Sartre, o filósofo do nada
“Ó vós que perdestes toda a esperança! Entrai!” Mas no século XX, no momento mais crucial da história do pensamento, quando o materialismo filosófico tentava, de todas as formas, fazer capitular os valores espirituais do homem, e quando mais se fazia necessário o surgimento de um pensador brilhante e inovador capaz de reverter esse triste quadro, eis que, ao invés disso, surge, no cenário internacional, o incongruente e desconjuntado Jean-Paul Sartre, artífice mercenário de palavras e idéias, elucubrador e estimulador de vilezas humanas, ou ainda, como bem o definiu o crítico espanhol Joaquín Bochaca, o incomparável filósofo do nada. Semblante sério, olhar compenetrado por detrás de grossas lentes e um enorme cachimbo na boca ostensivamente contorcida para o lado: eis como ele, o filósofo do nada, se apresentou, desde sempre, ao público em geral. Mas essa espécie de protótipo caricaturesco do homem pensador só impressiona mesmo os mais desprevenidos e mal informados, pois não passa de uma imagem forjada exclusivamente no intuito de tapar uma lacuna essencial na obra do escritor: o nada-ter-de-importante-a-dizer. A mídia do sistema, empenhada em fazer apologias ao que há de pior na cultura do mundo inteiro, está sempre a lisonjear Sartre. Seguindo essa linha, o jornal O Estado de São Paulo costuma homenageá-lo de três em três meses.1 Em fevereiro de 2000, por exemplo, dedicou-lhe nada menos do que cinco páginas das quatorze que, em seu caderno Cultura, são destinadas a apresentar aqueles que são por eles considerados os maiores escritores e pensadores da História. Portanto, mais de um terço do caderno foi usado para enaltecer o trabalho de Sartre, tendo-se tentado, das mais variadas maneiras, compor a seu respeito uma imagem que em nada condiz com a realidade. Não há no texto nenhuma ilustração capaz de sustentar a tão recorrente opinião de que seu pensamento é “simplesmente brilhante”, mas constam no mesmo, em contrapartida, várias alusões à quantidade de suas produções, não se deixando de frisar que ele foi romancista, ensaísta, jornalista, etc, como se a diversidade literária pudesse garantir-lhe o talento e como se a tolice, por ser extensa, pudesse deixar de ser tolice... A certa altura lê-se, nessa reportagem, a seguinte declaração de Merleau-Ponty: “Sartre era uma verdadeira máquina de produzir idéias, produzia idéias como uma locomotiva produz fumaça!”. Admirável definição! Com ela, certamente, alcançamos a justa e correta conceituação das idéias de Sartre. Sim, suas idéias assemelham-se em tudo a fumaça de locomotiva, disso não há sombra de dúvida. Os eflúvios que emanam de sua mente, assim como a fumaça mais obscura, fétida e poluidora que já possa ter pairado sobre a face da Terra, sufocam as pessoas assim que as atingem, embaçando-lhes a visão, impedindo-as de refletir e entender o que se passa à sua volta. E, quando elas começam a suspeitar que estão sendo envenenadas, a mídia, empenhada sempre em confundir, entra em ação, encarregando-se de exaltar a malcheirosa fumaça, sugerindo tratar-se de algo raro e precioso e fazendo-a alvo dos mais descabidos louvores. Porém, apesar das tristes seqüelas de entorpecimento mental deixadas por esse intelectual de axilas, suas poluidoras irradiações um dia passarão. Passarão como tudo o que é efêmero e sem valor, porque, na verdade, não são senão fumaça, e porque tudo o que é ilusório e desprovido de valor está mesmo destinado a passar um dia. E uma vez dissolvida a espessa cortina de suas emanações, os que a haviam inalado experimentam então um grande alívio: voltam, enfim, a respirar livremente! Então, assim como tudo o que não possui consistência ou valor real, a obra de Sartre passará. Mas, enquanto não passa, roguemos aos céus por paciência, porque, decorridos já mais de cinqüenta anos desde as suas primeiras publicações, elas ainda cheiram mal e sufocam. Só mesmo a imprensa do sistema, que tem motivos de sobra para desejar manter falsos ídolos, é que se sente à vontade com tamanha pestilência. A cada semana, algum jornal do mundo incumbe-se de expor (ou melhor, de impor), de maneira destacada, alguma matéria sobre esse que é, sem dúvida, um dos maiores expoentes da pornografia intelectual de todos os tempos, não deixando de ilustrá-la com sua caricaturesca imagem e de recheá-la com os tão imerecidos louvores à sua obra. Indecência intelectual De uma obra de má qualidade espera-se, ao