A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Qui Jul 29, 2010 8:00 pm

Julieta seguia o seu trajeto irritada e de mau humor.

O seu passo não era ligeiro e o seu coração não estava radiante, além disso, estava pronta para se irritar por qualquer coisa. O dia não tinha
começado completamente bem.

Primeiro, o sonho no qual não tinha podido nem alcançar e nem tocar o Cavaleiro; depois a vergonha de haver chorado diante dos animais, e, ao final, ao pensar que um bom banho em um regato a animaria, caiu no mesmo, o que se converteu em uma experiência completamente deprimente.

Contemplou o seu reflexo na água e viu que estava mais gorda do que nunca. Bom, essa era a opinião de Julieta. Na realidade estava apenas simpaticamente redonda. Mas havia ganhado peso e não podia imaginar o por quê.

Sempre confiou que uns quilos a mais se deviam a não estar demasiado ativa e a comer demais. Mas na busca estava em constante movimento e comia frugalmente. Estava consternada, pois ao invés de perder peso com esse tipo de vida, o havia ganhado.

Enquanto refletia sobre esse problema, Rebeca pousou de repente no seu ombro e, enquanto lhe mostrava com uma asa um extremo do caminho disse:
- ¡Olha!

Julieta leu em voz alta:

<<!Caspite! A evitação impede perder peso>>

Julieta ficou olhando essas palavras enquanto saía da água e se arrumava. Não estava de humor para se enfrentar a um sinal que não entendia. Da frustração passou à raiva. Deu um chute no sinal com o pé pequeno, mas forte. O sinal continuou bem afiançado ao chão, mas ela se machucou com a ponta do pé. Gritou de dor e se sentou no chão segurando o ferido pé.

Os animais acudiram imediatamente em seu auxilio. O cervo levou-lhe umas folhas úmidas de eucalipto, e lhe disse que se envolvesse o pé com elas pois elas aliviariam a sua inflamação. Rebeca tomou alguns arandos e colocou-os na boca de Julieta com o seu bico.

- Isto te acalmará os nervos – lhe disse.
O urso ofereceu para Julieta umas nozes que tinha colhido. Julieta as recusou de forma educada dizendo que tinham muitas calorias,
- ¿O que são calorias? - perguntou o cervo.

Com lágrimas nos olhos, Julieta lhes disse que Merlin tinha lhe explicado que as calorias são coisas que os alimentos têm e que fazem ganhar peso,
- Mas o sinal diz que a evitação é o que te fez engordar – disse Rebeca.

O cervo, como já se diz anteriormente, tinha um léxico um tanto limitado.

- ¿O que significa evitação? – perguntou.
Julieta, que já se sentia um pouco melhor do pé graças as folhas de eucalipto e aos arandos que introduziu em sua boca disse:
- Significa evitar ou não olhar o que a pessoa tem na frente.

- ¿E tu estas fazendo isso?

- ¡E como vou sabê-lo! Se soubesse o que estava evitando não o evitaria- Julieta estava ainda um pouco irritada.

Rebeca depositou mais alguns arandos na boca de Julieta:

- Talvez estejas iludindo o que não sabes.
- ¡Não o sei! Gemeu Julieta – ¿Como vou saber o que estou evitando saber?
Rebeca, a quem Merlin havia instruído, comentou:
- Se continuares a gritar e a chorar não poderás pensar em tudo aquilo.
Julieta aprovou a sabedoria do pássaro.

Secou os olhos com as folhas de um lírio que o urso tinha lhe aproximado. Olhou para o urso e lhe disse:
-Tu pesas bastante, mas não parece te importar.
- Eu hiberno no inverno, preciso dos quilos para sobreviver – respondeu o urso.

O cervo que não era nenhum pensador de repente pensou:
- Quiçá precisas de desse peso para sobreviver – disse para Julieta.
- ¿O que queres dizer? - perguntou Julieta.
- Não tenho certeza – respondeu. - Não sei o que significa sobreviver.

- Merlin diria que estás utilizando a gordura como uma armadura ... para te proteger a ti mesma – comentou Rebeca.
- ¿Do que quereria me proteger a mim mesma? - perguntou Julieta.
- Eu protejo a mi mesmo fugindo do que me assusta - disse o cervo.
- Disseste que iludir significa evitar algo ao qual tens que enfrentar.
¿Pode ser que estejas fugindo de algo que queres evitar? Perguntou Rebeca a Julieta.

