grande parte da neblina se desvaneceu. Todos se sentiam cada vez mais contentes.

- Estou me fatigando deste tipo de pensamentos – disse o Cavaleiro.
- Não abandones agora – respondeu-lhe Esquilo. -Tens boa sorte.

A raposa pressionou o Cavaleiro.

- ¿O que te dá medo ter que pagar?

A verdade surgiu da boca do Cavaleiro:

- Não é seguro, para estar totalmente a salvo, receber amor de uma mulher:
O vento soprou em todo o bosque e despejou a neblina. Quilômetros e quilômetros.
E o Cavaleiro se deu conta de que toda a vida havia estado vivendo imerso na neblina da ilusão. Tanto que nem sequer havia estado disposto a se dar amor a si mesmo.
Não permitia que confluíssem nele as suas duas energias feminina e masculina.

O Cavaleiro estava desconcertado. Na sua primeira busca tinha aprendido a sentir, mas agora tinha aprendido a sentir de uma maneira mais profunda.
Pensou que também havia aprendido a amar, mas agora tinha que amar mais profundamente.

- ¿A que profundidade posso chegar?

A voz de Merlin lhe respondeu desde o vento que cessava:

- ¡O teu espírito conhece apenas os limites do infinito!.

Isto já foi demais para o Cavaleiro.
Deitou-se a repousar junto ao fogo.
Melania Keter
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Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Qua Jul 28, 2010 1:08 am

Capitulo VI (2da parte)

Essa mesma noite Julieta se deitou para repousar ... mas não conseguiu. Estava exausta por causa dos acontecimentos da busca. A sua mente e o seu corpo estavam esgotados devido às coisas novas que o Cavaleiro e ela mesma haviam aprendido. Os seus cabelos se enredavam, ora nas costas, ora no peito, e atravessavam o seu rosto como um mar dourado enquanto ela se movia, inquieta, tentando repousar. Abriu os olhos, e de repente, se deu conta de que estava atemorizada e sozinha. Depois de todos os excitantes acontecimentos que ocorreram, não podia imaginar porque se sentia daquele modo. Não sabia que a fadiga abria as portas à solidão. Ainda que tivesse tido numerosas brigas com o Cavaleiro, sempre tinha o consolo de repousar entre os seus braços. Como aquilo não era possível se aproximou do urso para repousar junto a ele, colocou a sua cabeça na sua enorme barriga e de imediato se sentiu melhor. Uma das suas patas descansava sobre o seu ombro.
Ao sentir o calor e a segurança, Julieta mergulhou no vapor dos seus sonhos.
A figura de Merlin tomou forma.

Abraçou-a carinhosamente e lhe disse – Bem-vinda ao teu sonho inconsciente.
Julieta estava bem acordada nos seus sonhos.
- ¿sonho inconsciente?- perguntou – ¿O que significa isto? ¿Quando estou acordada eu sonho conscientemente?
Merlin sorriu.
- És uma aluna bem preparada. É uma alegria tê-la nessa busca.
A idéia do sonho abrumava a Julieta.
¿Queres dizer que não tem diferença em estar repousando ou desperta?
- Basicamente não, pois sempre estamos em um estado de aprendizagem. Cremos que sonhar quando repousamos é diferente porque geralmente esses sonhos nos proporcionam mensagens e símbolos que não são compreensíveis. Mas considere o vosso estado de vigília, ¿acaso não te encontras com freqüência envolvida em acontecimentos que não são compreensíveis?- respondeu-lhe Merlin.
Julieta assentiu.

- Às vezes enquanto estou acordada, me sinto muito confusa.
Merlin sorriu.
- As pessoas sempre me procuram para que interprete os seus sonhos noturnos. Se interpretassem também os seus sonhos de vigília teriam menos confusão nos seus sonhos noturnos e seriam capazes de entendê-los.
Julieta franziu a testa.

- Sinto-me confusa, devo acordar.
- Não o faças. Tem mais neste sonho... coisas que realmente te agradarão. E – acrescentou o mago com doçura – tem uma coisa que deverias ver.
Julieta sonhou com os seus primeiros anos de adolescência. Era uma princesa que morava com seu pai, o Rei, em um castelo riquíssimo. Tinha muitíssimas donzelas de companhia para tudo o que ela quisesse, e passava o dia todo relatando coisas a respeito do homem com o qual se casaria a todo aquele que quisesse escutá-la... O homem perfeito, seria um Cavaleiro, e chegaria montado em um corcel branco e a resgataria.
- ¿Quem? Perguntavam-lhe em uníssono as suas donzelas de companhia.
¿De quem?- as corrigia Julieta. Era muito purista em todas as questões referentes à gramática -. De qualquer um – prosseguia. - Todas as princesas tem que ser resgatadas. Além disso, é assim como quero que seja.