menos, que constitua o fruto, por pior que seja, de uma arrojada iniciativa por parte de seu autor no sentido de expor ao mundo aquilo que ele teve a audácia de produzir. Não é, porém, o caso dos escritos de Sartre. O fato é escassamente divulgado, mas, além de haver sido ele um inveterado imitador de estilos, há fortes indícios de que muito do que lhe é atribuído sequer seja de sua autoria. Há quem defenda, por exemplo, que O Ser e o Nada, sua obra mais conhecida, tenha sido composta com base nos manuscritos de Simone de Beauvoir que viriam a ser publicados mais tarde sob o título A Convidada, e que ele teria copiado várias idéias dela, ao invés do contrário, como tradicionalmente se afirma.2 “A realidade é”, esclarece Bochaca, crítico de Sartre, “que, assim como em suas opções políticas ele não passou de um oportunista que, sempre que lhe pareceu conveniente, fez abstração total de toda espécie de princípios éticos, em sua obra filosófica sua falta de decência intelectual atingiu uma dimensão tal que, para chegar a ela, terão sido necessários uns ímpetos de audácia merecedores de uma certa admiração. Com efeito, Sartre é, conceitualmente falando, um plagiário. Mais precisamente, é um plagiário na íntegra. Seu nome tem sido associado ao do Existencialismo como se este fosse uma genial descoberta sua. Mas a verdade é que o Existencialismo nada deve a Sartre, a não ser, quiçá, o seu descrédito.” 3 Além de plagiário, Sartre foi também mercenário, pois usou seus textos para comerciar com o que há de pior no ser humano. Dessa forma, além de sustento e fama, conseguiu ainda chamar a atenção dos esbirros da intelectualidade nanica, a qual proliferou notavelmente no final do século passado. E se os naturalistas franceses, precursores seus, chocaram a sociedade de sua época fazendo das misérias humanas o tema principal de suas obras, é preciso reconhecer que eles ao menos tinham em vista o objetivo de substituir a postura light do Romantismo literário (que insistia em assuntos amenos e frívolos e se omitia em tratar de problemas sociais) por uma linha mais voltada para o lado rude da vida. Em mãos de Sartre, entretanto, os mesmos ingredientes, por si só já tão repulsivos, adquirem contornos ainda mais degradantes, pois se prestam meramente ao propósito do lucro. E o pior é que ele realmente conseguiu enriquecer assim. Não seria de estranhar então que uma dessas redes de televisão cuja programação reconhecidamente tem como base essa mesma ideologia da exploração comercial das misérias humanas (e, na verdade, nenhuma delas se salva) decidisse qualquer dia condecorá- lo com o título de grande patrono da empresa. O Inexistencialismo de Sartre Embora tenha assumido ares de pai do Existencialismo e passado décadas alardeando e propagandeando uma corrente filosófica com esse nome que lhe abriu as portas do universo acadêmico e intelectual, Sartre é, na verdade, o inventor do Inexistencialismo, corrente que nega a legitimidade do direito de viver à altura da condição humana. Todo aquele que se dispuser a contemplar a vida sob o prisma inexistencial de Sartre terá que decair a ponto de rejeitar, de forma absoluta, os valores essenciais da existência. À semelhança de Freud, ele vê o homem como um ser sórdido e vil, promíscuo por natureza e sem qualquer perspectiva de reabilitação. Provavelmente tanto um como o outro tomou a si mesmo como referência... Assim, por detrás de um belo nome, capaz de atrair o interesse dos mais sensíveis, escondeu-se uma corrente de pensamento obscura, contrária ao bem. Maquiada com o verniz da erudição, ela levou muita gente desprevenida a cair em suas teias. A repercussão das obras de Sartre é uma prova disto. A obra A Náusea, segundo seu autor, tem por objetivo “ridicularizar o conceito de Humanismo”, e era justamente o trabalho que ele prezava mais. A seu respeito declarou: “Considero que, do ponto de vista propriamente literário, é o que fiz de melhor” 4. Seu personagem principal, Roquentin, sente-se permanentemente nauseado pelos homens e pelo mundo, motivo pelo qual opta por viver segregado de tudo. O clima da obra é tão pesado, pernicioso e deprimente que acaba provocando um asco atroz no leitor mais exigente e avisado. O ápice da perversão e da aberração foi atingido por Sartre com a peça teatral Huis Clos (Entre quatro paredes). Enaltecendo o rechaço do reconhecimento dos próprios erros, essa obra postula a idéia de que todas as dificuldades que um homem