Julieta sacudiu a cabeça:

- Não, nunca tive que fugir de nada que me atemorizasse porque meu pai ou o cavaleiro sempre me protegiam.
- Pode ser que estejas avançando – disse Rebeca-
- Não estás um pouco farta de necessitar do cavaleiro ou do teu pai para te defender e te proteger?

Julieta olhou para ela um pouco pensativa. O urso meteu o bedelho:
- Juraria que estás irritadíssima com os homens.
- Bom, os homens podem ser como uma espinha no traseiro - admitiu Julieta.
- ¿E onde acumulas a maior parte do peso? - perguntou Rebeca.

Julieta deu um grito afogado enquanto se tocava na parte da anatomia em questão.

- Merlin disse que quando evitamos a raiva nos sentamos acima dela - insistiu Rebeca.

O urso se riu a gargalhadas e lhe disse a Julieta:

- Com os anos a tua raiva foi aumentando, e ao mesmo tempo o teu...
Julieta lhe fulminou com o olhar e o urso não acabou a frase. E se voltando para Rebeca e ao cervo lhes disse:
- Já não gosto desta busca, quero ir embora para casa.

- Mas se agora estas chegando ao cerne da questão- continuou o cervo- O seu aborrecimento com os homens.

- ¿E que se estou aborrecida com os homens?- disse Julieta irritada.

¿O que ganho falando disso? É o seu mundo e se supõe que devo ser feliz por me deixarem viver nele.- Fechou a mandíbula com força –: Retorno a casa.
O cervo tentou que entrasse em razão:
- Mas Merlin disse que uma parte sua é masculina, isso significa que estás aborrecida contigo mesma.
- Se estás aborrecida, talvez possamos te auxiliar.

Mas se for para a casa, estará sozinha – interveio o urso.
- Seria uma pena abandonar agora- aclarou o cervo-. Sinto que já estás próxima da verdade e do por quê não conseguiste tocar o Cavaleiro no teu sonho.
- Já tive bastante verdade nessa busca para perder mais tempo na minha vida- respondeu Julieta-. Estarei mais segura em casa.
- Para te enfrentar à verdade não precisas estar a salvo. Podes ter amor ou segurança mas não ambas as coisas – gorjeou Rebeca.
- Da mente de Merlin à boca de uma pomba - lhe espetou Julieta.
Então o urso falou por boca de Merlin:
- A verdade nem sempre é agradável, mas sempre vale a pena.

- Merlin, Merlin - grunhiu Julieta - Estou enfadada de ouvir falar do Mago Merlín.
- ¿E que sentes ao vê-lo? – disse uma voz.

Julieta se virou e viu Merlin sentado em uma árvore.

- ¿O que estás fazendo aí em cima?- perguntou.
- Com o humor que tens é mais seguro estar aqui acima que aí embaixo – respondeu Merlin.
Julieta não conseguiu conter o riso e rolou de rir, e Merlin pousou suavemente no chão. Julieta se enfrentou a Merlin com determinação:
- Tenho que dizer que sinto resistência contra a autoridade masculina.
- Daqui a uns 500 anos aproximadamente, te chamariam feminista - assentiu Merlin.

- ¿O que é uma feminista?

Merlin sorriu:

- Uma mulher que tem grande resistência à autoridade masculina.
- E isso te exclui a ti - disse Julieta.

- Os homens acham que por terem nascido homens já sabem tudo. Seria bem mais fácil aprender de ti se fosses uma mulher.
- Posso suportá-lo - respondeu Merlin. Girou sobre si mesmo como um torvelinho . Quando finalmente se deteve, Julieta viu a uma bela mulher.

A mulher disse com a voz de Merlin:
- ¿Sentirás menos resistência agora aprendendo de mim?

Julieta a olhou com desconfiança:
- Não sei se posso aprender algo de uma mulher tão bela. ¿Por que te converteste em uma mulher tão bela?

Merlin sorriu com elegância:

- Assim é como me vejo a mim mesmo como mulher, simplesmente maravilhosa.
- ¿Podes envelhecer um pouco?- lhe perguntou Julieta.
Merlin voltou a girar como um torvelinho. Ao se deter era mais velha e mais feinha.

