Bodhidharma - fundador do Zen
O dia de ano novo
nada bom ou mal
só seres humanos.
Shiki
O Zen foi introduzido na China por Bodhidharma no ano 527 d.C. Praticamente nada é conhecido de sua história na Índia, e é provável que seu iniciador somente o tenha sugerido aos chineses e que estes o tenham desenvolvido até conferir-lhe sua forma ímpar atual.
Historicamente, o Zen pode ser considerado como o produto final de longas tradições nas culturas indiana e chinesa, embora, atualmente, seja muito mais chinês do que indiano e, desde o século XII, tenha se enraizado profundamente e de modo extremamente criativo no Japão. Como fruto dessas grandes culturas e como exemplo único e particularmente instrutivo de um caminho de libertação, o Zen é uma das mais preciosas dádivas da Ásia ao mundo.
Diante da pluralidade de afirmações a respeito da origem do Zen-budismo, cabe relatar sua mais antiga manifestação, que remonta a um episódio ocorrido com o próprio Buda. Um dia, ele ia fazer um discurso a dez mil discípulos e chegou com uma flor em suas mãos. Mas nada disse. Ele apenas se sentou silenciosamente, olhando para a flor. Isso continuou por dez, quinze, vinte minutos. Todos se espantaram com o que Buda estava fazendo e começaram a ficar agitados. Afinal, eram milhares de pessoas que haviam se deslocado de lugares distantes para ouvi-lo e ele estava sentado olhando para a flor.
Após um tempo prolongado de expectativa por parte dos discípulos, os quais já se sentiam constrangidos pela demora do Mestre, que nada dizia, alguém riu. Buda levantou os olhos e disse:
– Mahakashyap, venha aqui.
Era justamente a pessoa que havia rido. Essa é a única vez em que esse discípulo chega a ser mencionado nas escrituras. Buda deu a flor a Mahakashyap e disse:
– Tudo o que pode ser dito, eu já disse a todos; e tudo o que eu não disse, dou a Mahakashyap.
Apenas o não essencial, o superficial, o utilitário pode ser dito. A mais significativa transferência de conhecimento somente é possível no silêncio.
Assentindo com a cabeça, apenas o venerável Mahakashyap mostrou ter conseguido apreender e sentir o significado do gesto do iluminado, que, logo após ter dado um sorriso, retirou-se do local ainda sem ter dito palavra. O ambiente foi então inundado de luz e todos desfrutaram de um estado de bem-aventurança e êxtase que nunca havia sido sentido em seus discursos anteriores.
Comenta-se que esse gesto do Buda teria inspirado os princípios do Zen-budismo. Por séculos, o nome de Mahakashyap não foi mais mencionado. Então, mil e cem anos após o ocorrido, uma pessoa na China declarou:
– Pertenço a Mahakashyap, o homem a quem Buda deu a flor. Sou seu discípulo.
Essa pessoa era Bodhidharma, que saiu da Índia em direção à China e que é o primeiro patriarca do Zen-budismo.
– Tenho a flor ainda fresca – dizia ele, referindo-se a algo que não pode deixar de estar fresco nunca. Alguém lhe perguntou:
– Onde está a flor?
Bodhidharma respondeu:
– Está diante de você. Eu sou aquela flor. Vim para encontrar a pessoa certa a quem transferir a flor, porque vou partir em breve deste mundo.
Bodhidharma: originalidade e rigor
De que árvore em flor
não sei
Mas ah, que fragrância!
(Matsu Bashô)
A tradição Zen representa Bodhidharma como um homem de aspecto feroz, com uma espessa barba e de olhos muito abertos e penetrantes, nos quais, contudo, se insinua uma leve sugestão de piscadela. Conta a lenda que uma vez, estando ele em meditação, acabou adormecendo, e que ficou tão furioso com isso que cortou seus supercílios e os lançou ao chão. Passados alguns dias, observou que no lugar em que os havia jogado nascera uma planta. Era a mesma planta que, mais tarde, daria origem ao chá preto, o qual permite a uma pessoa manter-se alerta por períodos prolongados. Como o episódio ocorreu numa montanha chamada Ta, nome que também se pronunciava tcha, essa bebida acabou recebendo as denominações de tea, thé, té e chá, cada uma das quais usada numa língua. O chá preto passou a proporcionar aos monges zen uma proteção contra o sono, e de tal modo ele esclarece e revigora a mente que já foi dito que o gosto do Zen (ch’an) e o gosto do chá (ch’a) são o mesmo.