enfrenta resultam não de suas falhas, mas das alheias. Dificilmente se terá produzido no mundo texto menos ético que esse. No momento mais tenso da peça, um dos personagens, emocionado, proclama em alta voz aquilo que, supõe-se, seria uma grande revelação: O inferno são os outros! Com esse disparate, o pai do Inexistencialismo busca deitar por terra o princípio moral da responsabilidade sobre os próprios atos, e desconsidera ainda a lei de causa e efeito que governa o rumo de todos os acontecimentos. Se, tal como sugere Sartre, o mal sempre estivesse “nos outros”, por que então uma pessoa deveria esforçar-se para corrigir-se e melhorar? Além disso, se todas as dificuldades enfrentadas por um homem resultassem apenas de erros alheios, não tenderia ele a desprezar seu semelhante? Onde ficarão, no contexto de tais implícitos, as noções de amor e respeito? Pois os conflitos humanos, as atitudes de desamor e desrespeito derivam, justamente, da incapacidade que a maioria das pessoas têm para reconhecer que a origem de seus problemas reside nelas mesmas. Então, não é difícil perceber a periculosidade das idéias do famoso inexistencialista. Através delas, sorrateiramente, ele defende a perpetuação daquilo que no ser humano mais deveria ser combatido. E, sendo assim, não há exagero em dizer que todo aquele que nelas embarca sem examiná-las é um criminoso em potencial. Não é por acaso que os heróis de Huis Clos estão todos no inferno e se recusam terminantemente a reconhecer seus erros. Recorrendo nessa peça à aludida frase de efeito – que é na verdade um axioma – Sartre lançou ao ar uma espécie de feitiço verbal que lhe valeu a adesão de muitos. Afinal, quem é que não tem de quem se queixar? Não fosse por essa estratégia, é improvável que ele tivesse sido tão solicitado como conferencista no mundo todo. De certa forma, Huis Clos é uma obra autobiográfica, pois é possível estabelecer alguns pontos de comparação entre a trajetória de Garcin, um dos três personagens principais da peça, e a do próprio Sartre. Ambos estiveram na guerra e foram prisioneiros do exército inimigo. E ambos ansiaram encontrar, a qualquer preço, um meio de alcançar a liberdade. Com esse objetivo, Garcin submete-se aos desejos dos inimigos e trai seus companheiros; e Sartre prostitui-se para agradar um oficial alemão que nos tempos da guerra acaba livrando-o da prisão, sem maiores explicações, conforme relatado a seguir. A partir de então, o lambe-botas, marcado por esse indelével acontecimento que lhe terá custado o pouco que ainda pudesse ter de auto-estima, parece ter pretendido desforrar-se de sua auto-insatisfação lançando-se inexoravelmente a oferecer ao mundo obras de cunho desagregador. Huis Clos não é a única obra autobiográfica de Sartre: também Les Mouches (As Moscas) pode ser incluída nessa categoria. Ao retomar na peça o tema da tragédia grega Electra, o escritor interrompe cada momento de lucidez e arrependimento de Orestes, que é duplamente homicida5, com uma invasão de moscas repugnantes, das quais o personagem tenta livrar-se. Da mesma forma, os raros flashes de lucidez que no início da carreira Sartre possa ter tido sobre os crimes que já então perpetrava contra o discernimento humano devem ter sido “enxotados” por ele como moscas sujas até desaparecerem por completo. E a prova inequívoca de que ele efetivamente conseguiu aniquilar seus escrúpulos é que tenha chegado ao ponto de escrever, com ânsia esbaforida, de trinta a quarenta páginas por dia de material literário da pior espécie. Ao longo de sua carreira, Sartre granjeou inúmeras inimizades. Quase todos os que, em algum momento, o defenderam e o acompanharam em sua trajetória acabaram por afastar-se dele ao se darem conta de suas incongruências e da assombrosa falta de ética que ele por vezes demonstrava. Este foi, por exemplo, o caso de Jean Cau, que havia sido seu aluno, secretário e admirador. Há quem se apóie na famosa renúncia do escritor ao prêmio Nobel de literatura (ocorrida em 1964) a fim de defendê-lo de qualquer afirmação que ponha em dúvida a integridade de seu caráter. Mas nem aqui é possível redimi-lo, porque, embora bem poucos o saibam, ele não se fez de rogado no momento de aceitar o total em dinheiro que acompanhava o prêmio...6 Enigma Foram muitas as farsas filosóficas e ideológicas de Sartre e Simone, mas a maior delas, certamente, teve como cenário os cinqüenta anos de convivência do casal (se é que se pode considerá-los