Marx - o ideólogo do crime

 

 

Hum!... Que delícia! Ninguém poderá dizer
que eu não me ocupo com as massas


Os crimes cometidos pelos regimes comunistas no mundo todo, que em setenta anos atingiram cem milhões de pessoas, têm por detrás um incontestável inspirador: Moses Mordechai Marx Levi, mais conhecido como Karl Marx. No entanto, interesses escusos procuram desvincular a sua figura dos acontecimentos históricos que sua doutrina ensejou, como se estes não passassem de deturpações de suas idéias. Assim, procura-se  perpetuar uma imagem romântica a seu respeito, de benfeitor e idealizador da sociedade humana, como se em suas teses ele não procurasse legitimar a violência. Marx não só a legitima como também a estimula, incentivando o terrorismo e o assassinato, procurando convencer a todos de que os fins justificam os meios. Adepto incondicional da equivocada teoria darwinista de que o homem seja um animal, ele deprecia os valores morais e espirituais do ser humano, alegando que a criminalidade estimula o progresso e a economia. Além disso, aquele que é considerado o maior defensor do trabalhador tinha uma verdadeira ojeriza pelo trabalho, tendo passado uma existência toda fugindo dele. Marido de uma baronesa, dilapidou as heranças que recebeu em especulações financeiras e no vício do alcoolismo, tendo tomado emprestado de seu amigo Engels, durante vinte e cinco anos, uma quantia vultosa de dinheiro que nunca foi reembolsada. Levava, assim, uma vida de intelectual boêmio, recusando-se a ir muito além de sua escrivaninha. Portanto, o homem que pretendeu ensinar ao mundo um novo modelo econômico não demonstrou, durante toda a sua existência, capacidade para administrar nem mesmo sua própria situação financeira. E apesar de sua célebre apologia ao proletariado, Marx, na verdade, nunca teve qualquer contato com ele, salvo com sua criada Lenchen, que foi sua amante durante vários anos e com quem teve um filho, Freddy, que não chegou a ser reconhecido por seu pai.

As origens

Numa madrugada tempestuosa do ano de 1785, um cavaleiro solitário cavalga a toda brida por uma estrada da Baviera. Sucede então que a mão do destino encarrega-se de fulminá-lo com um raio. Após o trágico acidente, ao amanhecer, camponeses da região se deparam com o misterioso personagem morto junto a seu cavalo. A seu lado, uma valise de couro guardando documentos que influenciariam e decidiriam o destino de milhões de pessoas é encontrada e levada, juntamente com o corpo do cavaleiro, até o posto policial  local, onde se constata serem os papéis estatutos e documentos diretivos de uma até então desconhecida sociedade denominada Ordem Secreta dos Iluminados da Baviera, cujo mentor era Adam Weishaupt. O cavaleiro que jazia inerte aos pés do chefe de polícia era seu mensageiro.1

Os documentos são chocantes por revelarem uma intrincada rede de conexões clandestinas entre personagens destacados na cena cultural e política européia bem como pela estratégia violenta que preconizam para a consecução do principal objetivo da ordem: a derrocada do poder instituído, corrompido em seu âmago mais profundo. A violência do conteúdo dos documentos de Weishaupt é provocada pelo despotismo e  concupiscência tanto da parte da Igreja como das monarquias da época. Mesmo seus métodos clandestinos são extraídos do cerne violento das instituições dominantes. A Inquisição já havia se utilizado do anonimato de seus espias para espalhar invisivelmente o terror; e a famosa Ordem dos jesuítas detinha os segredos de Estado das cortes européias e da Igreja, atuando politicamente, através de ramificações ocultas, nos bastidores dos jogos de poder.

Weishaupt, ex-jesuíta, retivera os princípios de organização e atuação de sua antiga Ordem para voltá-los agora contra o próprio poder no qual ela se enraizava. O regime instaurado pela ação dos Iluminados da Baviera só poderia assemelhar-se ao adversário que ela combatia. A seita dá origem às sociedades secretas cujas atividades culminarão no deprimente espetáculo conhecido como Revolução Francesa. O Ancient Régime cai em meio à crescente selvageria; a radicalização revolucionária manda sucessivamente à guilhotina os que na véspera eram os mandatários do terror. A cada ato violento a violência recrudesce ao invés de arrefecer. A decapitação de monsieur Guillotin é o símbolo máximo da autodestrutividade da violência, mas também de sua autoperpetuação.

As injustiças do novo modelo econômico e político capitalista, implantado após a Revolução Francesa, em breve suscitam a oposição das classes populares. A partir da metade do século dezenove, os comunistas “científicos”, seguidores da doutrina revolucionária de Marx, arrogam-se o direito de tutelar o proletariado, usando-o como cobaia das teorias marxistas. Organizam-se em sociedades paramilitares clandestinas que visam a tomada do poder pela força das armas. Infiltram-se secretamente nos sindicatos, nos partidos operários e nos movimentos populares, aliciando seus líderes e instilando na massa o veneno da sedição. Manipulam-na despertando nela o ressentimento e a revolta, visando liberar sua força explosiva, que pretendem utilizar para seus objetivos.

Os estatutos destas organizações adotam a terminologia do Manifesto Comunista de Marx e Engels, como também seu modelo de análise histórica. Mas as táticas de ação que propõem denunciam outra origem: é o conteúdo da valise de couro de Weishaupt. Pouco antes da redação do Manifesto, Marx havia ingressado na Liga dos Justos, que posteriormente veio a se chamar Liga dos Comunistas. Ora, a Liga dos Justos não é senão um dos muitos braços da Ordem Secreta dos Iluminados da Baviera.

Marx torna-se então o herdeiro moderno da ideologia que aponta a violência como meio de por fim à violência, e o crime como possibilidade de redenção da humanidade. Este elemento pernicioso de sua doutrina tem sido insuficientemente discutido, mesmo pelos críticos do pensador. Os assombrosos crimes cometidos pelo regime comunista soviético convidam a uma postura diferente. Faz-se tempo de estabelecer claramente a relação direta entre os fatos históricos e a doutrina marxista, e de considerá-la sob o ponto de vista de sua periculosidade.

A apologia do crime   

Um número tem pesado sobre as consciências de todo o mundo civilizado. Esse número é cem milhões, e refere-se à quantidade de seres humanos aniquilados pelos regimes comunistas no mundo todo desde a revolução russa.2 É triste recordarmos que todas estas pessoas foram imoladas em nome das falsas promessas de uma “sociedade justa e fraterna”, cujo cumprimento era interminavelmente adiado por novas promessas: o que Marx não fez, Lenin fará; o que Lenin não fez, Stalin fará; o que Stalin não fez, Kruschev fará; e depois vieram Brejniev e Andropov e... quem se lembra?