Templo de Sama
ouço as flautas antigas
sob a sombra de uma árvore
(Matsu Bashô)
Outra lenda afirma que certa vez Bodhidharma se sentou em meditação durante tanto tempo que lhe caíram as pernas. Provém daí o interessante simbolismo dos bonecos japoneses denominados Daruma, que representam o Mestre como um gorducho de pernas cruzadas. Esses bonecos têm um peso em seu interior o qual faz com que, quando deitados abaixo, voltem sempre a ficar em pé (assim como nosso boneco Sempre-em-pé). Acerca do Daruma, um popular poema japonês diz:
Jinsei nana Korobi
Ya oki.
(Assim é a vida: sete vezes se cai, oito se levanta!)
Bodhidharma foi à China há mil e quatrocentos anos. Quando lá chegou, carregava um de seus sapatos na cabeça e levava o outro, normalmente, num dos pés. O imperador Wu de Liang foi recebê-lo e, diante daquilo, sentiu-se embaraçado: que espécie de homem era aquele? Esperara há tanto tempo por ele e sempre havia pensado tratar-se de um homem sagrado, um grande santo, um sábio, mas agora Bodhidharma se comportava como um bufão.
O imperador ficou perturbado, inquieto, e na primeira oportunidade perguntou ao Mestre:
– O que está fazendo? O povo está rindo e ri também de mim porque vim recebê-lo. Isso não é maneira de se comportar como um santo!
Bodhidharma respondeu então:
– Mas só aqueles que não são santos comportam-se como santos. E eu sou um santo!
– Não posso entender. Carregando esse sapato em sua cabeça você mais parece um bufão!
– Sim, porque tudo o que é superficial é bufonaria. Você parado aí, por exemplo, como um imperador, com esse manto, essa coroa, esse traje especial, está se comportando como um verdadeiro bufão. E é só para lhe dizer isto que estou carregando este sapato em minha cabeça. Tudo isso é representação. O real não está nas aparências, na periferia. Olhe para mim, e não para meu corpo!
As flores caíram:
agora nossas mentes
estão tranqüilas.
(Koyû-ni)
O imperador, impressionado, ficou em silêncio a refletir sobre essas palavras. Uma vez recobrado do impacto causado pelo ensinamento, pôs-se a descrever ao Mestre tudo quanto havia feito para promover a prática do Budismo na China, construindo templos, fazendo copiar as escrituras e ordenando monges. E depois de tudo relatar-lhe a esse respeito, perguntou que mérito havia adquirido com tal procedimento.
– Nenhum mérito, em absoluto – respondeu Bodhidharma.
Chocado, Wu de Liang, tendo em vista a concepção popular do Budismo, a qual ensinava que a acumulação gradual de mérito só pode ocorrer através das boas ações, perguntou:
– Mas, então, qual é o primeiro princípio da sagrada doutrina?
– Esse princípio existe em tudo. Não tem nada de sagrado.
– Então quem é você para ficar em pé diante de mim?
– Não sei, majestade.
Novamente, o silêncio reinou no ambiente. O imperador, cada vez mais perplexo, procurava compreender tudo o que estava acontecendo. Finalmente, encheu-se de coragem e relatou ao Mestre o drama que o afligia:
– Eu só quero perguntar-lhe uma coisa: o que devo fazer para aquietar minha mente? Sou tão impaciente, tão perturbado, tão inquieto!
Bodhidharma respondeu:
– Volte às quatro horas da manhã e traga consigo sua mente. Eu a farei aquietar-se.
O imperador, atônito, não acreditava no que estava ouvindo. Mas mesmo assim agradeceu e se retirou. No momento em que estava saindo do templo onde se encontrava Bodhidharma, ouviu-o dizer:
– Lembre-se, traga a sua mente, senão a quem irei aquietar? E venha sozinho, sem guardas, sem ninguém a acompanhá-lo.