Não tinha dúvidas de que conseguiria o homem perfeito que ela queria, pois como princesa que era, os seus desejos eram ordens. E o rei se assegurava de que a sua filha tivesse tudo o que quisesse. Era a sua única filha e a adorava. Na realidade Julieta era vítima da super-proteção.
Julieta viu que o seu poder mental era tão forte que ela própria tinha se criado uma situação da qual precisava ser resgatada. O sonho lembrou-a de que ela tinha criado um ogro que a seqüestrou e que a encerrou numa torre do castelo. E, efetivamente, uma semana mais tarde, apareceu o Cavaleiro com seu cavalo branco e sua brilhante armadura, disposto a resgatá-la.

Ela pediu auxílio aos gritos. Ele levantou a viseira do elmo e olhou para todas partes. Julieta viu que o Cavaleiro cumpria a perfeição os seus sonhos. Era belo e tinha um doce sorriso, e quando olhou para acima viu Julieta assomada à janela da torre.
- ¿Pedias auxílio?- gritou.
- Sim - respondeu ela.
- ¿Por quê? Gritou de novo o Cavaleiro.
Julieta o olhou, irritada. Suponha-se que tudo deveria ocorrer de outra maneira.
- ¿Como por quê? ¿Crês que peço auxílio de hobby?
O Cavaleiro calou.

- Tenho que saber por quê. Preciso saber uma razão antes de agir.

Julieta o contemplou desde cima. Não podia suportar aos intelectuais, mas havia algo nele do qual ela gostava, por tanto se acalmou e disse.
- Sou a prisioneira de um ogro. Preciso que me resgatem.

- Com isso tenho suficiente - gritou ele - Resgatar damas faz parte do ofício do Cavaleiro.
Depois o resto ocorreu tal como ela havia imaginado. Ele matou ao ogro, subiu a princesa ao lombo do seu cavalo e juntos de afastaram, cavalgando rumo ao cair da tarde.
Julieta, pegando firmemente na cintura do Cavaleiro, disse feliz:

- És tão valente como eu imaginava. Meu pai o Rei, vos recompensará te permitindo que te cases comigo.
- O Cavaleiro deteve o seu cavalo.
- Não quero me casar - disse.
- Julieta o olhou atônita. Certamente isso não era o que ela tinha imaginado que diria para ela o seu par perfeito.
- ¿Achas que sou bonita? Disse assim que se recuperou.
Ele sorriu.
- ¡Que sorriso tão bonito tem! Pensou ela.
- Acho que és muito bonita - admitiu o Cavaleiro.

E a isso ela acrescentou.
- E também tenho bastantes idéias maravilhosas.
- Estou disposto a te perdoar por isso - respondeu o Cavaleiro.

- Julieta foi ao ponto:
- És o príncipe perfeito que estive esperando durante anos para me casar e amar.
- O Cavaleiro ficou desconcertado frente a essa franqueza tão falta de pudor. Finalmente tomou alento e disse:
- Mas não sou um príncipe, apenas sou um Cavaleiro.
- O meu pai é o Rei - respondeu Julieta – Ele te converterá imediatamente em príncipe quando te casares comigo.
O Cavaleiro decidiu ser igualmente franco:
- Olha princesa, eu estou metido em assuntos de cavalaria; luto, resgato donzelas, e mato dragões e ogros. A minha vida não inclui uma esposa.
Julieta não estava disposta a deixar escapar a um hábil Cavaleiro como este, e lhe disse:
- ¿Por que não podes ter ao mesmo tempo os vossos assuntos de cavalaria e um matrimonio?
- Eu, fundamentalmente luto e não sei nada das mulheres – protestou o Cavaleiro. Não era consciente de que justamente os seus anos de luta tinham sido um bom treinamento para o matrimônio.

Os olhos de Julieta se encheram de lágrimas:
- Posso te ensinar a me amar.
- Isto transpassou a armadura do Cavaleiro.

Olhou-a com ternura e disse:

- É claro que podes, mas como te disse, estou imerso nos assuntos de cavalaria e não tenho tempo para permanecer em nenhum lugar.
Mas Julieta estava decidida a ter o homem dos seus sonhos. Com grande determinação na sua voz de princesa disse:
- O meu pai decretou que aquele que me resgatar do ogro se casaria comigo.
-¿E?
- Também decretou que quem não obedecesse ao seu decreto seria decapitado.
O Cavaleiro não fugiu do ponto.
- ¿Quando queres que nos casemos?
No seu sonho Julieta sorria arrependida pela maneira na qual tinha caçado a seu par perfeito.