um casal), pois até hoje não ficou claro se Sartre é Simone ou se Simone é Sartre... Um primor de ambigüidade “A grande sorte de Sartre foi a guerra”, escreve Paul Johnson, outro crítico do escritor. “Ele foi destacado para o serviço meteorológico, bem longe do front. Feito prisioneiro, os alemães o desprezavam e agrediam por sua notória falta de higiene. Ele passava grande parte do tempo escrevendo o que viria a ser O Ser e o Nada”. Tendo conquistado (não se sabe como) a simpatia de alguns oficiais, conta Johnson que, em março de 1941, o escritor foi libertado, classificado como parcialmente cego. “De volta a Paris, conseguiu uma vaga de professor no famoso Lycée Condorcet. A maioria dos professores estava exilada, presa ou na resistência. (...) No final da guerra, Sartre estava famoso e o Existencialismo era a filosofia da moda.” 7 De fato, não fosse pela guerra, o mais provável é que Sartre jamais houvesse saído do anonimato. Antes da invasão, ele não passava de um professor a mais dentre tantos outros que nos colégios de Paris lecionavam, e a escassa repercussão que suas obras haviam tido até então estava longe de constituir indício de um futuro mais promissor. Mas nem mesmo se pode dizer que Sartre tenha abraçado a causa dos invasores. Na verdade, seu posicionamento frente à ocupação foi um primor de ambigüidade. A esse respeito, vale a pena, uma vez mais, dar a palavra a Bochaca: “Tolerado a princípio e a seguir admirado pela censura militar alemã, Sartre pavoneia-se pela ocupada Paris em companhia de oficiais da Propaganda Staffel. Comenta-se que o onipotente Tenente Coronel Heller, o dirigente máximo desse organismo, é um cordial amigo seu. Ao chegar a Libération, Sartre o negará veementemente, mas o documentadíssimo pesquisador Henry Coston revelará (...) que o drama sartriano As Moscas foi dedicado, muito carinhosamente, a Herr Heller. (...) Sartre participava da redação de panfletos clandestinos para a Resistência. Isto tem sido divulgado ad nauseam, enquanto que aquilo foi silenciado com zelosa discrição. E não parece juízo temerário supor que se a sorte das armas houvesse sido diferente, hoje em dia recordar-se-ia a amizade com Heller e silenciar-se-ia a redação dos panfletos resistencialistas.” 8 A carinhosa dedicatória a Hans Heller evidencia a total falta de escrúpulos de Sartre, que, durante toda a vida, notabilizou-se por “jogar dos dois lados”. Tanto moral como politicamente, ele foi mesmo uma verdadeira “gilete”. E o fato de ter sido lacaio de um oficial da SS nos tempos da Segunda Guerra não o impediu de apresentar-se como arauto do Comunismo internacional na década de 30, fomentando idéias que incitavam à revolta, à inveja e ao ódio, e deixando-se fotografar, com Simone de Beauvoir, ao lado de Fidel Castro, Tito, Masser e Mao, entre outros. Foi ainda solidário a grupos fundamentalistas de esquerda, como o Exército Vermelho, e não se vexou em fazer o papel de uma Madre Teresa visitando terroristas em penitenciárias 9. Os mais ingênuos, vendo-o posar de comunista ao lado de tais celebridades, poderiam pensar tratar-se de alguém sensível, idealista e preocupado com os oprimidos. Mas a verdade é que ele simplesmente se aproveitou do despotismo dos ditadores empossados pela CIA em alguns dos chamados países de terceiro mundo para alcançar notoriedade, fazendo-se passar por salvador da pátria e herói comunista. É de se supor que a notável estreiteza de espírito de Sartre não pudesse deixar de transparecer em sua obra. Bochaca o confirma: “É impossível ler Sartre sem experimentar um desassossego, um mal-estar e um certo enfado. Não se trata, porém, do desassossego ou do mal-estar gerados pela confissão de alguns desvios diante de uma consciência culpada, mas sim pelo desavergonhado exibicionismo de um espírito tortuoso e de um cinismo sem par. Sartre degrada, denigre e suja tudo o que durante cinqüenta séculos foi considerado nobre e elevado e celebra tudo o que tem sido desprezado como vil, ruim e doentio. Numa época sã, na qual não prevalecesse a transmutação de todos os valores morais tal como na atual se dá, Sartre não seria visto como um filósofo, senão, no melhor dos casos, como um insano.” 10 A crítica é contundente, mas Bochaca ainda tem munição. “O pseudo-Papa do Existencialismo, contudo, merece ser conhecido”, avança o crítico, “não pela agudeza de suas idéias ou pela clareza de suas exposições, e menos ainda pela nobreza de metas ou pelo senhorio de sua atuação pública, mas por constituir o mais claro exemplo de perversão intelectual de nossos tempos.” 11