O imperador não conseguiu repousar por um segundo sequer. Pensava que não deveria ir, que aquele homem deveria ser meio louco e poderia agredi-lo. E, além disso, que história era essa de levar a mente? Claro que a mente dele estaria com ele!
Mas finalmente, depois de debater-se por longo tempo em dúvidas, Wu de Liang resolveu ir, porque Bodhidharma era realmente magnético. Havia em seus olhos algo que impressionava, um fogo que não pertencia a este mundo. E a primeira coisa que o Mestre lhe perguntou foi:
– Muito bem, você veio. E onde está a sua mente?
– Quando vim, minha mente veio comigo. Ela está dentro de mim, não é algo que eu carregue como um pacote!
– Pois então você pensa que sua mente está dentro de você... Agora sente-se, feche os olhos e tente descobrir onde ela está. Aponte-a para mim e eu a apaziguarei.
O imperador fechou os olhos e tentou encontrar sua mente. Bodhidharma estava sentado bem à sua frente. Ele tentava, tentava e as horas iam passando. Quando o dia começou a nascer, sua face estava silenciosa. Então ele abriu os olhos e Bodhidharma lhe perguntou:
– Conseguiu encontrá-la?
O imperador riu e disse:
– Você a serenou, porque quanto mais eu tentava encontrá-la, mais sentia que ela não existia. Ela era só a minha ausência. Quando me tornei presente, ela desapareceu!
Após esta entrevista tão satisfatória para o imperador, Bodhidharma retirou-se para um mosteiro em Wei, onde se diz que passou nove anos numa gruta contemplando uma parede. Muitas pessoas acorreram a ele. E quando lhe perguntavam por que olhava uma parede, ele respondia:
– Por toda a minha vida olhei para os homens, mas nunca vi nos olhos deles algo além de uma parede morta. Assim, decidi que é melhor olhar para a parede. A gente se sente mais à vontade quando sabe que está olhando uma parede.
Um dia, um homem veio procurá-lo. Era o monge Shen-Kuang, depois chamado Hui-K’o, que viria a ser o seu sucessor, ou seja, o Segundo Patriarca, e solicitou-lhe ser seu discípulo. No entanto, Bodhidharma se recusou a aceitá-lo. O monge não desistiu, mas sentou-se do lado de fora da gruta e aguardou durante meses, no relento e na neve, o atendimento do Mestre. Até que, um dia, acabou por cortar o braço esquerdo e apresentá-lo a Bodhidharma em sinal de sua sinceridade. Diante disso, este se sensibilizou e perguntou a Hui-K’o o que queria.
– Não tenho paz na minha mente – disse ele – Por favor, pacifica-a.
Conta-se então que o Mestre usou o mesmo recurso que usara com o imperador.
– Traga a sua mente aqui, à minha presença, e pacificá-la-ei.
– Mas quando busco a minha própria mente não consigo encontrá-la – respondeu-lhe Hui-k’o.
– Ah, sim? Pois então já consegui pacificá-la! – sentenciou Bodhidharma.
Nesse momento, Hui-k’o teve o seu acordar, o seu satori.
Esse método de instrução utilizado pelo iniciador do Zen-budismo, o wen-ta (pergunta-resposta), algumas vezes chamado de história Zen, tornou-se característico do Zen. A maior parte da literatura Zen consiste nessas historietas, muitas delas bastante mais enigmáticas que esta, cada uma das quais destina-se a provocar algum tipo de súbita compreensão na mente do leitor. Por esse motivo, elas não podem ser explicadas sem que se lhes estrague o efeito. Em alguns aspectos, são como as anedotas que não produzem o efeito humorístico almejado quando a frase-chave requer explicação. Ou se percebe a graça delas ou não se percebe.
Natureza do Zen
Uma criança olhando as flores que caem
com a boca aberta
é um Buda.
