Julieta seguia o seu trajeto irritada e de mau humor.
O seu passo não era ligeiro e o seu coração não estava radiante, além disso, estava pronta para se irritar por qualquer coisa. O dia não tinha
começado completamente bem.
Primeiro, o sonho no qual não tinha podido nem alcançar e nem tocar o Cavaleiro; depois a vergonha de haver chorado diante dos animais, e, ao final, ao pensar que um bom banho em um regato a animaria, caiu no mesmo, o que se converteu em uma experiência completamente deprimente.
Contemplou o seu reflexo na água e viu que estava mais gorda do que nunca. Bom, essa era a opinião de Julieta. Na realidade estava apenas simpaticamente redonda. Mas havia ganhado peso e não podia imaginar o por quê.
Sempre confiou que uns quilos a mais se deviam a não estar demasiado ativa e a comer demais. Mas na busca estava em constante movimento e comia frugalmente. Estava consternada, pois ao invés de perder peso com esse tipo de vida, o havia ganhado.
Enquanto refletia sobre esse problema, Rebeca pousou de repente no seu ombro e, enquanto lhe mostrava com uma asa um extremo do caminho disse:
- ¡Olha!
Julieta leu em voz alta:
<<!Caspite! A evitação impede perder peso>>
Julieta ficou olhando essas palavras enquanto saía da água e se arrumava. Não estava de humor para se enfrentar a um sinal que não entendia. Da frustração passou à raiva. Deu um chute no sinal com o pé pequeno, mas forte. O sinal continuou bem afiançado ao chão, mas ela se machucou com a ponta do pé. Gritou de dor e se sentou no chão segurando o ferido pé.
Os animais acudiram imediatamente em seu auxilio. O cervo levou-lhe umas folhas úmidas de eucalipto, e lhe disse que se envolvesse o pé com elas pois elas aliviariam a sua inflamação. Rebeca tomou alguns arandos e colocou-os na boca de Julieta com o seu bico.
- Isto te acalmará os nervos – lhe disse.
O urso ofereceu para Julieta umas nozes que tinha colhido. Julieta as recusou de forma educada dizendo que tinham muitas calorias,
- ¿O que são calorias? - perguntou o cervo.
Com lágrimas nos olhos, Julieta lhes disse que Merlin tinha lhe explicado que as calorias são coisas que os alimentos têm e que fazem ganhar peso,
- Mas o sinal diz que a evitação é o que te fez engordar – disse Rebeca.
O cervo, como já se diz anteriormente, tinha um léxico um tanto limitado.
- ¿O que significa evitação? – perguntou.
Julieta, que já se sentia um pouco melhor do pé graças as folhas de eucalipto e aos arandos que introduziu em sua boca disse:
- Significa evitar ou não olhar o que a pessoa tem na frente.
- ¿E tu estas fazendo isso?
- ¡E como vou sabê-lo! Se soubesse o que estava evitando não o evitaria- Julieta estava ainda um pouco irritada.
Rebeca depositou mais alguns arandos na boca de Julieta:
- Talvez estejas iludindo o que não sabes.
- ¡Não o sei! Gemeu Julieta – ¿Como vou saber o que estou evitando saber?
Rebeca, a quem Merlin havia instruído, comentou:
- Se continuares a gritar e a chorar não poderás pensar em tudo aquilo.
Julieta aprovou a sabedoria do pássaro.
Secou os olhos com as folhas de um lírio que o urso tinha lhe aproximado. Olhou para o urso e lhe disse:
-Tu pesas bastante, mas não parece te importar.
- Eu hiberno no inverno, preciso dos quilos para sobreviver – respondeu o urso.
O cervo que não era nenhum pensador de repente pensou:
- Quiçá precisas de desse peso para sobreviver – disse para Julieta.
- ¿O que queres dizer? - perguntou Julieta.
- Não tenho certeza – respondeu. - Não sei o que significa sobreviver.
- Merlin diria que estás utilizando a gordura como uma armadura ... para te proteger a ti mesma – comentou Rebeca.
- ¿Do que quereria me proteger a mim mesma? - perguntou Julieta.
- Eu protejo a mi mesmo fugindo do que me assusta - disse o cervo.
- Disseste que iludir significa evitar algo ao qual tens que enfrentar.
¿Pode ser que estejas fugindo de algo que queres evitar? Perguntou Rebeca a Julieta.