Julieta assentiu com a cabeça e disse:

- Assim esta melhor.
- Não te resistes a mim como um homem ou como uma bela mulher, te resistes a enfrentar a raiva que te produz qualquer um que possa te tirar poder - especificou Merlin.
Julieta olhou pensativa e disse:
- É possível.
- Ninguém pode quitar o teu poder. Nos séculos vindouros se falará bastante sobre os homens que tiram o poder das mulheres, e das mulheres que o recuperam. Dessa forma terá bastantes mulheres aborrecidas que lutarão para recuperar o seu poder- explicou Merlin.
- Se dentro de uma centena de anos eu continuar viva, verei o que se lê dessas mulheres – respondeu Julieta.

Sorrindo Merlin lhe respondeu: - E cometes o mesmo erro que elas estão cometendo. Não serás mais poderosa tirando o poder do outro. De fato ninguém pode tirar o poder do outro, a menos que a pessoa que o possui o consinta.

Julieta se colocou à defensiva:
- Os homens nasceram com poder. E conseguem mais coisas tirando o poder de nós.
- Eu já te disse que não se tem mais poder tirando do outro. O único modo de ter mais poder é se amando a si mesmo - repôs Merlin com firmeza.

- É difícil se amar a si mesma quando te rebaixam constantemente ou querem que sejas sua criada – lhe respondeu Julieta com a mesma firmeza.
- Isso é verdade – admitiu Merlin - mas é igualmente verdade que os homens têm um verdadeiro problema para aprender a se amar a si mesmos, pois as mulheres tentam ser mais altas os fazendo se sentir mais baixos.
Infelizmente, o que se leva nas relações é ter o controle. E quando há controle, não há amor. Durante séculos, homens e mulheres, na realidade não se amaram.
Manipularam-se uns aos outros. Cada sexo fez sentir ao outro que o amor devia ganhá-lo.

- Bem, se eu não estou no lar com o Cavaleiro fazendo com que tudo seja belo e confortável , ele me faz sentir como se nunca tivesse merecido o seu amor - admitiu Julieta.
- ¿E tu não almejas que ele faça coisas por ti de maneira que sinta que ganha o vosso amor? - lhe perguntou amavelmente Merlin.
- Me preocupa realmente descobrir as minhas qualidades menos admiráveis – suspirou Julieta, ao mesmo tempo em que assentiu admitindo a verdade das palavras de Merlin.

Merlin começou a girar e recordou sua forma anterior:

- ¿Lembra o que te disse com respeito a não julgar a si mesma nesta busca? - disse Merlin, arrumando-se o cabelo.
- É difícil. Tira-me do sério pensar que ganho um monte de quilos para esconder a minha raiva – assentiu Julieta.

Merlin sorriu:

- Se isto te faz feliz, te direi que a vossa raiva não é a única causa de vosso sobrepeso. Nunca existe apenas uma causa.
- ¿Queres dizer que tem outras coisas que devo descobrir sobre mim para ficar magra?- perguntou Julieta.
- Isso mesmo - assentiu Merlin-, mas como a vossa raiva aos homens já esta resolvida, vamos a ver outras coisas.
- Muito bem - respondeu Julieta enfadada. - Tenho aprendido que estou furiosa por ter que depender dos homens para ter abrigo e proteção.
- Depender de alguém não é tão mal se aceitas essa dependência com amor e não com ressentimento – lhe disse Merlin amavelmente.

- É difícil não ficar ressentida com os homens – respondeu Julieta.

- Quando era pequena, o meu pai me dizia o que eu podia e o que não podia fazer e ainda por cima disso era o rei. Depois me casei com um homem que acredita que é um rei por ter nascido homem. Senta-se no seu trono e me diz o que posso e o que não posso fazer.
- Não sei- duvidou Merlin - Eles te controlam.

- E isso me deixa absolutamente furiosa - disse Julieta dando um pontapé.

Infelizmente o fez com o mesmo pé com o qual tinha chutado o cartaz.
Gritou de dor e se massageou a ponta do pé energicamente.

- ¿E que esperavas? Tu lhe deste poder – sentenciou Merlin com amabilidade e fadiga.