Jean-Paul Sartre
Jean-Paul Sartre é o responsável e o beneficiário da mais sinistra impostura literária deste pós-guerra de sapos histéricos. Uma vez esgotada a fonte do sangue, abriu-se a refinaria das fezes. Sartre é um dos zeladores da latrina pública da república literária. Um dos mais afortunados. O que recebe mais propinas dos coprófagos dilettanti 13 de seu país e de outros países. Entre esses países não podia faltar a Itália. Os italianos, desde o século XVIII, têm se convertido (competindo nisto com os bósnios) nos provincianos da Europa, que ingerem qualquer mistura sempre que provenha daquela que os romanos chamaram justamente de Lutécia 14, cidade da lama. Alguém os rebatizou “boquiabertas”, e suas bocas, certamente, estão sempre abertas, seja para receber os eflúvios e os alimentos putrefatos que vêm da França, seja para arrotar as fétidas emanações de seu servil entusiasmo. O autor de La Putain Respectueuse 15 escreveu sem querer, neste título, a definição mais indulgente da Itália literária. Sartre era, antes da guerra, um obscuro professor de filosofia, travaillé 16, como dizem na sua língua, pela ambição e pela libido. É fácil encontrar, na França, exemplares de uma espécie de homens que são ao mesmo tempo completamente cerebrais e completamente carnais. Basta recordar o velho Diderot, que se afundava com igual paixão na vagina e na razão. Seres que o desenho de um Rops ou um Odilon Redon poderia simbolizar mediante um cérebro flanqueado por dois testículos, a modo de asas. Seres que descansam dos coucheages 17 com a orgia dos conceitos abstratos, que estão sempre à caça de perversões sexuais e de perversões intelectuais, e que alternam o culto de Descartes com o do Marquês de Sade. O professor Sartre, que ensinava filosofia num colégio de Paris, pertencia também a essa tão conhecida raça. Antes da invasão alemã ele ruminava sua vida medíocre dando lições sobre Kant e envolvendo-se em amoricos clandestinos. A literatura da Resistência lançou Sartre sobre a crista espumosa da contramaré. Havia publicado já uma coleção de contos, Le Mur, que não teve então grande repercussão. Mas ele, iluminado pela auréola de um imaginário heroísmo, lançou-se à conquista dos gêneros literários mais produtivos: a novela e o teatro. E surgiram assim L'Age de la Raison 18 e Le Sursis 19, após ele já haver escrito e encenado Les Mouches e Huis Clos. Mas Sartre compreendeu a tempo que para subir ao topo não bastava a literatura, ainda que estivesse adornada de perversas obscenidades: era necessário um pensamento e um partido. Um pensamento para atrair os snobs, e um partido para agradar as multidões. E rapidamente atou à sua cintura, a modo de salva-vidas, o Existencialismo e o Comunismo, os mitos da moda para uso de povos vencidos. Muitos ignorantes, na França e fora dela, vêem em Sartre o chefe, se não já o fundador do Existencialismo. Na realidade, o Existencialismo tem sua origem no pensamento de dois homens profundamente enamorados de Cristo, embora com trêmula inquietação: Kierkegaard e Dostoievsky. E na própria França, muito antes da guerra, havia-se afiançado por obra de Gabriel Marcel um existencialismo cristão. Mas Sartre, desejoso de apostar também na carta comunista, propôs-se a separar, com a ajuda dos existencialistas alemães, o Existencialismo da fé, e quis demonstrar que aquele era, em sua essência, puro e cru ateísmo; esse é o extrato de sua famosa palestra L'Existencialisme est un Humanisme. Porém, não advertia o professor acrobata que, subtraindo ao Existencialismo sua premissa religiosa, corria-se o risco de esvaziar de todo sentido possível os seus princípios fundamentais. A angústia nasce da idéia de pecado, e a idéia de responsabilidade da idéia de uma lei e de uma finalidade, e não se pode viver tais conceitos sem a confiança em Deus. Não se pode lançar a âncora quando os cabos, cortados, bamboleiam-se fora da nave. Semelhante descoberta, que não era sua, permitia a Sartre aderir ao Comunismo. Tal adesão, mais ou menos sincera, não era realmente uma novidade na moderna literatura francesa. Os mais conhecidos escritores dos nossos tempos – Anatole France, André Gide, André Malraux – já haviam sido atraídos, por amor ao contraste ou por instinto destrutivo, pela ideologia comunista. Mesmo neste ponto, Sartre não é mais que um tardio