Esta chocante disparidade entre meios e fins é apenas o resultado mais tragicamente visível da conhecida máxima leninista que define a boa ação moral como tudo aquilo que leva o partido comunista ao poder. Neste “tudo” estão incluídas, evidentemente, também a violência e a ação criminosa.

É comum ouvirmos dizer que Marx nada tem a ver com os crimes soviéticos e dos outros regimes comunistas, os quais resultariam tão somente de uma má aplicação de suas teorias. Esta é a opinião dos que têm um conhecimento bastante limitado e superficial dos textos de Marx ou o conhecem apenas por ouvir dizer (noventa por cento dos marxistas). Lenin não era um desses. Conhecia bastante bem Marx e, como se sabe, não era capaz de dar um passo sem pedir-lhe a bênção. E é no volume inacabado de O Capital, no capítulo denominado Teoria da Mais Valia, que ele provavelmente encontrou a página mais apta a fornecer sustentação teórica para sua estranha idéia de moralidade. Ei-la:

“O criminoso produz crimes. Se olharmos mais de perto as relações que existem entre este ramo de produção e a sociedade no seu conjunto, ultrapassaremos muitos preconceitos. O criminoso não cria crimes: o que ele cria é o direito penal. (...) Mais: o criminoso cria todo o aparelho policial e judiciário – polícias, juízes, carrascos, jurados, etc. – e estas diferentes profissões, que constituem igual número de categorias da divisão social do trabalho, desenvolvem diferentes faculdades do espírito humano e criam ao mesmo tempo novas necessidades e novos meios de as satisfazer. (...)

O criminoso cria uma sensação que participa da moral e do trágico, e ao fazê-lo oferece um “serviço”, mobilizando os sentimentos morais  e estéticos do público. Não cria apenas tratados de direito penal: cria igualmente arte, literatura, ou seja, tragédias, sendo disto testemunhas não só La Faute, de Müllner, e Les Brigands, de Schiller, mas também Édipo e Ricardo II. O criminoso quebra a monotonia e a segurança quotidiana da vida burguesa, pondo-a assim ao abrigo da estagnação e suscitando a interminável tensão e agitação sem a qual o estímulo da própria concorrência enfraqueceria. Estimula assim as forças produtivas. (...)

Descobrindo incessantemente novos meios de se dirigir contra a propriedade, o crime faz  nascer incessantemente novos meios para a defender, de modo que o criminoso dá à mecanização um impulso tão produtivo como aquele que resulta das greves. Para lá do domínio do crime privado, teria o mercado mundial nascido se não houvesse crimes nacionais? E as próprias nações? E depois de Adão, não corresponderia a árvore do pecado simultaneamente à árvore da ciência?”

 

Mais do que a suposta utilidade do crime, estas linhas demonstram o poder que uma argumentação habilmente construída possui para vestir as idéias mais torpes com uma aparência de normalidade e logicidade. Demonstram também o notável talento que Marx tinha para isso, o que pode parcialmente explicar a radicalização fanática dos grupos clandestinos marxistas. Os que se inclinam a duvidar que Marx tenha defendido a sério esta tese cínica precisam apenas, para se desiludirem, compará-la com o texto do Manifesto do Partido Comunista, no qual Marx por três vezes afirma que a tomada do poder pelo proletariado terá de ser violenta3, ou ainda, com o teor de um trecho de um discurso por ele dirigido aos cartistas ingleses em 1856, no qual menciona a existência de um tribunal secreto na Alemanha medieval cujo objetivo era …

“…vingar as iniqüidades das classes dominantes. Quando se via uma cruz vermelha assinalando uma casa, todos sabiam que seu dono havia sido condenado pelo tribunal. Todas as casas da Europa estão agora marcadas com a misteriosa cruz vermelha. A História é o juiz. Seu verdugo é o proletariado.”4

Retórica semelhante foi também usada em um discurso proferido por Marx na Liga dos Comunistas em abril de 1850: 

 “…longe de nos opor aos chamados excessos, à vingança do povo dirigida a indivíduos odiados e a ataques populares a edifícios associados a lembranças odientas, devemos não apenas tolerar tais coisas como também assumir a iniciativa delas.”5

 Comentando este trecho, o historiador Edmund Wilson afirma que “é uma deformação minimizar o elemento sádico dos escritos de Marx”. Na verdade, uma semelhante fixação no elemento violento se mostra também na sua própria produção teórica. Conhece-se, por exemplo, o papel desempenhado pela violência na concepção marxista da História. “A história das sociedades até agora tem sido a história da luta de classes”6, diz o Manifesto do Partido Comunista. Aos olhos do filósofo, o desenvolvimento da civilização aparece apenas como uma seqüência ininterrupta de roubos, rapinagens, espoliações, latrocínios e dominações.

Decerto que violência e dominação fizeram parte da história humana, mas transformá-las em único fundamento de uma interpretação da História revela uma tendência patológica do pensamento de Marx, a tendência à depreciação do valor moral e espiritual do ser humano. A arte, a ciência, a filosofia, a religião, a moral e todas as formas culturais nas quais o homem projeta seus ideais são para Marx apenas o reflexo distorcido e ilusório da única realidade que ele reconhece: o modo de produção econômico e a luta de classes a ele associada. O primeiro é a forma pela qual o homem domina a natureza, submetendo-a violentamente à sua vontade; a segunda é a forma pela qual o homem domina outros homens. Assim, a análise marxista reduz toda realidade humana àquele fundo violento da luta pela sobrevivência e pela dominação. Dir-se-ia que tais idéias resultam do espírito conflituoso, desassossegado e marcadamente encrenqueiro de Marx, que se reflete em  sua obra, através da qual conseguiu atormentar durante setenta anos a humanidade e atrasá-la espiritualmente.



Influência do darwinismo


Essas características do pensamento de Marx evidentemente o aproximam de Darwin, e não é de hoje que se descobriu a importância do biólogo para o patrono do comunismo. O próprio Engels reconhece implicitamente essa afinidade de pensamento quando afirma, no discurso que proferiu por ocasião do enterro de Marx, que “…assim como Darwin descobriu a lei da evolução da natureza orgânica, Marx descobriu a lei do desenvolvimento da História humana…”.7 Marx, que criticou tanta gente com ferocidade, elogia Darwin por ter demonstrado que também a natureza tem uma história.8 E fez isso porque ele mesmo havia utilizado o modelo darwinista de história natural para explicar a história dos homens. Como se sabe, este modelo se baseia na teoria da seleção natural, segundo a qual os espécimes geneticamente mais fortes e aptos conseguem determinar o futuro das novas gerações derrotando os menos aptos na luta pela sobrevivência. Basta tomar este modelo e substituir os espécimes pelas classes sociais (ou seja, a luta entre os espécimes pela luta de classes) e a genética pela economia (substituir as mutações genéticas pelas mutações econômicas, e o patrimônio genético dos mais fortes pelo patrimônio econômico das classes dominantes) para se ter um esquema da essência da concepção marxista da História.