- É difícil para uma mulher não fazê-lo - protestou Julieta - Como te disse o mundo é deles.
- Isso é porque tu e milhões de mulheres como tu não haveis desenvolvido o vosso poder masculino.
- Estás culpando às mulheres – disse Julieta – e isso ainda me deixa mais furiosa - Voltou a dar um pontapé, mas dessa vez lembrou de usar o pé que não estava ferido.

O resultado não foi doloroso, mas aconteceu algo surpreendente...
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Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Sex Jul 30, 2010 10:08 pm

Capítulo VIII (2da parte)

Aos pés de Julieta se abriu um enorme fosso. Olhou embaixo e proferiu um grito aflito ao ver o redemoinho preto do vórtice. Deu um pulo para trás, temendo cair dentro. Ao fazê-lo, a massa preta do redemoinho reverteu e tomou a forma de um enorme monstro – Julieta se refugiou atrás de Merlin.

- ¿Quem é essa coisa? Perguntou tremendo.
- Não é quem, é o quê - replicou Merlin.

Julieta não estava de humor para tecnicismos.
Alçou o olhar até a grande massa e disse:

- ¿O que é isso?
- A vossa raiva – respondeu Merlin.
- Julieta olhou incrédula.
- ¿Esse monte de massa é minha?

Merlin assentiu.

- Não acredito. Às vezes me enfureço, mas... não sou um monstro – concluiu Julieta com firmeza.
Um som metade grunhido, metade gargalhada saiu da boca da ameaçadora figura.

- Isto não ocorreu da noite para o dia - Vós o levas anos guardando – disse Merlin.
- De todo modo, não acredito que eu tenha toda essa raiva - exclamou Julieta irritada.
- A ira – disse Merlin - é apenas uma expressão da cólera.
Existe desesperação, depressão, abandono, desesperança e, por suposto, impotência. Todas as coisas que sentiste que eram controladas pelos homens.

- Não posso acreditar que tenha guardado todo isso dentro de mim para criar um monstro – confessou Julieta, um tanto sobressaltada e um tanto desesperada.
- Se diz que é algo <<cultural>>.
As mulheres se reprimem muitíssimo; se espera delas que se <<comportem>> e elas até os quarenta não começam a se expressar por si mesmas e com certeza, neste momento já têm bastante para expressar - respondeu Merlin.
- Os homens – disse Julieta - sempre se expressam por si mesmos – Queres dizer, pois, que eles não sentem raiva?

- Eu não disse isso em absoluto. Eles ainda sendo novos, deixam de lado o coração e o trocam pela mente, e , no momento no qual as mulheres começam a se expressar por elas mesmas, os homens, ou seja alguns homens, começam a buscar a forma de exteriorizar os sentimentos que necessitam expressar - respondeu Merlin.
- Continuo pensando que é mais fácil ser homem - Julieta suspirou.
- Em certo modo, sim. Grande parte da hostilidade e da raiva que muitas mulheres experimentam se deve ao fato de terem nascido mulheres, e, possivelmente terem vivido a infelicidade neste mesmo sexo em outras existências – assentiu Merlin.
Julieta voltou a olhar o monstro com receio.
-Mas é tão feio - disse Julieta.
Merlin a olhou com compaixão:
- Não é fácil para nenhum de nós admitir que tínhamos força obscura em nosso interior.

- Por favor Merlin, faça com que vá embora.

- Eu não posso fazer que desapareça – aclarou Merlin, sacudindo a cabeça.
- Então ¿como posso me desfazer dessa coisa?
- Nunca nos desfazemos de algo que nós mesmos temos criado. Só podemos abraçá-lo como algo nosso e não nos sentirmos mal por tê-lo - respondeu Merlin.

Julieta olhou-o horrorizada:

-¿Estás me dizendo que abrace isso?
- Veja o que acontece quando o fazes, Julieta –disse-lhe Merlin docemente. - Estou aqui para te auxiliar.
Julieta titubeante, saiu detrais do mago e se aproximou do monstro. Este não fez nada para tranqüilizá-la. Se erguia ainda mais imponente, e os seus olhos amarelos fulguravam. Julieta fechou os olhos e abraçou o monstro tanto como pôde. A besta se desvaneceu e o fosso se fechou aos seus pés.

Julieta abriu os olhos e olhou surpreendida ao seu redor:
¿Para onde se foi?

Ao formular a pergunta, sentiu uma repentina força no seu interior. A busca a tinha fatigado, mas agora se sentia cheia de energia. Sentia que a sua vitalidade aumentava e que seus ressentimentos e desesperança com respeito à busca desapareciam.