O seu sonho a levou de volta ao seus primeiros anos de vida com o Cavaleiro. O seu pai tinha dado para eles dois presentes de casamento: Para ele uma belíssima armadura confeccionada com uma combinação de metais raros e, para ambos, um castelo onde morar avaliado em 800 mil dólares.
Recordando aqueles anos do seu sonho, Julieta viu que ela viveu principalmente no castelo, e o Cavaleiro, em geral, na armadura. Depois do primeiro ano de casados, no qual foram extremadamente felizes, o Cavaleiro voltou aos seus assuntos de cavalaria e ela se incumbiu da tarefa de fazer um lar do castelo, com a suas paredes de pedra.
O Cavaleiro iria às suas cruzadas e ela o esperaria. Para deixar passar o tempo, ela começou a tecer um tapete, e de vez em quando, tomava um gole de vinho de uma jarra. Os anos se passavam e ela continuava tecendo e bebendo. Finalmente, Julieta começou a beber mais do que a tecer.

Perdoava constantemente ao Cavaleiro pela sua falta de interesse em compartilhar uma proximidade e uma intimidade com ela, pensando que um dia ele seria capaz de aprender a amar.

Mas nessa época, o Cavaleiro, que praticamente vivia metido dentro da sua armadura, descobriu que estava colado a ela. Tinha se separado de si mesmo e de Julieta e finalmente se deu conta da dor e do pesar que sentia por aquilo e empreendeu uma busca para se desprender da armadura.
Fez isso e depois de vários anos retornou sem armadura, mais afável e muito mais capaz de comunicar os seus sentimentos a Julieta. Ela o perdoou por todos os anos que haviam estado separados. Tentaram começar uma nova relação, mas não deu certo. Algo os separava ainda deles mesmos e também do outro.

Merlin voltou de novo ao sonho de Julieta:

- Todos esses anos almejei um companheiro perfeito, mas nunca o tive – suspirou.
- Todo mundo está aprendendo e crescendo, portanto não encontrarás ninguém perfeito. Não se trata de encontrar um companheiro perfeito, mas um a quem poder perdoar constantemente - respondeu-lhe Merlin.
- ¿Queres me dizer com isso, que tenho que perdoar o Cavaleiro a cada vez que faça alguma coisa incorreta? Perguntou-lhe Julieta.

- Às vezes se utiliza a palavra incorreta de forma inadequada – disse Merlin.

Julieta observou ao mago com receio.

- ¿Estás me culpando por culpar ao Cavaleiro?
Merlin sorriu.
- Se eu tomasse partido nas disputas entre maridos e esposas, não teria vivido tanto tempo.
Julieta que sempre tinha sentido curiosidade para saber a idade do mago pensou que como este era o seu sonho poderia averiguar os anos que tinha (a idade)
-¿Que idade tens Merlin?

O mago sorriu.

- Não serve de nada que te diga pois simplesmente jogaria por terra a vossa idéia do tempo que podem viver as pessoas. Digamos apenas que qualquer um que tivesse a minha idade já teria desencarnado pelo menos há trezentos anos.

Julieta se riu e Merlin prosseguiu – As pessoas falam continuamente do perdão, mas bem poucas sabem como perdoar de verdade. É um tanto complexo.
- ¿Não pode-se dizer simplesmente <<te perdôo>> e dá-lo por finalizado?- quis saber Julieta.
- Não, ao menos que se tenha bem claro o processo do perdão. Primeiro sugiro que quando o Cavaleiro tenha dito ou feito alguma coisa que te ofenda, irrite, exaspere , te faça ficar brava ou te indigne, descarregues esses sentimentos da maneira física que te resulte mais satisfatória, gritando, reclamando, chutando ou batendo em uma almofada que supostamente é o Cavaleiro - respondeu Merlin.

- ¿Como se chutasse ou batesse no Cavaleiro? O interrompeu Julieta.
Merlin rolou de rir:
- O castigo obsta verdadeiramente ao perdão. Quando finalmente sentis que te libertaste daqueles sentimentos mencionados, é que já estás preparada para perdoar. Perdoar ao Cavaleiro por tê-los causado - e nesse momento, Merlin fez uma pausa -, mas agora vem o mais importante: se perdoar a si mesma por se aferrar àqueles sentimentos. Então e só então, te livrarás deles e perdoarás à outra pessoa.