Os marxistas gostam de criticar o chamado “darwinismo social”, que deu origem a concepções fascistas da História, e de dizer que o método de Marx se baseia na dialética de Hegel. Que leiam então o prefácio à primeira edição de O Capital, onde o próprio Marx define seu método como uma tentativa de compreender o desenvolvimento econômico da sociedade como um processo de história natural, sem que seja dita qualquer palavra sobre “dialética”. Mas o que ele pensava ao falar de história natural? Isto fica claro quando se descobre que sua primeira intenção era dedicar a obra não a Hegel, mas a Charles Darwin.9

Ligações perigosas com o Velho Testamento

Porém, para se compreender a onipresença da violência e do crime nas teses marxistas, talvez seja necessário remontar a um darwinismo mais antigo, ao protodarwinismo implícito no Velho Testamento, cujo estudo e leitura devem seguramente ter preenchido considerável espaço da infância de Marx. O filósofo nascera em uma família apinhada de rabinos tanto pelo lado da mãe quanto pelo do pai, dentre os quais se contava o avô paterno e um tio. É possível então imaginar o bombardeio teológico tanto explícito quanto subliminar a que esteve submetido, e justamente em uma idade na qual não tinha meios de se defender. Talvez até o professado ateísmo de Marx seja explicável como uma reação a esta opressiva superexposição, reação esta que, não obstante, provavelmente não terá podido apagar a profunda impressão que aquelas narrativas ancestrais terão deixado no entendimento infante, com o terrível a misturar-se ao grandioso, e com sua moralidade, para dizer o mínimo, confusa. É essa herança metafísica adquirida na infância que, recalcada durante décadas de materialismo, retorna na produção teórica de Marx, e às vezes em variações perversas.

Alguns dos efeitos dessa inesperada influência são bem conhecidos: o proletariado seria o substituto materialista e sociológico do povo eleito, e Marx uma espécie de novo Moisés (aliás, esse era mesmo um de seus prenomes), que, substituindo o cajado pela baioneta ensangüentada, o guiaria à Terra Prometida da sociedade sem classes. Como Moisés, Marx não chegou a pisar a Terra Prometida. Aliás, nem seus seguidores, ao contrário do que ocorre na narrativa bíblica. Em uma outra interpretação, a imagem idílica que Marx faz do chamado comunismo primitivo das primeiras sociedades humanas aparece como o paraíso perdido do Éden, cuja reconquista o filósofo, vestido agora de (falso) Messias, lideraria. Mas, ao contrário do paraíso que padres e rabinos mencionam para ganhar o fervor do público, a miragem de Marx se situava na Terra, e não no Céu, não seria mais preciso morrer para desfrutar dela, o que a tornou consideravelmente mais atrativa para muita gente. Só que o homem é expulso do paraíso que a Terra efetivamente é à medida que o capitalismo se alastra impiedosamente até nos mais distantes rincões do planeta, desfigurando e maculando a natureza para transformá-la inexoravelmente em mercadoria. E, por mais estranho que pareça, esse tipo de regime deve o seu status de dono do mundo e senhor absoluto do pedaço sobretudo a Marx e ao comunismo, como veremos a seguir.

Retornando, porém, ao nosso tema, perguntemos: que diz o Velho Testamento a respeito da origem da sociedade e da civilização? Simplesmente que ambas resultam de um crime, nomeadamente, do fratricídio de Caim. Ao matar Abel, Caim se torna, segundo a alegoria do Gênesis, o único herdeiro do mundo, o precursor e patriarca da humanidade. A civilização e todas as suas obras, o homem e todos as suas realizações, anseios e pensamentos, tudo isso derivaria apenas do crime de Caim, e carregaria, conseqüentemente, seu estigma. É sob este signo que Marx vê desenrolar-se toda a história humana, motivo pelo qual apenas consegue concebê-la como uma seqüência infame de violências. Essa postura evidencia a sua reconhecida afinidade com as idéias de Freud, que procuram mostrar o homem como um ser naturalmente pervertido, incestuoso, homicida e impotente diante de suas fraquezas. O precursor da psicanálise, durante uma conferência proferida em Viena em 16 de fevereiro de 1915, afirmou: “Nós todos nós nascemos de uma longa linhagem de assassinos” (in: Nous et la mort). O estrago que o veneno das idéias de Marx ocasionou no plano político-social só é comparável ao provocado no campo da psicologia por esse seu contemporâneo, cujas idéias solaparam os valores do mundo ocidental do século XX, impelindo as pessoas a encararem o homem como um ser irregenerável.

Boas inteções, muito fumo e gritaria, nada mais!
(Um encontro de comunistas)

 Teoria do mal necessário

Na narrativa de Caim, está contida a equívoca concepção ética da justificação dos meios através dos fins, e de que mesmo o crime pode eventualmente ser útil ao progresso humano: Caim matou Abel, mas deu início à civilização; e talvez, pensar-se-ia, não pudéssemos estar aqui se fosse outro o iniciador de tal geração. Semelhantemente, Marx aponta os roubos e violências impingidos pelas classes dominantes às dominadas em cada fase da história humana, mas, ao mesmo tempo, considera-as como estágios históricos necessários no caminho que conduz ao comunismo. Isto é o que torna ambígua e improcedente a virulência com que Marx denuncia os crimes do capitalismo. Ele descreve os horrores do modo de produção capitalista com as cores mais sombrias e da forma mais crua (apesar de ter passado a existência trancado em um gabinete sem nenhum contato direto com a rotina dos operários): o aspecto vampiresco da grande indústria e das altas finanças, a escravização do homem ao trabalho mecânico, a utilização de mão-de-obra infantil, a desumana jornada de trabalho… Mas, ao mesmo tempo, afirma que o capitalismo cria as condições de existência do comunismo, e que é um estágio pelo qual é preciso necessariamente passar para se chegar enfim à sociedade sem classes. Mais ainda: o comunismo só poderá surgir quando as contradições do sistema capitalista tiverem atingido seu máximo grau, pois só assim a revolução “redentora” terá se tornado inevitável. Mas então deveríamos considerar os crimes do capitalismo como… úteis? E, nesse sentido, como… bons? Pode algo ser condenável e ao mesmo tempo necessário?