Merlin sabia o que Julieta estava sentindo e sorriu:

- Uma vez que a própria raiva não vos controla, depois de passar por ela, tereis experimentado o que subjaz: paz e amor. Estás em uma posição na qual podes apoiar aos homens sem abandonar a vossa autoridade. Podes amar ao Cavaleiro incondicionalmente sem sentir que tens que te render ante ele. Nunca mais terás que abandonar a vossa autoridade.

Julieta sacudiu a cabeça.

- Parece impossível mudar algo que chegou tão longe.
- Não é impossível - aclarou Merlin com firmeza -, mas com certeza, sim, bastante difícil.

Ao longo dos séculos, homens e mulheres criaram essa ilusão com respeito a quem são e quem é o outro. A ilusão, quando dura muito tempo, se converte em uma bruma como a do bosque, tão espessa que a pessoa já não podia ver a realidade. Existia resistência a dispersar a neblina da ilusão porque nenhum homem e nenhuma mulher queriam se arriscar com a mudança. A ilusão é que esse mundo se converteu em um mundo de homens. As mulheres o fizeram possível subordinando-se a eles. Além disso se querem ver um mundo melhor, a única oportunidade é mudar o homem. E então se inicia um duro combate no qual as mulheres socavam a autoridade dos homens, tentando fazê-los mudar.

- Sinto-me mais forte do que nunca – comentou Julieta-, mas eu sou apenas uma mulher – ¿O que mudará isso?

- Qualquer um que mude a ilusão pela realidade sente uma diferença – respondeu Merlin. No Egito teve uma rainha chamada Hatshepsut. Subiu ao trono em um ambiente tremendamente masculino e durante 20 anos governou não apenas com a coragem, a fortaleza e o exercício do poder de um homem, mas também com o espírito afável e terno de uma mulher. Durante o seu reinado não houve guerras, senão abundância, e uma alegria e felicidade que o povo do Egito não tivera até então. E enquanto falamos disto, uma jovem está crescendo e apelará ao seu poder masculino e feminino e levantará as armas para lutar pela liberdade. Passará à história como Joana de Arco.
- Entre todos os milhões de homens e mulheres que viveram e desencarnaram - disse Julieta -, apenas conseguiste nomear a duas que não tiveram que renunciar ao seu poder.
Merlin olhou para Julieta com grande carinho e lhe disse suavemente:
- E agora há três. E quiçá tu sejas a mais valente de todas.
Os olhos de Julieta se abriram de par em par devido à surpresa.
- Mas eu não vou governar um país ou me alçar em armas – ¿Por que me chamas de valente?
- Porque estás nesta busca não para levar uma empresa alheia a ti, mas para conseguir uma vitória interior, viver com alegria, felicidade e amor, e encontrar a paz no teu eu interior. Tens a oportunidade de amar inteiramente a ti mesma, e por conseguinte, amar ao teu esposo de igual modo em um âmbito que chamamos relação amorosa - aclarou Merlin.
- ¿E isso mudará algo?
- Sim, tu gerarás uma energia que dará um exemplo para que outras mulheres se arrisquem a mudar - respondeu Merlin.
- Custa acreditar – disse Julieta.
- Nos séculos vindouros essa energia que tu estás gerando nesta busca chegará a milhões de mulheres que efetuarão uma mudança sem renunciar ao seu poder, e isso, por conseguinte, contribuirá a que milhões de homens mudem.

As palavras de Merlin impactaram Julieta em todo o seu ser. Ergueu-se o quão alta era no seu metro e cinqüenta e oito centímetros e esqueceu da dor do pé e da sua fatiga física e mental.

Nos seus olhos brilhava uma luz nova e se dirigindo aos animais disse:
- ¡Vamos em busca do caminho!!

Não acabara de dizer essas palavras quando a neblina do bosque se dissipou. Julieta olhou em sua volta, surpresa pela claridade que tinha criado até esse momento na busca.

- ¿Que ilusão deixei atrás? Perguntou se dirigindo a Merlin.
- A de que és importante - respondeu o mago.


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Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Dom Ago 01, 2010 1:07 am

Capítulo IX

O Cavaleiro passeava pelo caminho, imerso em seus pensamentos.
Não tinha percebido que a bruma estava ficando mais espessa. Já era quase uma neblina.
O Cavaleiro lembrava sua conversa anterior com Merlin. Admitiu que nem sempre estava no centro do amor.