(Kubutsu)
Trabalho difícil, senão impossível, é definir o Zen. Ao que tudo indica, ele desafia todas as designações. Não se trata de religião, seita ou filosofia. Não há no Zen livros sagrados ou assertivas dogmáticas nem qualquer fórmula simbólica que dê acesso à sua significação. O Zen está livre de todos os entraves dogmáticos, religiosos e filosóficos. O Zen tampouco é meditação. Mas quando se afirma que o Zen não tem filosofia, que nega toda autoridade doutrinária e que põe de lado toda a literatura sagrada por considerá-la inútil, não se pode esquecer que, com essa negativa, ele está sustentando algo completamente positivo e eternamente afirmativo.
A idéia básica do Zen é permitir ao homem entrar em contato com seu ser da maneira mais direta possível. Nesse sentido, aproxima-se de uma técnica voltada à introspecção espiritual. Eis algumas frases que ilustram o espírito do Zen:
Observai a pá nas minhas mãos vazias.
Enquanto montado num touro vou andando a pé.
Quando passo sobre a ponte não é a água que corre, e sim a ponte.
Nada pode ser mais ilógico e contrário ao senso comum do que estas linhas. Ao lê-las, muitos poderão tachar o Zen de absurdo e confuso. O Zen, no entanto, nada tem de confuso ou absurdo. O que nele parece às vezes não fazer sentido são apenas estratégias para mostrar que a razão pela qual não podemos alcançar uma completa compreensão da verdade é a nossa irracional adesão a uma interpretação lógica das coisas. Se realmente quisermos atingir o âmago da vida, teremos que abandonar nossos silogismos e escapar à tirania do raciocínio dedutivo.
Admirável aquele
cuja vida é um contínuo
relâmpago!
(Matsuo Bashô)
Por mais que isto possa parecer paradoxal, o Zen insiste em que devemos manter a pá nas nossas mãos vazias e em que não é a água, mas sim a ponte, que flui sob nossos pés. Ao desvincular-se da tirania da lógica, o homem alcança uma maior emancipação de espírito, liberta-se de condicionamentos impostos durante toda a sua existência. O Zen mostra que temos que conquistar um novo ponto de vista que nos permita compreender a vida espiritualmente, ou seja, tendo sempre em vista que ela é regida pelo mistério.
Abrindo de par em par
as portas do palácio,
a Primavera.
(Matsuo Bashô)
Infelizmente, a lógica embebeu de tal modo a vida humana que a maior parte dos homens supõem que sem ela não existiria vida, ou, ainda, que ela é a própria sustentação da vida. As pessoas que se encontram dominadas pela lógica estão empunhando uma pá e não a estão empunhando, embora não estejam conscientes deste fato. Imaginam que suas vidas são lógica e matematicamente reguladas e não percebem que pensar assim é como concluir que dois e dois são três ou então cinco.
Uma velha sem dentes
que rejuvenesce:
cerejeira em flor.
(Matsuo Bashô)
O Zen ensina sem ensinar no sentido convencional. Não se trata de uma disciplina didática, com tom professoral. Ele pode ensinar através do silêncio, de uma não-resposta ou de um recurso totalmente imprevisível. Em síntese, na grande maioria das vezes ensina através de um choque, pois é através do choque que a mente pode ser aquietada. Quanto maior for a busca do discípulo, mais efeito o choque terá sobre ele. Quanto mais sincero e quanto mais vergonha for capaz de sentir, maior facilidade terá para assimilar e reconhecer ensinamentos ocultos. Mas, por outro lado, quanto maior sua resistência e preconceito, mais difícil será para ele assimilá-los.
Despertar vivo neste mundo,
que felicidade!
A chuva de inverno...
(Shôha)
O Zen é uma forma que os Mestres encontraram para interromper o fluxo dos pensamentos descontrolados dos iniciantes, fruto de uma insaciabilidade mental que os levava a fazer uma série de incessantes indagações. As respostas imprevisíveis, e muitas vezes até mesmo sem sentido por parte dos Mestres, os chocavam e os levavam a refletir sobre o estado em que se encontravam. Dessa forma, ao invés de se sujeitarem às provocações, impertinências e afrontas dos discípulos, os Mestres se utilizavam de recursos capazes de arranhar e até nocautear a arrogância dos mesmos, e conseguiam assim reverter o impasse inicial em favor da harmonia e do bem-estar de todos.