Julieta sacudiu a cabeça:
- Não, nunca tive que fugir de nada que me atemorizasse porque meu pai ou o cavaleiro sempre me protegiam.
- Pode ser que estejas avançando – disse Rebeca-
- Não estás um pouco farta de necessitar do cavaleiro ou do teu pai para te defender e te proteger?
Julieta olhou para ela um pouco pensativa. O urso meteu o bedelho:
- Juraria que estás irritadíssima com os homens.
- Bom, os homens podem ser como uma espinha no traseiro - admitiu Julieta.
- ¿E onde acumulas a maior parte do peso? - perguntou Rebeca.
Julieta deu um grito afogado enquanto se tocava na parte da anatomia em questão.
- Merlin disse que quando evitamos a raiva nos sentamos acima dela - insistiu Rebeca.
O urso se riu a gargalhadas e lhe disse a Julieta:
- Com os anos a tua raiva foi aumentando, e ao mesmo tempo o teu...
Julieta lhe fulminou com o olhar e o urso não acabou a frase. E se voltando para Rebeca e ao cervo lhes disse:
- Já não gosto desta busca, quero ir embora para casa.
- Mas se agora estas chegando ao cerne da questão- continuou o cervo- O seu aborrecimento com os homens.
- ¿E que se estou aborrecida com os homens?- disse Julieta irritada.
¿O que ganho falando disso? É o seu mundo e se supõe que devo ser feliz por me deixarem viver nele.- Fechou a mandíbula com força –: Retorno a casa.
O cervo tentou que entrasse em razão:
- Mas Merlin disse que uma parte sua é masculina, isso significa que estás aborrecida contigo mesma.
- Se estás aborrecida, talvez possamos te auxiliar.
Mas se for para a casa, estará sozinha – interveio o urso.
- Seria uma pena abandonar agora- aclarou o cervo-. Sinto que já estás próxima da verdade e do por quê não conseguiste tocar o Cavaleiro no teu sonho.
- Já tive bastante verdade nessa busca para perder mais tempo na minha vida- respondeu Julieta-. Estarei mais segura em casa.
- Para te enfrentar à verdade não precisas estar a salvo. Podes ter amor ou segurança mas não ambas as coisas – gorjeou Rebeca.
- Da mente de Merlin à boca de uma pomba - lhe espetou Julieta.
Então o urso falou por boca de Merlin:
- A verdade nem sempre é agradável, mas sempre vale a pena.
- Merlin, Merlin - grunhiu Julieta - Estou enfadada de ouvir falar do Mago Merlín.
- ¿E que sentes ao vê-lo? – disse uma voz.
Julieta se virou e viu Merlin sentado em uma árvore.
- ¿O que estás fazendo aí em cima?- perguntou.
- Com o humor que tens é mais seguro estar aqui acima que aí embaixo – respondeu Merlin.
Julieta não conseguiu conter o riso e rolou de rir, e Merlin pousou suavemente no chão. Julieta se enfrentou a Merlin com determinação:
- Tenho que dizer que sinto resistência contra a autoridade masculina.
- Daqui a uns 500 anos aproximadamente, te chamariam feminista - assentiu Merlin.
- ¿O que é uma feminista?
Merlin sorriu:
- Uma mulher que tem grande resistência à autoridade masculina.
- E isso te exclui a ti - disse Julieta.
- Os homens acham que por terem nascido homens já sabem tudo. Seria bem mais fácil aprender de ti se fosses uma mulher.
- Posso suportá-lo - respondeu Merlin. Girou sobre si mesmo como um torvelinho . Quando finalmente se deteve, Julieta viu a uma bela mulher.
A mulher disse com a voz de Merlin:
- ¿Sentirás menos resistência agora aprendendo de mim?
Julieta a olhou com desconfiança:
- Não sei se posso aprender algo de uma mulher tão bela. ¿Por que te converteste em uma mulher tão bela?
Merlin sorriu com elegância:
- Assim é como me vejo a mim mesmo como mulher, simplesmente maravilhosa.
- ¿Podes envelhecer um pouco?- lhe perguntou Julieta.
Merlin voltou a girar como um torvelinho. Ao se deter era mais velha e mais feinha.
Julieta assentiu com a cabeça e disse:
- Assim esta melhor.
- Não te resistes a mim como um homem ou como uma bela mulher, te resistes a enfrentar a raiva que te produz qualquer um que possa te tirar poder - especificou Merlin.