 É possível que este paradoxo ético tenha tirado o sono de muitos marxistas. Mas há um outro maior e mais grave, porque não se limita ao campo da teoria: como pode uma doutrina que denuncia a violência e diz visar a sua supressão lançar mão da própria violência como meio de atingir seus objetivos? Pode a fraternidade surgir da discórdia? A paz do crime?

É evidente que não, e as conhecidas aventuras soviéticas do marxismo são a prova mais espetacular disso. Esperemos que tenham sido as últimas.

O homem como animal

 O lema preferido de Marx era uma antiga sentença latina: nada de humano me é estranho. No próprio ato de repetir esta frase, Marx dava uma prova cabal do contrário. Pois no que toca ao conhecimento do ser humano vale aquela outro dito, menos elegante, mas certo: quem sabe cala, quem não sabe fala. E, de fato, que sabia ele sobre o ser humano? Conhecia bem a história da filosofia em geral, e especialmente Hegel e Epicuro, sobre quem escreveu uma tese de doutorado. Lia grego e latim. Era versado em temas de economia: conhecia os economistas clássicos e a história da industrialização na Inglaterra. Escreveu sobre a Revolução Francesa e sobre a guerra franco-prussiana. Mas sobre o ser humano era um completo ignorante.

As próprias teorias de Marx a respeito do homem testemunham esta ignorância, pois nesse ponto também se manifesta sua herança darwinista. A Darwin, Marx deve não só a seleção natural mas também a idéia de que o homem é, em última análise, um animal. Falante, mas animal.

Para Marx, o atributo da humanidade não é inerente ao ser humano, não pertence à sua essência, mas é adquirido historicamente à medida que ele desenvolve os meios de produção econômicos, isto é, à medida que ele modifica o ambiente em que vive e submete a natureza ao seu domínio. Assim, a seu ver, o homem primitivo, que não domina a natureza, mas ainda é dominado por ela, não se distingue claramente dos animais:

“A consciência, naturalmente, começa por ser apenas consciência acerca do ambiente sensível imediato… É, ao mesmo tempo consciência da natureza, a qual a princípio se opõe aos homens como um poder totalmente estranho, todo-poderoso e inatacável, com o qual os homens se relacionam de um modo puramente animal e pelo qual se deixam amedrontar como animais; é, portanto, uma consciência puramente animal da natureza (religião natural)… Este começo é tão animal como a própria vida social desta fase, é mera consciência de horda, e o homem distingue-se do carneiro apenas pelo fato de a sua consciência lhe fazer as vezes do instinto, ou de seu instinto ser consciente.”10

É fácil perceber o estrago que tal concepção da natureza humana provoca na autocompreensão do homem, especialmente no que toca à sua moralidade. Se o homem se crê animal, pode-se dar o direito de agir como tal, cometendo toda sorte de desatinos, ou seja, de atitudes desequilibradas e inconscientes. Sob tal ótica, torna-se então impossível admitir que o ser humano seja capaz de possuir ou buscar valores que transcendam esta estreita esfera. E no entanto são esses esquecidos valores, e não a luta de classes ou a dominação da natureza, que podem salvar a civilização do atraso moral e espiritual.

Aversão aos camponeses

Essa forma de conceber o homem e a natureza leva Marx, já em seus primeiros escritos, a uma posição claramente preconceituosa em relação ao setor agrário da economia e ao campesinato em geral, uma vez que ambos representariam um estágio inferior do desenvolvimento das forças produtivas e estariam ainda por demais submissos à natureza, ao invés de dominá-la. Kostas Papaioannou, filósofo grego e crítico de Marx, comenta assim este estranho traço do pensamento marxista, capaz de fazer tremer as bases teóricas dos movimentos agrários de cunho socialista:
 

“O único trabalho que Marx conhece e reconhece é o trabalho industrial, mediante o qual o homem se rebela real e eficazmente contra a natureza. Por exemplo, o camponês não participa da dignidade do trabalhador concebida pelo jovem Marx. Ele, que elogiou a burguesia por haver reduzido o número de camponeses e ‘livrado uma grande parte da população do cretinismo rural’, só sentia desprezo pelo camponês. ‘Hieróglifo inexplicável para todo espírito civilizado’, representantes ‘da barbárie no próprio seio da civilização’, os camponeses para ele não são verdadeiros trabalhadores, mas animais submetidos à natureza.”11
 

 Assim, para Marx, a relação homem/natureza é necessariamente de antagonismo: ou se domina ou se é dominado. A terceira possibilidade ele simplesmente não consegue conceber: a de que o homem viva em harmonia com a natureza, desfrutando do que ela oferece sem violentá-la, conhecendo e respeitando seus limites, seus ciclos e necessidades. Se Marx acha que o homem precisa se comportar diante da natureza ou como o animal amedrontado pelo trovão ou como o general conquistador no front de batalha, é porque não  consegue pensá-lo como parte da natureza, como a parte dela que chegou à consciência, da qual ele tanto fala sem ter a mínima noção do que seja. É incapaz de conceber a possibilidade do sentimento de comunhão com a natureza, da percepção de que alguma coisa em nós está ligada a tudo o que vive na Terra, e também aos rios e às estrelas. Este sublime sentimento, tão humano e humanizante, encontrado mesmo entre os aborígenes “incivilizados”, entre os artistas, os místicos, camponeses, cientistas, filósofos (sim, até entre eles) e homens comuns, desde que dotados de sensibilidade, este sentimento Marx, com toda a sua erudição, não o pôde conceber. E dizia que nada de humano lhe era estranho.

Mudar a sociedade sem mudar o homem?

No homem há muito mais coisas do que sonhou a vã filosofia marxista. Ele é vasto demais para caber no intelecto de Karl Marx, ou em qualquer outro. Por ter concebido o ser humano de forma tão estreita, Marx chegou a pensar que seria possível transformá-lo através de uma mudança da estrutura econômica da sociedade.

 O homem do capitalismo é mau e injusto, meditava ele, mas o do comunismo será bom e justo (e hoje em dia os marxistas de botequim afirmam que o comunismo “não deu certo porque os homens que quiseram aplicar a doutrina de Marx não eram bons”…); só depois que a sociedade for transformada o homem poderá se transformar...