Julieta assentiu pensativa:

- Resumindo: ¿tenho sempre que perdoar a mim mesma?
- Correto! disse o mago- Até que um não se perdoe a si mesmo, não poderá completar o perdão. Sempre se verá impelido a culpar a outra pessoa por ter feito alguma coisa: em resumo culpará aos demais da sua própria vida.
- ¿Assim foi como tu deixaste de culpar aos demais?

Merlin brindou-lhe um doce sorriso:

- No meu caso foi mais fácil, pois cheguei a uma idade na qual todas as pessoas a que eu culpava já estavam mortas. Tive que me concentrar em mim mesmo.
- Julieta riu-se primeiro, e depois, de repente se mostrou seria. E perguntou com uma vozinha suave.
- ¿Alguma vez o Cavaleiro e eu chegaremos a ser um?
- Essa é a razão pela qual vieste comigo nessa busca - respondeu Merlin.
A sua voz parecia proceder de todas as partes e de nenhuma ao mesmo tempo:
- Se tu e o Cavaleiro puderem coincidir em um sonho, o farão na realidade.
Ao pronunciar essas palavras o Cavaleiro apareceu próximo de Julieta com uma mão estendida para ela. Julieta estendeu a sua mão para ele.

Ouviu-se o sussurro de Merlin :

- Toquem – se – tomem vossas mãos.
Os separavam apenas uns passos, mas era como caminhar contra um vento tempestuoso. O Cavaleiro e Julieta estenderam as suas mãos mais ainda, mas tudo foi em vão. O vento desvaneceu o sonho.

Julieta se acordou chorando. Estava abraçada ao urso e tentava beijá-lo. Acabou de acordá-la a voz do urso que lhe dizia:
- Por favor, nós acabamos de nos conhecer...
As bochechas de Julieta se acenderam de vergonha.
- Sinto o ocorrido, pensei que eras outro.
- ¿Quer dizer que há outro urso na tua vida?
- Não, tão só um homem que não está ao alcance como tu – respondeu Julieta com tristeza.
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Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Qua Jul 28, 2010 7:00 pm

Capítulo VII

O Cavaleiro acordou e se sentou devagar. Percebeu que tinha estado a noite inteira sonhando, mas não lembrava bem o que era que havia sonhado. Pareceu-lhe que Julieta estivera em seus sonhos. Estava esgotado por ter tentado infrutiferamente chegar até ela. Pôs-se em pé.

- Tens um aspecto horrível - disse-lhe alegremente o Esquilo.
- Sinto-me horrível - respondeu o Cavaleiro. De repente lembrou de algo do sonho. Contou a Esquilo e à raposa que quase chegou a tocar a mão de Julieta. Mas por mais que tentassem não podiam estar juntos.
- Parece ser o que está acontecendo - disse a raposa. - Tu estás perdido em um lugar do bosque e ela em outro.

- O Cavaleiro estava desanimado.
- Não me sinto capaz de continuar com esta busca – disse o Cavaleiro, se desmoronando no chão - é impossível.

Merlin surgiu de repente.
- O estás fazendo maravilhosamente bem – disse.

O Cavaleiro olhou para ele irritado:

- ¿Como podes dizer isso, quando acabas de ouvir que me sinto desesperado?
- O fato de que te sintas desanimado neste momento, significa que uma parte tua sentiu a vontade de chegar até aqui. Esse é o teu verdadeiro eu. O teu interior ou a tua ilusão de quem acreditas ser é a tua parte que se sente desanimada.

O Cavaleiro não ia permitir que Merlin interrompesse a sua falta de esperança com o seu estúpido otimismo.
- Tu acreditas que sabes tudo.

Merlin começou rir:
- Ao contrário. Sei que não sei nada.

O Cavaleiro olhou a Merlin com receio. Suspeitava que o mago estava lhe armando uma armadilha:
- ¿Como podes dizer que não sabes nada, sendo tão sábio como és?
- Isso é o que me faz sábio - respondeu Merlin.- Saber nada significa não ter que demonstrar que sei algo.

O Cavaleiro enrugou a testa:
- Não compreendo realmente nada.

- Nem eu - disse a raposa. – Nem mesmo sendo mais inteligente que ele.

- Se ambos fossem inteligentes, interveio Esquilo, - deixariam que Merlin se explicasse.

- Abre a mão – disse Merlin ao Cavaleiro.
- O Cavaleiro assim fez.
- ¿O que tens na mão?
- Nada – respondeu o Cavaleiro.
- Certo, Cavaleiro – disse o mago. Em seguida se agachou rapidamente, pegou varias flores silvestres e as colocou na palma da mão do Cavaleiro.