Julieta olhou pensativa e disse:
- É possível.
- Ninguém pode quitar o teu poder. Nos séculos vindouros se falará bastante sobre os homens que tiram o poder das mulheres, e das mulheres que o recuperam. Dessa forma terá bastantes mulheres aborrecidas que lutarão para recuperar o seu poder- explicou Merlin.
- Se dentro de uma centena de anos eu continuar viva, verei o que se lê dessas mulheres – respondeu Julieta.
Sorrindo Merlin lhe respondeu: - E cometes o mesmo erro que elas estão cometendo. Não serás mais poderosa tirando o poder do outro. De fato ninguém pode tirar o poder do outro, a menos que a pessoa que o possui o consinta.
Julieta se colocou à defensiva:
- Os homens nasceram com poder. E conseguem mais coisas tirando o poder de nós.
- Eu já te disse que não se tem mais poder tirando do outro. O único modo de ter mais poder é se amando a si mesmo - repôs Merlin com firmeza.
- É difícil se amar a si mesma quando te rebaixam constantemente ou querem que sejas sua criada – lhe respondeu Julieta com a mesma firmeza.
- Isso é verdade – admitiu Merlin - mas é igualmente verdade que os homens têm um verdadeiro problema para aprender a se amar a si mesmos, pois as mulheres tentam ser mais altas os fazendo se sentir mais baixos.
Infelizmente, o que se leva nas relações é ter o controle. E quando há controle, não há amor. Durante séculos, homens e mulheres, na realidade não se amaram.
Manipularam-se uns aos outros. Cada sexo fez sentir ao outro que o amor devia ganhá-lo.
- Bem, se eu não estou no lar com o Cavaleiro fazendo com que tudo seja belo e confortável , ele me faz sentir como se nunca tivesse merecido o seu amor - admitiu Julieta.
- ¿E tu não almejas que ele faça coisas por ti de maneira que sinta que ganha o vosso amor? - lhe perguntou amavelmente Merlin.
- Me preocupa realmente descobrir as minhas qualidades menos admiráveis – suspirou Julieta, ao mesmo tempo em que assentiu admitindo a verdade das palavras de Merlin.
Merlin começou a girar e recordou sua forma anterior:
- ¿Lembra o que te disse com respeito a não julgar a si mesma nesta busca? - disse Merlin, arrumando-se o cabelo.
- É difícil. Tira-me do sério pensar que ganho um monte de quilos para esconder a minha raiva – assentiu Julieta.
Merlin sorriu:
- Se isto te faz feliz, te direi que a vossa raiva não é a única causa de vosso sobrepeso. Nunca existe apenas uma causa.
- ¿Queres dizer que tem outras coisas que devo descobrir sobre mim para ficar magra?- perguntou Julieta.
- Isso mesmo - assentiu Merlin-, mas como a vossa raiva aos homens já esta resolvida, vamos a ver outras coisas.
- Muito bem - respondeu Julieta enfadada. - Tenho aprendido que estou furiosa por ter que depender dos homens para ter abrigo e proteção.
- Depender de alguém não é tão mal se aceitas essa dependência com amor e não com ressentimento – lhe disse Merlin amavelmente.
- É difícil não ficar ressentida com os homens – respondeu Julieta.
- Quando era pequena, o meu pai me dizia o que eu podia e o que não podia fazer e ainda por cima disso era o rei. Depois me casei com um homem que acredita que é um rei por ter nascido homem. Senta-se no seu trono e me diz o que posso e o que não posso fazer.
- Não sei- duvidou Merlin - Eles te controlam.
- E isso me deixa absolutamente furiosa - disse Julieta dando um pontapé.
Infelizmente o fez com o mesmo pé com o qual tinha chutado o cartaz.
Gritou de dor e se massageou a ponta do pé energicamente.
- ¿E que esperavas? Tu lhe deste poder – sentenciou Merlin com amabilidade e fadiga.
- É difícil para uma mulher não fazê-lo - protestou Julieta - Como te disse o mundo é deles.
- Isso é porque tu e milhões de mulheres como tu não haveis desenvolvido o vosso poder masculino.
- Estás culpando às mulheres – disse Julieta – e isso ainda me deixa mais furiosa - Voltou a dar um pontapé, mas dessa vez lembrou de usar o pé que não estava ferido.
O resultado não foi doloroso, mas aconteceu algo surpreendente...