Ao retornar da sua primeira busca, sentiu um grande amor por si mesmo que fez extensível ao rei e a todos os campesinos que lhe adoravam como guerreiro.
Estava sempre em guarda e lhes auxiliava a qualquer hora do dia. De fato Bolsalegre escreveu uma canção em honra ao Cavaleiro que se chamava <<Cavaleiro da noite e do dia>>.

Apenas Julieta podia irritá-lo, exasperá-lo e frustrá-lo. Só ela podia afastá-lo do centro do seu amor e de seu ego.

- Segundo a minha experiência, tu tens apenas que te defender do que te dá medo.
No meu caso, é de qualquer um que queira me comer – disse Esquilo, que estava à sua volta.

- Não temo a nada e nem a ninguém. Na minha primeira busca enfrentei o medo, inclusive derrotei o dragão do medo e das dúvidas – afirmou o Cavaleiro.

O estrondo de uma gargalhada ressoou no bosque.

O Cavaleiro ficou paralisado. Olhou com atenção através da bruma ainda mais espessa; os seus olhos não podiam acreditar no que estava vendo.
Frente a ele se encontrava o Dragão do medo e das dúvidas. O Cavaleiro tinha esquecido o quanto era enorme e feroz. Media pelo menos trinta metros de altura.
E seu rabo de doze metros arremetia contra o bosque, arrasando tudo o que encontrava.

- ¡Mas se eu te derrotei! - disse o Cavaleiro incrédulo. - ¡Me aproximei de ti sem medo e começaste a minguar e minguar até desaparecer!

- Foi algo momentâneo – rugiu o dragão. – Lembra que te disse que se alguma vez voltasses a ter medos ou dúvidas eu regressaria. E agora tens medo de Julieta.
O Cavaleiro o negou veementemente:

- ¿Porque ia ter-lhe medo? Sou mais forte e mais inteligente que ela e posso controlá-la.

O dragão começou a rir novamente e disse:

- A necessidade de controlar nasce do medo. E quando controlas a uma pessoa, não podes amá-la, portanto duvido que ames a Julieta.
Estás carregado de medos e dúvidas - rugiu triunfante o dragão.

O Cavaleiro estava furioso com a lógica do dragão:

- De qualquer modo ¿o que estás fazendo aqui?
- ¿Por que não estás guardando o Castelo da Vontade e da Ousadia?
- Estou fazendo um “bico” – respondeu o dragão - Desenvolvo e disperso a bruma da ilusão.

Dito isto, agitou o rabo, os seus olhos brilharam e lançou uma baforada que não era outra coisa senão a bruma com a qual o Cavaleiro estava lutando durante todo o caminho.

- Todas as ilusões – disse o dragão - provêm do medo e da dúvida. As pessoas viviam com medo e dúvidas e não podiam confiar nem em si mesmas e nem nos demais, nem mesmo naqueles a quem amam.
- Mas eu amo a Julieta - protestou o Cavaleiro. - ¿Por que ia a ter medo dela?

Mais uma vez a gargalhada do dragão ressoou em todo o bosque:
- Porque ela quer de ti o que todas as mulheres querem de todos os homens. Quer que mudes.

As palavras da besta impactaram ao Cavaleiro. Tinha mudado bastante desde a primeira busca, mas evidentemente para Julieta não era o suficiente. Percebeu que várias das mudanças que Julieta queria que ele fizesse estavam relacionadas com que a vida do Cavaleiro se ajustasse às necessidades dela. Ela não queria que ele fosse às cruzadas e não gostava que ele saísse com os outros Cavaleiros para festejar na rua.
Tinha que admitir que se sentia melhor desde que tudo isso tinha parado, porém ele sentia que aquilo era uma forma de controle, pois ela almejava que ele fosse o que ela necessitava.

Ele tinha que ser ele mesmo, da mesma forma na qual ela tinha que ser ela mesma. Enxergou que tinha que mudar, uma vez que não era feliz ou sua felicidade não durava o bastante. Por isso havia empreendido esta busca: para encontrar uma felicidade estável para si mesmo e para compartilhá-la com Julieta.