 Percebe-se o absurdo que está contido nesta idéia? Deveríamos então perguntar: porque o mundo chegou a ser tão injusto e violento como é? Sem dúvida, porque no homem existem tendências injustas e violentas, ou, como diz o próprio Marx: “…aquelas paixões que são ao mesmo tempo as mais violentas, as mais vis e as mais abomináveis de que o coração humano é capaz: as fúrias do interesse pessoal”12. Suponhamos então que a sociedade seja efetivamente “transformada” pela revolução, sem que antes o homem tenha se transformado. O que impedirá aquelas mesmas tendências de se manifestarem novamente, e de forma ainda mais intensa, já que teriam sido excitadas pela revolta e pela vingança? Quanto tempo será necessário para que a inveja, a volúpia, a avareza e outras manifestações malévolas transformem o paraíso artificial num novo inferno real, pior ainda  que o anterior? O que a Rússia nos ensina sobre isso? Não será melhor então começar por mudar o homem?

Marx, que raciocinava com tanto rigor, e que insistia sempre na idéia de que a sociedade era produto da atividade humana, não atentou para essas questões. Mudemos a sociedade  – bradava. O homem? Isso se vê depois!

Contradições entre vida e doutrina

A verdade é que o homem não se transforma por decreto ou por coerção estatal e policial a menos que se queira apenas uma mudança aparente, e mudar apenas a aparência é armar uma bomba-relógio. Para ser verdadeira, a mudança tem de partir do próprio indivíduo, num processo no qual ele precisa enfrentar e vencer a si mesmo. Estamos falando aqui de uma transformação existencial profunda e de alcance espiritual, e que, como tal, requer uma orientação adequada. Essa orientação, entretanto, não pode ser oferecida por nenhuma doutrina política. Eis a dura realidade.

Disto se conclui que antes de querer mudar o mundo, Karl Marx deveria tentar mudar Karl Marx. Diante desta conclusão ele certamente responderia como o fazem todos os revolucionários: Mas o mundo é tão injusto! E eu sou tão boa pessoa…

Na verdade, tudo indica que ele achava mais fácil mudar o exterior do que o interior. Mais fácil combater o Capital com todo o seu poderio e seus exércitos do que enfrentar a si mesmo. Isso explica a notável incongruência entre seu discurso e sua vida.

O paladino da causa proletária levava uma vida que nenhum proletário poderia sonhar viver. Vivia praticamente encerrado em seu gabinete ou nas bibliotecas de Londres e Berlin, lendo, escrevendo, preparando e decorando discursos sobre as condições de vida e de trabalho dos operários, as quais conhecia apenas através de relatórios. Adotou o símbolo da foice e do martelo, mas é possível que não soubesse diferenciar um do outro.

Para escrever com tranqüilidade sobre a produção do capital, Marx simplesmente se negou a produzir, ele mesmo, qualquer capital. Por esse motivo, nunca foi capaz de conservar por muito tempo uma fonte de renda própria, como aliás conviria a alguém que tem uma família e quer manter alguma independência. De fato, foi o casamento que, por algum tempo, o salvou do destino comum dos desempregados. Casado com Jenny von Westphalen, filha do barão Ludwig von Westphalen, Marx reduziu a zero o dote da esposa a fim de se sustentar e de publicar alguns de seus escritos. Assim é que o intelectual que tanto atacou a aristocracia não viu nenhum problema em ser subsidiado com o dinheiro desta. Tampouco não viu problema em aceitar dinheiro advindo da “exploração do trabalhador assalariado”: depois que Jenny já havia vendido as últimas pratarias, a família teve de ser sustentada pelas atividades industriais de Engels, pois o “trabalho” de Marx não podia ser interrompido. Assim, Engels extraía a mais-valia de seus empregados para enviar o dinheiro de que Marx necessitava para denunciar a mais-valia. Tal suporte econômico concedido pelo amigo estendeu-se por toda a sua vida.

Muitas vezes as remessas não eram suficientes e os Marx passavam grandes apertos. Nem mesmo as heranças que ele recebeu de seu pai e, posteriormente, de sua mãe, serviram para aliviar sua situação financeira. A parte que lhe competia da herança materna ele já havia recebido antecipadamente através de um tio. As dívidas se acumulavam a tal ponto que os oficiais de justiça levavam embora os móveis por inadimplência, obrigando parte da família a usar o chão como cama. E nem assim o chefe da família se decidia a ir à luta. Beberrão e fumante inveterado13, não se sentia disposto a enfrentar a labuta do dia-a-dia, embora pudesse trabalhar como jornalista. Por causa disso e de outras faltas, sua mulher o abandonou duas vezes, regressando, porém, à casa em ambas as ocasiões. Marx havia encasquetado que tinha de salvar o proletariado, e essa idéia fixa o cegou para suas responsabilidades imediatas, impingindo a si mesmo e aos familiares sofrimentos desnecessários. O conde Tolstói, de cuja herança humanística os comunistas indevidamente se apropriaram, adaptando e desfigurando seu discurso de acordo com suas intenções, abdicou das vantagens da nobreza e foi arar a terra como lavrador. Melhor seria se Marx tivesse seguido este exemplo prático e houvesse conhecido na prática o peso que tem uma enxada. Assim teria compreendido realmente algo sobre o ser humano, e pensaria melhor antes de falar mal dos camponeses.

  A esposa tampouco sabia lidar com dinheiro. Ela havia recebido da mãe como “presente” uma criada, Helen Demuth (mais conhecida como Lenchen), que fazia todo o trabalho da casa e ainda cuidava das finanças da família, mas que nunca recebeu um centavo por seus préstimos desde 1845 até sua morte em 1890. Em 1850 ela tornou-se amante de Marx e teve com ele um filho ilegítimo, Freddy, que ele nunca reconheceu, e que foi criado por uma família operária. As omissões do chefe de família em relação ao trabalho provocaram a morte de três filhos seus por subnutrição. Restaram-lhe então três filhas, às quais ele negou qualquer educação ou carreira, apesar de serem bastante inteligentes. Sua filha favorita, Eleanora, casada com o escritor e político radical Edward Aveling, que era satanista, cometeu suicídio em 1898. Em 1911 sua filha Laura e o marido suicidaram-se juntos. Sua filha Jenny morreu em 1882, um pouco antes dele mesmo.