epígono. Mas era bem difícil para esses sensualíssimos dilettanti aceitar o duro e linear dogma do materialismo histórico e do materialismo dialético. Gide e Malraux saíram do Comunismo; Jean-Paul Sartre é suspeito aos comunistas franceses que vêem nele um saltimbanco filosofista e pruriginoso para uso de burgueses masoquistas. Todo o esterco de que Sartre se serve para suas manipulações filosóficas e literárias é, por outro lado, de procedência estrangeira e sobretudo alemã. Existem nele ressaibos de Kant, plágios de Heidegger, reflexos de Stirner e de Marx, influências de Kraft-Ebing e de Freud. O pretenso profeta francês, que deve sua vitória à derrota de sua pátria, é, ainda, súcubo do pensamento dos invasores. Os que foram amos de seu país são agora amos de seu espírito, se é que se pode falar em espírito a propósito deste animal escrevente e vociferante. Mas um pensador espúrio e escravo pode salvar-se por meio da arte. Nem mesmo a esta salvação tem direito o professor Jean-Paul Sartre. Suas novelas não são senão um retorno à mais baixa tradição do Naturalismo francês de 1890: certos escritores das Noites de Médan, discípulos de Zola, precederam-no na fabricação de novelas realistas copiosamente apimentadas de cochonneries 20. As novelas pornográficas, na França, são um ressaibo de tempos muito longínquos: baste recordar Les Bijoux Indiscrets 21, de Diderot, Justine, do Marquês de Sade e Le Paysan Perverti 22, de Rétif de la Bretonne. O sensualismo anglo-saxão de um Joyce ou de um Lawrence é, em comparação, indizivelmente mais sadio. Sartre, no entanto, retomou preguiçosamente o estilo e o tema dos porcos naturalistas das últimas décadas do século XIX francês, adicionando-lhes algum elemento que tomou emprestado do sodomítico Proust, mais alguma coisa do argot 23 parisiense e algum truque técnico roubado aos novelistas norte-americanos de sua época. Seu livro A Idade da Razão, por exemplo, não é senão a história de um professor em busca de dinheiro para pagar o aborto voluntário de sua amante grávida, entremeada com as aventuras de um amigo pederasta (que acaba por desposar a amante grávida do professor) e com as façanhas de um jovem gigolô russo que vive às custas de uma cantora de café concerto, muito madura e muito ciumenta. Observem, aqueles que apreciarem as bufonarias das antíteses, que A Idade da Razão é a primeira parte de uma trilogia que se intitula Os Caminhos da Liberdade. Tais caminhos, ao que parece, são o infanticídio, o furto, o rufianismo e a sodomia, com alguma veleidade falida de vanguardismo verbal. E se, ao menos, houvesse nestas sujas novelas, em que todos os personagens são velhacos flácidos e abúlicos, algum resplendor de beleza e profundidade...24 Mas não, o estilo se assemelha terrivelmente ao de um Céard ou Bonnetain 25, discípulos de Zola, com algumas gotas de Huysmans e algumas cabriolas ao modo ianque. A análise dos protagonistas é prolixa e ao mesmo tempo superficial e sumária. Os ambientes são descritos como os descreveria um repórter corrompido por ambições literárias. Restam apenas as peças de teatro, e nem mesmo aqui podemos encontrar nada fora do comum, nada capaz de justificar a aceitação do professor Sartre. Em As Moscas ele retomou um dos temas mais famosos da tragédia antiga: a vingança de Orestes e de Electra contra os assassinos do pai. Gide, em Édipo, e Giraudoux, em Electra, haviam feito o mesmo, mas com maior fineza e mais sábia originalidade. Sartre tentou renovar o tema fazendo surgir em cena um Júpiter filósofo, cético e sádico, e confiando às moscas o ofício de Erínias. Mas o nó da tragédia dos Atridas continua sendo o mesmo: Orestes quer matar e mata sua mãe e o amante homicida e usurpador, e por tomar tal vingança é perseguido pelas Fúrias. Os paradoxos burlões e os aforismos despreocupados de algumas personagens não bastam para dar um novo e mais profundo significado ao antigo episódio sanguinário de Argos. Júpiter é uma caricatura do Deus cristão, mas a tragédia de Sartre não passa nunca de uma restauração satírica, e desce às vezes ao nível de uma farsa com pretensões filosóficas. Bastante superior se mostra, por sua altura e dignidade de concepção, outra restauração francesa de tragédias gregas: a Antígona de Anouilh. A obra-prima teatral de Sartre é, segundo seus mais perigosos amigos, Huis Clos. Um escritor italiano que traduziu esse processo verbal de desabafos diabólicos ousou mencionar Dante e A Divina