Da boca do Dragão ia surgindo mais e mais neblina, que não apenas aumentava a confusão do Cavaleiro, senão que este sentia que ia perdendo força na medida em que se adentrava na energia da ilusão. A bruma lhe invadia o coração, o estômago e a cabeça.
O Cavaleiro caiu ao chão, debilitado.

- Tenho que mudar - disse ofegante.
- ¡Tarde demais! - rugiu o dragão triunfante.

O Cavaleiro sentia que as forças o abandonavam:

- ¡Melin, Merlin! Chamou. Olhou ao seu redor, mas o mago não aparecia.
- Fique tranqüilo – aconselhou Esquilo.

O Cavaleiro de imediato foi invadido pelo pânico.

- Para ti é fácil estar tranqüilo - disse o Cavaleiro - ¡Quem está desencarnando sou eu!

- Se Merlin não aparece, significa que podes matar o dragão sozinho - disse a raposa.

O Cavaleiro com grande coragem e vontade, se pôs em pé para poder pensar com maior claridade.
A neblina da ilusão o estava asfixiando e o fazia ofegar.

- Quero mudar sentenciou. - Quero ser o melhor de mim mesmo, mas ¿o que é o que me detém?

E, de repente se deu conta. Era mais do que medo, tinha terror à mudança. A força desse descobrimento lhe permitiu respirar um pouco melhor.

- ¿Por que me aterroriza a mudança? - perguntou-se a si mesmo.
A resposta chegou numa espécie de fusão entre a sua voz e a de Merlin.

- Agora sabes quem és. Se mudas não saberás quem será essa nova pessoa. E, pior ainda, se mudas por completo poderás desaparecer e não existir nunca mais.

Com esse novo pensamento, o Cavaleiro sentiu um novo ânimo. Ergueu-se e gritou ao dragão:
- Já não me aterra a mudança. Posso oferecer e receber amor, e ainda existo... Não morrerei e não desaparecerei.

Dos olhos do Cavaleiro desprendiam chispas.
Depois de emitir um grito de fúria, o dragão desapareceu e se evaporou no nada.
Ao fazê-lo a espessa neblina se transformou em uma ligeira bruma e começou a subir.

A última das ilusões começou a deixar livre o Cavaleiro. Este viu claramente que podia se amar a si mesmo o suficiente para ser quem queria ser e também para permitir que Julieta fosse quem ela necessitasse ser.
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Re: A volta do Cavaleiro da Armadura Enferrujada

Mensagempor Melania keter em Dom Ago 01, 2010 7:01 pm

Capítulo X

Nesse mesmo instante, Julieta, situada na bruma de sua bruma, percebeu que amar ao Cavaleiro era permiti-lhe ser quem ele almejasse ser.
A bruma da ilusão abandonou o bosque para sempre e Julieta e o Cavaleiro perceberam que estavam apenas a uns passos um do outro. Souberam que se não tivessem conseguido despejar a neblina da ilusão teriam passado um junto ao outro sem saber sequer que estavam tão perto.

Permaneceram um momento imóveis, olhando-se um ao outro com amor e alegria; depois se encontraram um nos braços do outro.
- Sinto-me como se começássemos agora mesmo o nosso matrimônio - disse Julieta trêmula.

- Eu sinto o mesmo – manifestou o Cavaleiro com doçura.

Olharam-se nos olhos. Podiam ver-se com absoluta claridade.
Beijaram-se e se abraçaram como nunca o tinham feito antes, e aconteceu uma coisa milagrosa: da sua energia surgiu uma terceira entidade. Tratava-se da sua relação.

Eram o Cavaleiro e Julieta, mas eram mais do que um mais um. O poder do amor dessa cifra ia além da imaginação. Surgiu na terra mas alcançou o céu. Estendeu-se com o resplendor do sol e a suavidade da lua.
Todo aquele que quisesse ver ou sentir a sua essência poderia experimentar a inspiração, a alegria e a felicidade do casal que a criou.

Pois na sua relação, o Cavaleiro e Julieta se amavam como indivíduos inteiros, e também pelo que eram para cada um. Alcançaram o objetivo fundamental da vida: estavam além do amor, mas apenas podia ser alcançado através dele.

Tinham encontrado a liberdade eterna.

¿Fim?

Não há fim. Não há principio.
Tão só o tempo eterno que gira sobre si mesmo.
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