Segundo o escritor Paul Johnson, em sua obra Intellectuals, havia algo no temperamento de Marx que não se chocava com as idéias expressas em sua obra; ao contrário, parecia ser a origem delas: seu temperamento violento, autoritário e brigão, motivo pelo qual quase foi expulso de uma universidade. Já em sua mocidade, quando contava com aproximadamente vinte anos, ele evidenciava esse forte traço de seu caráter através de seus poemas, que apresentavam dois temas principais: seu amor por Jenny e a destruição do mundo. Johnson afirma que “dois desses poemas foram publicados no Athenaeum (Berlin, 1841) sob o título de Canções Selvagens, onde, além da selvageria, ele mostra intenso pessimismo em relação à condição humana, fascinação pela violência, pactos suicidas, pactos com o diabo.” E que “o ódio, a violência e a visão apocalíptica de uma catástrofe iminente do sistema social permeiam toda a sua obra. (pág. 54)

Porém, a coragem não era seu forte, já que se envolvia em conflitos e duelos e depois recusava-se covardemente a duelar, incitando seus assistentes a fazê-lo. Um deles, Konrad Schramm, bateu-se em seu lugar, não obstante nunca ter usado uma pistola, e saiu ferido. Outro assistente, Gustav Techow assassinou pelo menos um outro revolucionário rival de Marx e  foi enforcado pelo assassinato de um policial. (Johnson, pág. 71)

Tampouco a solidariedade era o seu forte. A maior evidência a esse respeito foi o seu relacionamento com Engels. O amigo constituiu, durante mais de vinte e cinco anos, o suporte financeiro de família Marx, tendo-lhe entregado mais da metade de sua renda total. Porém, o chefe da casa não só se mostrou grato como ainda acomodou-se a essa situação, esquecendo-se dos brios e acostumando-se a lhe pedir empréstimos financeiros, os quais, na verdade nunca foram reembolsados. Quando a companheira de Engels faleceu, este encontrava-se desolado, mas Marx não se mostrou capaz de expressar qualquer sentimento de pesar pelo fato; ao contrário, enviou-lhe uma carta comunicando-lhe que estava ciente do fato e, em seguida, indo direto ao assunto que o interessava: o envio de uma nova remessa de dinheiro. O historiador Edmund Wilson comenta a correspondência trocada por eles a despeito do assunto:

“No dia sete de janeiro de 1863, a amante de Engels, Mary Burns, morreu subitamente de apoplexia. ‘Não posso sequer exprimir o que sinto’, escreveu Engels a Marx num bilhete curto: ‘A pobre moça me amava de todo o oração’. Em sua resposta Marx limitou-se a comentar que a notícia o ‘surpreendeu e chocou’, que Mary era ‘simpática, espirituosa e dedicada’; em seguida, discorreu longamente sobre a miséria em que vivia, queixando-se da dificuldade de obter um empréstimo em Londres. (...) Engels só respondeu no dia treze a carta que Marx lhe escrevera no dia oito, nos seguintes termos: ‘Prezado Marx: você certamente há de compreender que a desgraça que me acometeu e a sua atitude fria em relação a ela me impediram de lhe responder antes. Todos os meus amigos, inclusive simples conhecidos filisteus, souberam manifestar, nessa ocasião que não podia senão me abalar profundamente, mais solidariedade e amizade do que eu esperava. Você aproveitou a oportunidade para demonstar sua maneira orgulhosa de encarar as coisas com frieza’. (...) Dez dias depois Marx lhe responde, pedindo desculpas e dizendo que se arrependera da carta tão logo a enviara; mas ‘sob tais circunstâncias eu geralmente não consigo senão recorrer ao cinismo’. E sua falta de tato e sentimento é tamanha que ele se estende por páginas e páginas queixando-se de sua situação, e mais ou menos dando a entender que sua carta anterior saiu como saiu devido à pressão que sua mulher lhe impusera”.14

Esse episódio causou em Engels uma profunda indignação contra Marx e, a partir de então, o relacionamento dos dois nunca mais foi o mesmo.15  Engels foi, segundo Johnson, a terceira grande vítima explorada financeiramente por Marx; a primeira foi a família da esposa; e, a segunda, os seus próprios pais.

Um contemporâneo seu, o anarquista Michael Bakunin, declarou a seu respeito: “Se seu coração fosse tão forte como seu intelecto eu o seguiria através do fogo. Mas falta-lhe nobreza de espírito. Estou convencido de que uma perigosa ambição pessoal devorou tudo que havia de bom nele. A aquisição de poder pessoal é o objetivo de todas as suas ações.16

O triste saldo negativo

Se todos esses conflitos e sofrimentos houvessem resultado em algum bem para a humanidade teriam pelo menos algum sentido. Mas o que Marx conseguiu? Sua doutrina não gerou um mundo de fartura e concórdia, mas sim miséria, além do terror do regime que mais crimes cometeu na História. Não gerou a liberdade, mas a opressão do indivíduo pelo Estado absoluto. Onde quer que tenha sido implantado, o Estado comunista se transformou num insuportável e odioso monstro de ferro controlador e patrulhador da vida individual e das atividades e pensamentos humanos, como se não devesse servir aos homens, mas sim ser servido e adorado por eles. Marx achava que, sendo o Estado um instrumento de dominação a serviço da classe privilegiada, deveria desaparecer com o supressão das classes sociais. Mas (coisa estranha!), deu-se precisamente o oposto: o estado fortaleceu-se além de toda medida! Terá saído algo errado? Ou será isso a tal “dialética”?

Por outro lado, ao final das contas, o comunismo nem sequer arranhou o poderio de seu arqui-inimigo. Pelo contrário: o capitalismo nunca foi tão pujante. E a causa de sua radicalização e onipotência atuais foi sem dúvida a guerra fria. Não fosse o pretexto de combater a terrível ameaça comunista, o capitalismo não teria podido semear de forma tão eficaz por todo o mundo a crença ideológica de que é a única forma possível de organização humana. Outro fator da radicalização capitalista foi ter o marxismo entravado enormemente o diálogo entre as classes. Não há nada de errado em organizar os trabalhadores, mas a pregação da luta de classes criou artificialmente um fosso ideológico praticamente intransponível entre empregados e patrões, predispondo ambos os lados à animosidade e à desconfiança. Talvez se Marx não houvesse escrito nenhuma linha, o capitalismo já houvesse evoluído para uma forma mais humana de convivência, ou mesmo teria sido superado. E a previsível falência do comunismo ainda serve atualmente como argumento complementar às mentiras dos ideólogos do capitalismo. Hoje, que o comunismo não assusta mais nem a Liga das Senhoras Católicas, estes mesmos ideólogos se entregam ao ridículo de citar Marx, seja para se darem ares de “humanistas”, seja para ressaltar, pelo contraste, o valor de suas próprias teorias.

E o proletariado? Que fez Marx por ele? Nada além de acrescentar à sua miséria material a miséria espiritual do ressentimento, da revolta e do rancor, que são apenas o outro lado da ganância e avareza capitalista, a imagem das paixões capitalistas refletidas num espelho, o que mostra que ambos os sistemas não são assim tão opostos. São somente manifestações das mesmas tendências não humanas, cujo combate Marx quis adiar para depois da revolução, e que não conseguiu combater em si mesmo.

 

Os Dois Demônios:
A verdadeira história do 
comunismo e do capitalismo


Demônio-Comunismo: Eu possuo a bomba atômica. Posso impor o regime capaz de destruir o dom dos homens que mais me irrita.