Comédia. Também Sartre, com efeito, tratou do problema da vida dos mortos no inferno. Seu inferno é um quarto de pousada, fechado, mobiliado no odioso estilo Segundo Império, e contém somente três personagens: um traidor velhaco, uma infanticida e uma lésbica. Este inferno sujamente medíocre não tem senão uma tortura: as almas dos mortos não mudam, eles são condenados a permanecer como foram, a examinar e remastigar eternamente suas vergonhas e culpas. A idéia não era totalmente idiota, mas Sartre, que apesar de seu Existencialismo possui uma alma pequena e conhece muito de longe os abismos da vida, conseguiu deitá-la a perder. O breve drama é um jogo esquemático e neurótico de confissões reticentes, de agressões convulsas, de ejaculações verbais e verbosas. Os três heróis desta contenda mais conceitual que emotiva não têm em comum senão infâmia e ódio. Mais que verdadeiros condenados, são marionetes pensantes e vociferantes. Sartre, que já havia envilecido os vivos, quis envilecer também os mortos. Havia tido uma idéia não desprovida de grandeza: a condenação dos mortos consiste na impossibilidade de morrer; os mortos são castigados pela continuação de uma vida que não pode ser esquecida nem redimida. Mas a arte de Sartre revelou-se muito inferior à tarefa que ele se propôs. Da leitura de Huis Clos sai-se antes enfastiado que iluminado. Não é mister gastar palavras com a última ricotta teatral de Sartre, La Putain Respectueuse, uma agridoce comedieta de propaganda antiburguesa destinada a comentar a astuta e cruel hipocrisia dos ricos luxuriosos disfarçados de puritanos patrióticos. Tais são, até hoje, a figura e a obra de Sartre, o rouco intérprete da dupla loucura que borbota nas meninges de nosso tempo. Eis aqui esse Sartre que os badauds 26 de nossa literatura têm acolhido como um profeta do novo pensamento e da nova arte deste pós-guerra de negros tornados brancos pelo terror. Esse Sartre que alguns ousam comparar com Baudelaire e com Flaubert, que certos zeladores dos hipogeus herméticos esforçam-se por colocar em suas fúnebres vitrines críticas. Merecemos realmente, embora vencidos e pisoteados 27, tomar o exemplo e lição deste intoxicado bastardo de uma derrota? Um exegeta francês de Sartre, o senhor Pierre Boutang, depois de ter negado a opinião de muitos de que “Jean-Paul Sartre est le diable en personne” 28, sustenta que há, no entanto, uma relação entre o Demônio e Sartre, uma relação de possessão: “Jean-Paul Sartre est un possedé!” 29 Não acompanharemos o senhor Boutang em seus laboriosos desvarios, mas podemos tranqüilizá-lo. Sartre não é um possuído, e muito menos um possuído do demônio. Satanás é infinitamente mais inteligente que seus historiadores, que dele conhecem, no máximo, aquilo que se abre e fede debaixo de seu rabo. Ele nunca sonhou servir-se desse professorzinho que recolheu pedaços de esterco seco em todos os muladares da cultura européia, preparou pílulas com eles e as empurra incansavelmente, como um besouro estercorário da literatura, para oferecê-las de alimento às larvas nativas e forasteiras. Sartre não é um espírito satânico (por horrível que ele seja, falta-lhe todo resplendor de grandeza), senão apenas o medíocre antologista dos subprodutos da putrefação européia do século passado 30. Não é sequer um comparsa da noite de Walpurgis, senão simplesmente um grande inseto sujo saído dos velhos divãs daquele café da rive gauche 31 chamado, profeticamente, de Les Deux Magots. 32 Domingo de sol em Araraquara 33 Na cidade paulista de Araraquara, há pouco mais de quarenta anos, assistiu-se a uma cena ao mesmo tempo insólita e hilária como poucas: ao retornar às ruas após proferir sua histórica palestra num campus universitário local, Jean-Paul Sartre deparou-se com grande multidão que, em altos brados, agitava bandeiras a título de aclamação. Ao declarar-se o filósofo impressionado com tão calorosa acolhida, foi preciso retificar-lhe a fala: as causas do tumulto não residiam, propriamente, em terreno existencialista... Uma das mais pitorescas viagens de Sartre e Simone de Beauvoir ao exterior e, com certeza, a mais surreal de todas, foi aquela que teve como destino a cidade de Araraquara. Naquele domingo ensolarado, 4 de setembro de 1960, essa cidade do interior paulista acordou em festa para receber duas grandes atrações: o escritor Jean-Paul Sartre, que falaria aos estudantes pela manhã, e Pelé, presente na disputa do clássico Santos versus