O homem e o touro na caminhada zen
A caminhada espiritual do discípulo é ilustrada pelo Zen através de uma antiga e célebre alegoria intitulada Apascentando o touro. É impossível penetrar os seus sentidos através de hipóteses ou pontos de vista lógicos. A iluminação não se subordina a nenhuma forma de pensamento e, sendo assim, jamais é alcançada através de deduções, cognição ou elaboração de conceitos. Só mesmo quando a mente se esvazia de toda espécie de abstrações é que o olhar pode ser livre, independente, espontâneo, natural e sereno, como o do homem que recebeu a luz da espiritualidade. A seguir, reproduzimos na íntegra uma versão dessa alegoria segundo a obra O Zen e a Oaska do Mestre Joaquim José de Andrade Neto. Os dez quadros distintos que a compõem representam as dez etapas do processo da Iniciação espiritual.
PROCURANDO O TOURO
Como viajeiro caminhante
em andrajos, sedento e faminto,
subo montanhas distantes,fugindo de labirintos.
Por trilhas e sendas errantes,
constantes privações enfrento
buscando um touro que pressinto
ser a causa de meu tormento.
O homem que até então vivia engolfado no mundo material manifesta os primeiros lampejos de consciência, os primeiros sinais de estar transcendendo a ilusão. Ele procura agora a resposta para o sentido de sua existência. Busca, incessantemente, conhecer a causa de todos os problemas. Sente-se exilado de sua casa, de seu próprio ser, e pressente que esse exílio provenha de um estado de dormência espiritual. O anseio de encontrar o touro – conhecendo a origem do mal – é o primeiro sinal de que um homem se encontra preparado para seguir no caminho da espiritualidade.

RASTREANDO O TOURO
Examinando o chão,
consultando os astros,
sob grande tensão
busco encontrá-lo nos rastros.
Serão essas suas pegadas?
Ou será mais uma decepção,
nova pista errada
nessa incansável jornada?
O rastreamento do touro representa o estágio que precede a Iniciação. Trata-se de uma etapa marcada pelas frustrações diante das falsas pegadas que acabaram por levar o buscador a falsos mestres ou a falsos meios de iluminação, como a ciência profana, a astrologia, as crenças, os dogmas, os ritos e as magias. Este é o momento em que tem início o processo de desilusão, que permitirá discernir entre o falso e o verdadeiro, entre a mentira e a verdade. Trata-se de uma etapa necessária e imprescindível, porque o homem só desfruta realmente dos benefícios da verdade quando já conheceu o sofrimento causado pela mentira.

ENCONTRANDO O TOURO
Um dia, porém, quando a alvorada
as trevas com sua luz rompia,
eis que um encontro tive
com o touro na pradaria.
De repente, indômito e feroz bufando,
o olhar selvagem a mim voltando,
permitiu-me, perplexo, reconhecer
nele meu rebelde e descontrolado ser.
No momento em que encontra o touro, o homem descobre seu próprio descontrole mental. Pela primeira vez compreende que a causa de todos os seus problemas é uma grande subversão que imperava em seu mundo interior: a mente, que deveria estar na condição de escrava, fazia, no entanto, papel de senhor e amo. E o espírito, cujo posto deve ser a vanguarda, angustiava-se, fora de lugar, na retaguarda. Nesse momento da mais alta importância, o discípulo consegue começar a dirigir sua atenção a si mesmo, ao seu eu verdadeiro, e deixa então de identificar-se com sua imagem, com aquilo que parece ser aos outros.

CAPTURANDO O TOURO
Como agarrar algo que nos oferece perigo?
Como nos aproximar do mais terrível inimigo?
Corcoveia ele, e escapar por todos os meios
tenta, procurando esquivar-se dos freios.
Mas de dominá-lo tamanha é a vontade
e tão grande de conhecê-lo a necessidade
que do medo me livro, e torno-me caçador
daquele de que devo ser amo e senhor.