- ¿O que tens agora?
- Flores - respondeu o Cavaleiro.

Merlin sorriu:

- Certo, Cavaleiro.
Parecia desfrutar repetindo a frase: Agora tens algo.
Fecha a mão com as flores.
O Cavaleiro fez isso e Merlin lhe disse:

- Neste momento, no qual fechas a mão, apenas podes ter flores nela.
Fechando a mão ou a mente, não deixarás espaço a nada novo que chegue.
- Agora abra a mão - ordenou-lhe Merlin.

- O Cavaleiro o fez e as flores caíram ao chão.

- Agora não tens nada na mão e, porém, estás disposto a aceitar tudo. Quando deixas ir embora da tua mente, pensamentos e sentimentos, voltas a um estado de vazio, no qual tudo é possível.
O Cavaleio estava se irritando, como fazia sempre que sabia que Merlin ia dizer-lhe algo que mudaria a sua vida.
- ¿E isso o que prova? Perguntou. De repente o Cavaleiro pareceu assustado.
Os olhos de Merlin cintilavam:

- Acabas de encontrar a resposta à tua pergunta, ¿certo?
O Cavaleiro assentiu lentamente:

- Se sei que se não tenho algo, não tenho que possuí-lo. E se não possuo nada, posso ter tudo.
Em seguida outro pensamento sacudiu o Cavaleiro:
- Saber que não possuo nada significa não ter nada que defender ... e saber que não sei nada significa que não tenho que demonstrar nada. ¿Estou certo?

A sua resposta chegou em forma de uma enorme quantidade de neblina se levantando do bosque. O sol brilhou intensa e claramente no caminho que o Cavaleiro tinha frente a ele.

- Acabas de dissipar a ilusão do ego negativo que te dizia que deves saber tudo. Quando renuncias a ele, encontras a verdadeira humildade - disse Merlin.

Quando os dourados raios do sol esquentaram a cabeça e a mente do Cavaleiro, pensou ainda com maior claridade. Percebeu que essa parte do seu ego tinha deteriorado a relação entre Julieta e ele. A sua idéia de ser um homem forte, era a de supor que sabia tudo e que sempre estava certo.
Não deixava lugar às idéias de Julieta, aos seus pensamentos, e às suas opiniões, e se as ouvia, não as levava em conta por elas virem de uma mulher.

Percebeu também que a sua necessidade de possuir se devia a que precisava demonstrar o quanto era poderoso. O seu castelo, suas terras, os seus cavalos. Eram as suas posses. É verdade que as compartilhava com Julieta, mas ao mesmo tempo viu que a ela também considerava uma posse.

Merlin que havia estado lendo os pensamentos do Cavaleiro, disse:

- Possuis para controlar, mas se tentas controlar a um ser humano, não poderás amá-lo.
- Mas eu pensava que na minha primeira busca havia aprendido a amar - exclamou o Cavaleiro exasperado.

Merlin sorriu amavelmente:

- Aprendeste que tens a escolha de viver com o ego ou com amor, e a maior parte do tempo escolhes viver com amor, e amas a Julieta, exceto quando o teu ego se sente ameaçado.

- ¿O que é o que ameaça o meu ego?- Perguntou o Cavaleiro.
- Isso o aprenderá mais na frente no caminho, na medida em que vais despedindo o que ainda existe das ilusões.
- ¿O que é o que faz com que estas buscas resultem tão difíceis?

Merlin sorriu.

- De ti depende considerá-las uma dificuldade ou uma aventura feliz. E agora que aprendeste o que é a verdadeira humildade, podes prosseguir o caminho com a fortaleza da autêntica arrogância.

O Cavaleiro estava atônito:

- ¿Estás me dizendo que a arrogância é aceitável?

Merlin se riu.

- Sim, se baseia na humildade. Então uma pessoa funciona com a pura arrogância do universo... a fortaleza do vento, o poder dos rios e o potencial da natureza. O esplendor e a alegria da natureza poderás experimentar agora; são teus. E dito isto o mago desapareceu.

Um sentimento de expansão inundou o Cavaleiro.

- ¡Vamos pelo bom caminho! Disse o Cavaleiro à raposa e ao esquilo.
Os animais contagiados do seu entusiasmo brincaram pelo caminho junto a ele.
Os passos do Cavaleiro eram mais ligeiros, o seu coração estava radiante e o seu rosto mostrava um sorriso que nunca antes havia mostrado.
Era o sorriso do amor de uma mãe que olha para seu filinho.
Nesse momento o Cavaleiro se sentia mais perto que nunca de Julieta.
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