Demônio-Capitalismo: Consta nos Evangelhos que nós, os demônios, somos os pais da mentira, e por isso não sei se devo acreditar no que dizes. Talvez estejas a inventar mais uma de tuas mentiras. Entretanto, não posso compreender tuas palavras quando afirmas pretender destruir o dom dos homens que mais te irrita. Que dom é esse?

 Demônio-Comunismo: Não percebes? Falo do dom da liberdade. A liberdade dos homens permite-lhes escapar ao meu império. Porém, são tantos os desatinos que em nome dela são cometidos que muitos dos que hasteiam sua bandeira acabam caminhando às cegas para mim. O melhor, pois, é precipitar essa marcha pela violência e fazê-los logo escravos.

 Demônio-Capitalismo: És um demônio bem tolo com essa tua camisa de operário. Não podes compreender a minha filosofia de diabo rico, vestido elegantemente em meio à grã-finagem. Pois a liberdade é justamente o poder que os homens possuem de transgredir as leis morais. Se não fosse a liberdade, como poderia eu alcançar êxito nas tentações que sutilmente insinuo nos homens, conduzindo-os ao caminho da perdição?

 Demônio-Comunismo: Mais tolo és tu, pois não vês que esse caminho leva os homens ao reino que presido. Julgas trabalhar para ti, mas, na verdade, trabalhas para mim.

 Demônio-Capitalismo: Trabalho para a Civilização Ocidental Capitalista.

 Demônio-Comunismo: E o que é a Civilização Ocidental Capitalista?

 Demônio-Capitalismo: É algo como uma coisa que existe sem existir.

 Demônio-Comunismo: E trabalhas para uma coisa que ao mesmo tempo existe e não existe?

 Demônio-Capitalismo: Trabalho pelo que não tem sentido.

 Demônio-Comunismo: Se não tem sentido, para que serve?

 Demônio-Capitalismo: Serve para que unicamente o meu próprio sentido prevaleça.

 Demônio-Comunismo: Pois não vejo sentido no teu sentido. Não te defines, como eu, abertamente. As coisas que faço dirigem-se a um fim: a destruição do homem, a sua transformação em peça de máquina, a sua degradação total. Bem sabes que desde o começo, quando o demônio Lusbel nos arregimentou para a grande revolta, cujos episódios o escritor Milton descreve com tanta eloqüência, o motivo principal da nossa indisciplina foi o galardão que Deus outorgou aos homens de serem racionais e livres e, de certa forma, superiores aos anjos, porque em sua natureza dever-se-ia operar o milagre da Sagrada Aliança. Esta guerra, anterior à criação do mundo visível e tangível, continua até hoje. Todo o nosso empenho deve estar em despojar os homens de sua dignidade e de sua humanidade, reduzindo-os à condição de simples animais.

 Demônio-Capitalismo: Trabalhas contra ti mesmo. Ou melhor, julgas trabalhar pela escravidão dos homens, mas ao mesmo tempo crias condições para que desperte neles a razão. Porque é justamente quando o homem se vê desligado de todos os bens da terra e se sente humilhado, ofendido, esmagado pelo sofrimento e impotente para fazer uso da liberdade que ele se recorda do que é, de onde veio e para onde vai. Então, sob o peso da dor, o homem renasce. E quando isto acontece, ele escapa ao teu e ao meu domínio. Ao contrário de ti, que impões o materialismo ateu, que crias o mito do coletivismo, que reduzes as pessoas a indivíduos e o indivíduos a nada, para que do nada ressurja a imagem autêntica do homem, eu fiz erguer no porto de Nova York a estátua da liberdade, e a essa estátua dei uma interpretação em cuja amplitude trago os homens escravos de si mesmos. Tu constróis os homens, eu é que os destruo. Na tua escravidão há um canto de esperança, mas na minha liberdade só uma marcha fúnebre subsiste.

Demônio-Comunismo: Assim dizes, mas o certo é que, conforme já te disse, trabalhas para mim.

Demônio-Capitalismo: Jamais! Considero-te o pior dos adversários, porque és um traidor de Lusbel. Acordas o Homem no homem. Quanto a mim, faço com que os entes humanos adormeçam. Não me é difícil consegui-lo: basta-me ensiná-los a cantar e dançar “rock” e outros ritmos frenéticos e fazer soar em todos os quadrantes a trombeta da Declaração dos Direitos, soprada com toda a força em 1789 na França, na Revolução Francesa. Subverti todos os valores morais no mundo da inteligência e da sensibilidade enquanto os comerciantes, industriais, banqueiros e políticos iam perdendo, dia a dia, o critério do bem e do mal. Engendrei todas as formas de divertimento e de prazeres, desde as boates, com suas músicas pop e os streap teases, até as famosas “casas de massagens” e as discotecas, que se multiplicaram pelo globo terrestre com luzes mortiças e coloridas sob as quais prostitutas e mulheres casadas se encontram numa promiscuidade ultramoderna. Acendi a paixão do jogo, fazendo cantar as roletas e grasnar as espátulas que arrecadam fichas. Fiz as cartas de baralho, de cartão e matéria plástica. Transformei a arte da equitação em jogatina desenfreada. Desorientei o cinema e o teatro de sorte a torná-los instrumentos da degradação humana. Por fim, contaminei todos os jornais, as revistas, as novelas de TV e até os desenhos animados, com que vou imbecilizando as multidões. Se o nosso fim é levar as almas ao inferno, haverás de convir que quem trabalha honestamente para Lusbel sou eu, e não tu...

Demônio-Comunismo: Pensas que trabalhas para ti, mas insisto em que, na realidade, é para mim que trabalhas. Se animalizas os homens e as mulheres, não fazes mais do que preparar o meu advento, a minha vitória. O homem só se escraviza ao meu império depois de haver se tornado escravo de si próprio. O homem consciente e desperto reage contra mim. Por conseguinte, todo o teu esforço redunda em meu benefício. Mas esqueceste-te de mencionar tua ciência. Foi esta criação tua que me facultou os meios de fabricar a bomba atômica, e a de hidrogênio, e a de nêutrons...