A captura do touro simboliza o início de um dos mais importantes processos na vida de um homem: o da aquisição do domínio sobre a mente. Tornar-se amo do touro representa a decisão do discípulo de tornar-se um vigilante de sua mente. Essa decisão é tomada quando ele descobre que nela reside a causa de todo o seu sofrimento. A partir de então, começa a despertar, começa a compreender a supremacia do espírito sobre ela.

AMANSANDO O TOURO
Colocado no touro o laço forte
para que do caminho não se desvie
o destino favorece-me pela sorte
e um sol que meus passos guie
encontro afinal em direção ao norte.
Mas de meu domínio procura ele escapar!
Para grutas escuras fugir ameaça
e em abismos profundos quer se lançar!
O amansamento do touro corresponde ao processo de dominação da mente propriamente dito, e representa o perene desafio que o discípulo terá pela frente, as lutas que precisará travar consigo mesmo em seu cotidiano. É o marco da Iniciação espiritual, o sinal da presença da luz na vida do iniciado. Mas este, ao mesmo tempo em que se sente beneficiado pela descoberta, uma das mais importantes e úteis de sua vida, percebe que estar ciente dos perigos que a mente representa não é suficiente: é preciso mantê-la constantemente sob controle, pois somente assim será possível desmanchar os ardis que ela lhe arma no intuito de desviá-lo do caminho.

MONTADO NO TOURO, RETORNA PARA CASA
Finalmente, após uma longa trajetória
observando do touro a atuação
aprendendo com derrotas e vitórias
e domando-o como a um feroz leão,
monto-o afinal, ao som de doce melodia
que minha flauta produz na forma de canção.
E assim, atravessando a cercania,
volto para casa, conhecedor de sua direção.
O touro, que o discípulo procurava fora de si, está, na verdade, dentro dele. Tendo aprendido a dominá-lo, ou seja, tendo aprendido a controlar “a fera” interior através da melodia que emana da presença de espírito, o homem volta então para casa, agora já libertado do jugo da mente e das paixões mundanas. Livre e sereno, seu ser emite sons que têm, sobre seu estado mental, o efeito de um verdadeiro aboio. É através desses sons que o discípulo pacifica o touro, isto é, que ele serena a própria mente. O ato de “montar” a mente legitima a condição do espírito de amo e senhor. Somente quando o touro está devidamente domado é que o homem consegue montá-lo e voltar para casa. Assim também, a essência humana só é atingida – e a iluminação alcançada – quando a mente se encontra sob o comando do espírito.

TRANSCENDENDO O TOURO
E ao chegar em casa, suspiro aliviado.
Desfaço-me da corda, do chicote e do laço
e, sereno, sento-me, desfrutando, extasiado,
de um estado total de desembaraço.
Vai-se então o touro, como eu, sereno,
descoberto, reconhecido e domado,
e tendo cumprido seu trabalho pleno,
faz-me sentir agora bem-aventurado.
Nesta etapa, o touro deixa de ter importância, tal qual um barco utilizado para atravessar um rio deixa de nos ser útil ao atingirmos a outra margem. O iniciado agora experiencia o êxtase da unidade que lhe é inerente. Havendo transcendido a dualidade, sente-se como parte indestrutível da vida, e nem a morte o assusta. Os conceitos de bem e de mal foram ultrapassados, só existe a Luz. Nesse momento ocorre a solidão vital, pois é somente sozinho que o homem pode contemplar o próprio ser e ouvir a melodia que dele emana.

TRANSCENDENDO O TOURO
E O PRÓPRIO SER
Já não me lembro dos dias tormentosos
perambulando por atalhos tortuosos
buscando a causa de meus problemas.
Agora findaram-se todos os dilemas
tenho a mente já pacificada
e a minha conduta reeducada.
Nada peço ou desejo – sinto-me liberto
desfrutando da alegria de me manter desperto.
O vazio equivale à pureza. Não há manchas, só luz. A iluminação impera, a mediocridade desapareceu e o espírito está livre de limitações. Todo sofrimento foi ultrapassado e ele está em paz. Iluminado e atento, o discípulo segue pelo caminho reto e já nada busca, pois se sente plenamente satisfeito.