Ferroviária, a ocorrer durante a tarde. Muita gente deslocou-se de São Paulo e cidades vizinhas a Araraquara para prestigiar os dois acontecimentos. Com o calor aumentando e o tempo suando os relógios, muitos chegaram a duvidar da presença de Sartre na cidade. Notícias desencontradas afirmavam que ele havia cancelado a viagem e outras sugeriam apenas um atraso, motivado por sua obsessão em consultar alguns livros para responder adequadamente à questão formulada pelo professor Fausto Castilho: “como conciliar filosofia e ideologia, Existencialismo e Marxismo”. Passava do meio-dia e nada acontecia, a não ser a ansiedade crescente. Pouco depois do almoço tudo esclareceu-se. O filósofo chegaria às 15 horas e falaria às duas platéias: estudantes e camponeses. Vestindo um terno de risca-de-giz e acendendo continuadamente sua cigarrilha cubana, Sartre desceu de uma Kombi, esbaforido, acompanhado pelo cicerone Jorge Amado e por Simone de Beauvoir, que trajava blusa branca, saia barrada de listas e seu indefectível turbante na cabeça. Poucos minutos depois das 15 horas Sartre adentrou o Teatro Municipal e iniciaram-se as apresentações. Uma jovem, em esforçado francês, incumbiu-se da saudação dos estudantes, solicitando ao escritor que falasse de problemas concretos. Ele não se fez esperar: deitou falação sobre Cuba, onde estivera antes de chegar ao Brasil, falou dos problemas do colonialismo e da situação da Guerra da Argélia e depois interrogou o auditório sobre a condição dos camponeses. Um grupo de líderes rurais de Santa Fé do Sul apresentou suas reivindicações e as discussões sobre reforma agrária foram esquentando no auditório. No Estádio Municipal, próximo dali, rojões anunciavam a progressão da partida futebolística: 1 a 1. Os ânimos exaltavam-se. Um estudante sugeriu que os camponeses seguissem o exemplo das Ligas Camponesas do Nordeste e pediu um voto de protesto contra o governo do Estado. Sartre retrucou que não poderia fazê-lo, porque não conhecia o governo do Estado. O bate-boca continuou e o assunto desviou-se para a situação dos estudantes e a conjuntura política francesa. Mais falação, quando alguém interroga Simone sobre o ser mulher. Ela não se fez de rogada: respondeu. Novos rojões anunciam o fim do primeiro tempo e o preocupante escore de 2 a 1. A reunião encerrou-se e Sartre continuava a perguntar: quem era o governo do Estado? Nos salões da Faculdade de Filosofia a platéia exibia algumas personalidades de destaque: Antônio Cândido, Fernando Henrique Cardoso, José Celso Martinez Corrêa, Fausto Castilho, Ruth Cardoso, entre outros. A conferência girou basicamente sobre dois temas: Filosofia e ideologia, onde Sartre abordou as relações entre Marx e o racionalismo cartesiano e seu desdobramento kantiano, apontando para a superação filosófica antevista no futuro; e os fundamentos de uma antropologia estrutural e histórica, a partir dos fundamentos da dialética social. No auditório, a pseudo-intelectualidade tupiniquim bebia deslumbrada e embevecida as tonterías proferidas pelo sapo francês. Neste momento, o Ferroviária fez mais um gol. Muitos comentavam que a conferência de Araraquara expunha um Sartre muito mais político do que aquele visto em São Paulo, onde falou sobre estética e problemas existenciais. Ao ser indagado sobre Nietzsche, Sartre respondeu: é muito mais um poeta do que um filósofo. Terminada a palestra, ele saiu às ruas e ficou encantado com a multidão espalhada nas praças, que fazia saudações com bandeiras, rojões e muita cerveja. Chegou até a comentar que não suspeitava ser o interior do Estado de São Paulo tão sensível à Filosofia, especialmente em tardes de intenso calor. Foi então que alguém, não sem constrangimento, reuniu coragem para informá-lo de que o Ferroviária havia vencido o Santos por 4 a 2, razão pela qual Pelé estava amargando uma profunda angústia existencial. Notas 1. Quiçá essa insistência do jornal O Estado de São Paulo em homenagear Sartre possa ser atribuída ao fato de que, por ocasião de sua folclórica viagem ao interior paulista, ele tenha se hospedado numa fazenda dos Mesquita, proprietários do referido veículo de comunicação. E não deixa de causar estranheza o fato de que estes, tendo por hábito difundir a imagem de que são bons tradicionalistas, amigos da moral e etc, tenham aceitado hospedar em sua casa alguém com tão extenso e notável currículo na área da pornografia.
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