Demônio-Capitalismo: Inventei as bombas para impedir que dominasses esta parte do mundo onde exerço meu poder. Reconheço que és violento, ó demônio da estepe, diabo glacial-ártico, espírito vermelho de além dos Urais, e que passeias há séculos pela Ásia enforcando, degolando, incendiando, oprimindo... E, sendo tu violento, só pela violência poderias ser dominado. Então, ordenei a meus cientistas que mergulhassem qual escafandristas até as profundezas da matéria e de lá voltassem trazendo nas mãos a força invisível do átomo. Tal descoberta foi um sucesso, e, ao retornarem, assim como caçadores de pérolas após proveitoso dia de trabalho, traziam consigo esse grande tesouro, o qual considero meu tesouro maior. Fiz com ele as primeiras demonstrações em Nagasaki e Hiroshima, como bem sabes. Isto foi apenas para que viesses a saber de meu poder. Mas não tenho qualquer interesse em empregar essa arma brutal. Seria representar a tragédia em que as almas são salvas pelo sofrimento e pôr fim à comédia mecanicista por mim montada, que constitui o mais eficaz meio de manipulação. Fica tranqüilo. Se para ganhar tempo pregas a paz e a seguir te preparas para a guerra, eu, por mim, desejo apenas a paz, a paz prolongada, a paz dos pântanos e dos cemitérios onde apodrece a coragem humana, a paz do FMI, a paz das pressões econômicas, das futilidades e da lascívia, onde não lampeja a chama da vida heróica e nem mesmo o do sonho. Que o mundo se decomponha na paz da ilusão: é o meu desejo.

Demônio-Comunismo: Mas eu possuo, agora também, as bombas apocalípticas. E isto, devo dizê-lo, graças a ti. Não te espantes! Enquanto tu procuravas domar a natureza e arrancar dos recessos da matéria a força de que tanto te orgulhas, eu penetrava nas almas de teus cientistas e ia buscar uma força ainda maior: aquela que habita as almas dos homens. Infiltrei-me em teu império, e a alguns de teus súditos conquistei com falazes promessas de uma existência melhor e mais justa, e a outros prometi uma vida em que os instintos gozassem da mais plena liberdade. Tu mesmo me ajudaste a mobilizar tais elementos, dando-me, para os primeiros argumentos de Rousseau, de Diderot, de Helvetius, de Saint Simon, de Fourier, de Ricardo e de Marx; e dando-me, para os segundos, a lógica agradável de Freud. Tudo obra tua. E, tendo eu conquistado desse modo a simpatia de teus homens, eis que eles prontamente revelaram-me os segredos das fórmulas herméticas da física nuclear. E hoje posso dizer-te a ti, que és o demônio do individualismo, do egoísmo, do comodismo, dos divertimentos, das ambições, dos banquetes, das festas e dos bailes, que eu, o demônio do coletivismo, da brutalidade e do terror, estou em igualdade de forças contigo. Empatamos. E neste empate, há um vitorioso: eu. Se não me crês, considera: porque és o demônio da desorganização e da anarquia, do liberalismo sem freios, do agnosticismo e da lassidão, e levas o homem a renunciar ao uso das forças poderosas que lhe habitam a alma, os que te seguem são incapazes. Dentre eles, há os que são revoltados, e estes me pertencem. E mesmo aqueles de espírito justo, que rejeitam teu império mas estão interiormente petrificados pelo materialismo, haverão de ser por mim conquistados, para que na tua fortaleza venham a ser verdadeiros cavalos de Tróia. Então, como vês, se é verdade que foste o primeiro a lançar mão das grandes armas, a mim, para tudo dominar, bastam-me as almas. O meu triunfo é, pois, inevitável!

Demônio-Capitalismo: Nossos métodos são diferentes. Porém, desejamos a mesma coisa: a vitória de Lusbel. E haverás de admitir que, se eu vencer, ele será vencedor. Mas se venceres tu, ele jamais virá a sê-lo. O sofrimento salva os homens, os prazeres perdem-nos.

 Demônio-Comunismo: Vendo-te proferir tais palavras, sinto-me como se estivesse a contemplar-me num espelho...

 Demônio-Capitalismo: Também eu sinto o mesmo ao contemplar-te.

 Demônio-Comunismo: E que significado supões que isto possa ter?

 Demônio-Capitalismo: Não serás porventura a minha própria pessoa?

 Demônio-Comunismo: Suspeito que sejamos a mesma pessoa. (Os dois demônios aproximam-se e fundem-se num só demônio).

 O Demônio: Sim, sou eu mesmo que estou a falar comigo. E agora que sou um só, vejo desfazerem-se os enigmas. E temo. Temo porque, nas trevas do século, pressinto o renascer do grande sol, aquele mesmo sol que, há dois mil anos, iluminou o mundo romano. Raios, coriscos e trovões! De que me vale o meu vasto arsenal de artimanhas, se já não posso deter a sua luz? Nascerá dos horizontes do tédio do Ocidente e estenderá seus raios ao longe, até o recôndito Oriente. E, na plenitude do dia, haverá seres humanos sobre a Terra.


 Notas

 1. Os papéis eram tão comprometedores que o governo bávaro interveio imediatamente. Operou-se uma perseguição e o caso terminou  por um célebre processo. O chefe do grupo, Weishaupt, conseguiu fugir. Todos os documentos apreendidos figuram no Arquivo de Munique.

 2. A estimativa é feita por Stéphane Courtois na impressionante e indispensável obra O Livro Negro do Comunismo. Courtois et alii, Rio de Janeiro, ed. Bertrand Brasil, 1999. p. 16.

 3. Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista, in O manifesto Comunista 150 anos depois, Rio de Janeiro, Ed. Contraponto, pp 19, 29 e 41.

 4. Citado por Wilson, Edmund, em Rumo à Estação Finlândia, São Paulo, Companhia das Letras, 1987. p.188.

  Wilson, Edmund, op.cit. p.297

 5. Wilson, Edmund, op.cit. p.297

 6. Marx e Engels op. cit. p.8.

 7. Marx e Engels Gesamtausgabe (MEGA) volume 25, Berlin, ietz Verlag, 1985 p. 407.

 8. "Quando [Marx], posteriormente, elogia Darwin por haver demonstrado que também a natureza tem uma história, devemos pensar não no materialismo ingênuo de sua juventude, mas nas conclusões anti-hegelianas que não deixou de tirar das descobertas de Darwin." Papaioannou, K. El Mito de la Dialéctica, in De Marx y del Marxismo, Cidade do México, Ed. Fondo de Cultura Econômica, 1991. Prefácio de Raymond Aron. p.140.

 9. Papaioannou, K, op. cit. p.137.

 10. Marx e Engels, A Ideologia Alemã, São Paulo, Editora Moraes, 1984.p 34-35.

11. Papaioannou, K, op. cit. p. 62

12. Citado por Wilson, E. op. cit. p. 276.

13. Paul Johnson, Intellectuals, Ed. Harperperennial, New York, 1988.

14. Wilson, Edmund, op. cit. p.

15. Segundo Johnson, op. cit. p.75

16. Idem, op. ct. pág. 72