UNINDO-SE À FONTE
Sinto a Paz de me unir à Fonte,
a Luz e o Amor que provêm do horizonte.
Não há dentro ou fora, cá ou lá,
passado ou futuro, depois ou já.
Não há mal ou bem, sujeito ou objeto.
Sou uno com a vida, um ser completo.
O amor é uma ordem, inunda-me pleno,
e todo o meu ser repousa, absolutamente sereno.
Nesta etapa, o merecido repouso do iniciado vem coroar o cumprimento de todas as etapas anteriores.

RETORNANDO AO MUNDO PARA
ATENDER AOS HOMENS
Agora sinto-me pronto e preparado
para com açougueiros e bêbados conviver,
homens rudes, abrutalhados,
necessitando aprender a viver.
Cada um deles sonha com a bonança;
e a luz de Deus que através de mim emana
os faz vislumbrar as benesses do Nirvana
e eles se rendem à necessária mudança.
Por fim, o iniciado se torna um Mestre e está preparado para voltar ao mundo das tentações, agora com a missão de auxiliar os homens, de iluminá-los e estimulá-los a seguir os mesmos passos que ele próprio seguiu.
No início de minha caminhada
as árvores não passavam de árvores,
as montanhas não passavam de montanhas
e os homens eram meramente homens.
Ao tentar domar o touro, fui levado a crer
que as árvores não eram mais árvores
as montanhas não eram montanhas
e que os homens não eram mais homens.
Mas pacificada a mente, meu espírito iluminou-se
e compreendi a beleza e a grandeza
do fato de as árvores serem árvores
as montanhas serem montanhas
e os homens serem homens.
O iniciado, agora na condição de Mestre, rememora seu passado e se alegra com as transformações vividas: ele sabe ter passado da dormência a um estado de atenção graças à vitória de seu espírito sobre a mente.
Quando ainda inconsciente espiritualmente, desconhecia sua relação mágica com o universo e encarava sua própria condição humana, os outros homens e o meio circundante com absoluta indiferença. Mas depois, quando já começava a despertar, seus velhos conceitos foram sendo substituídos por novos, e houve um grande choque entre aquilo que ele achava que era e o que realmente é. Num terceiro momento, tendo o iniciado já alcançado a consciência espiritual e estando portanto preparado para compreender a relação entre o homem e a natureza, uma árvore é para ele uma árvore em sua plenitude, e sua existência se revela, a seus olhos, como uma graça concedida à espécie humana: a sombra que se abre ao viajante cansado, os frutos que aplacam sua sede e fome, as flores coloridas que embelezam a paisagem lhe inspiram admiração e respeito. Regar suas raízes, podar seus galhos e mantê-la sadia são formas de retribuir-lhe o amor silencioso que dela emana. Da mesma forma, uma montanha é, para o iniciado, uma montanha em sua plenitude, algo não menos digno de respeito e admiração do que uma árvore. Escalando-a em direção ao topo ele tem o campo de visão ampliado, e só esse fato já é suficiente para infundir-lhe profunda gratidão por sua existência. Finalmente, um homem é visto por ele como aquilo que é: um homem, e não um animal. Deve, pois, fazer jus a essa condição, diferenciada da de todos os outros seres da Terra pelo dom de alcançar a consciência, procurando honrá-la com dignidade a cada instante.
Bibliografia
Andrade Neto, Joaquim, J. O Zen e a Oaska,
Campinas, Sama Editora.
Bashô et alii. Haiku de las Estaciones. Selection de
A. Manzano e T. Takagi. Visión Livros. 1985.
Bashô, Matsuo. O Gosto solitário do Orvalho. Lisboa, Assírio e Alvim, 1986.
Hammitzsch, Horst. O Zen na arte da Cerimônia. Trad. A. Mutzenbecher. São Paulo, Pensamento, 1987.
Sendas de Ôku. Matsuo Bashô. Trad. Olga Savary. Roswitha Kempf Editores, 1986.
Susuki, Daisetz T. Introduction to Zen Budism. New York, Causeway Books, 1974.
Imagens
Pág. 173: Ilustração: monge Hakuin (1685-1768)
Gravuras da alegoria do Touro: Kaku-an