"Quem nasceu para Mel Gibson nunca chega a Glauber Rocha"
Joaquim José de Andrade Neto


 

27 de março de 2004. Sexta-feira Santa. Os shoppings centers comemoram uma nova etapa da globalização: todas as suas lojas estão abertas. Nas salas de cinema destes enormes centros comerciais, cujo objetivo principal é o consumo, está em cartaz o “polêmico” filme de Mel Gibson, A Paixão de Cristo.

Na condição de observador da natureza e em caráter de estudo sociológico, cometi a liberalidade de me dirigir a um desses locais. Raras vezes assisto a filmes, pois, por convicção estudada sei que quanto mais a mídia incensa e quanto maior o número de oscars recebidos mais ordinárias são as obras. E eis que constato, naquela aterrorizante viagem, uma das maiores propagandas subliminares da História.


    O infeliz – vade retro mencionado – pseudodiretor de cinema é considerado pelos jornalistas internacionais remunerados por Íblis um católico conservador. No entanto, ao que tudo indica, não passa de um reles secretário do diabo, mesmo porque soltou, de forma maquiavélica, o maior balão de ensaio de todos os tempos. Tudo com apoio do clero, de rabinos (estes com uma aparente reação raivosa) e até de laicos, os quais divulgaram pelo mundo inteiro que consideraram sua película, recém-lançada, “anti-semita”. Todos, porém, na realidade, dando um show em termos de dissimulação e cara-durismo capaz de fazer de palhaços milhões de pessoas, e roubando das mesmas, somente na primeira semana de exibição nos EUA, mais de 400 milhões de dólares! Isto porque todos os incautos que pagaram os suados R$13,00 de ingresso ainda não haviam até então alcançado a tão almejada clareza de noção capaz de os fazer concluir, após assistir o Mal de Gibson, que a “arte” nunca havia chegado a um nível tão baixo!

Vejamos:

Depois de aguardar aproximadamente uma hora numa fila, podemos, amado leitor, adentrar um daqueles milhares de recintos que, de 13 em 13 reais, com certeza já embolsaram dos ingênuos cinéfilos a surpreendente soma de um bilhão de dólares! Deparamo-nos então com aqueles senhores, senhoras e senhoritas que, abraçados a enormes sacos de pipocas, sentam-se para assistir ao filme e que, mesmo antes de iniciado o melancólico espetáculo, sem saber porquê, já estão a derramar discretas lágrimas... de crocodilo! Tal fenômeno se dá pelo efeito propagandístico de um verdadeiro dilúvio de comentários sobre o dito lançamento por parte da “conceituada” e “respeitável” mídia do sistema.

Mas eis que de repente, não mais que de repente, após termos sido obrigados a suportar longos traillers enlatados, intercalados por publicidades institucionais do tipo pança-cheia barriga-vazia, ou seja, fome-zero macaco-assovia, tem início o mais ridículo espetáculo de todos os tempos.

Resultado de uma colcha de retalhos da pior qualidade e reunindo atores da mais baixa categoria, o filme apresenta, apesar de totalmente americanizado, um exótico tempero oriental: é falado em aramaico! O suposto diretor, mal-feitor travestido de puritano conservador, faz surgir o Divino Mestre (cujo nome, por respeito, não vamos pronunciar) “representado” na figura de um jovem escondido atrás de uma barba, misto de garoto-de-programa com surfista, daqueles que pululam nas praias de Ipanema. Apesar de tentar reproduzir quem o leitor está pensando, o que se vê do início ao fim é uma mistura de Sansão com Schwarzenegger. E quem o assiste sem a necessária inteligência (interlegere), ou seja, sem perceber o que está nas entrelinhas, não consegue enxergar nada além de um herói...

O deslumbrado pseudodiretor caipira mescla a sua ameaça de longa-metragem com cenas que tentam a todo custo dar um toque místico à referida peça de vulgaridade, a qual está mais para terror-chanchada do que para algo capaz de expressar o mínimo de espiritualidade. Tais cenas, ou melhor, tais pára-quedas totalmente desconectados, que caem de tempos em tempos durante a narrativa – fracassada tentativa de imitação de um outro filme sobre o mesmo tema, do Diretor Martin Scorsese – fazem aumentar a nossa certeza de que não estamos diante de um filme anti-semita, conforme tenta nos induzir o massivo e subliminar jogo de marketing da imprensa do sistema. Na realidade, a condenação do Nazareno no filme por parte dos judeus acontece apenas de forma teórica, enquanto, durante toda a exibição, os protagonistas da tortura e do suplício não são senão os romanos! Ou seja, a encenação é totalmente direcionada a demonstrar o preconceito e a perseguição dos romanos aos judeus, visto que a elite patrícia dos primeiros considerava os judeus seres primitivos e atrasados, e que os rituais religiosos judaicos eram entre eles alvo de chacota. Afirmavam também, entre outras coisas, que Deus nem sabia da existência deles. Tal pensamento era corrente entre os pragmáticos romanos.

Confirmando essa condenação exclusivamente teórica do filho de Deus (indecorosamente representado) por parte dos judeus, Mal Gibson apresenta, durante todo o longuíssimo filme, figuras de romanos grotescos, bêbados, selvagens, representantes de gente da pior espécie, que chicoteiam, cospem, esbofeteiam, ofendem, achincalham, ridicularizam e humilham o personagem-título. Ou seja, os incivilizados, bárbaros e desumanos que provocam reações nauseabundas nos milhares de espectadores de todo o mundo são os romanos, e não os judeus. O procurador romano, por exemplo, semelhante a um caricaturesco Mussolini, com pernas abertas e com uma expressão dramática propositadamente frágil e insegura, é um contraste marcante com o grupo composto pelo Sumo Sacerdote e seu séquito, o qual, sob ricas vestimentas, mantos e cetros, é apresentado de forma civilizada e imponente, apesar da indisfarçável hipocrisia e cinismo.

Então, caro leitor, cá entre nós, se lembrarmos de Cincinato, Cícero, Marco Aurélio, César e inúmeros expoentes da Justiça e do Direito, representantes da Roma que era considerada a eterna concepção do pensamento divino, não poderemos considerar os personagens romanos desfigurados pela ótica de Gibson senão como cômicos e ridículos, os quais induzem o espectador do degradante espetáculo a acreditar na versão apresentada.

Enfim, o objetivo da película é subliminarmente defender uma tese que contraria e tenta desmoralizar passagens marcantes e inesquecíveis do livro mais lido do planeta, considerado o mais venerado documento histórico-religioso, além de omitir trechos que por si, de tão reveladores, seriam capazes de impedir a farsa cinematográfica. O que facilmente se constata na mesma é uma descarada e perigosa tentativa de enjudaizar o Divino Mestre, que teve a coragem de se opor à mentira e à hipocrisia e entregar-se em holocausto enfrentando o sinédrio, o poder mais forte e fanático da época. Nesse sentido, considerar o Divino Mestre um judeu seria um dos maiores disparates já cometidos, uma vez que esta encarnação da Coragem e do Mistério representa um estado de espírito puro e elevado que não pode ser – como efetivamente não é – limitado a uma etnia, mas sim universal. Além disso, a trajetória deste Verdadeiro Homem veio marcada por contestações ao que era considerado na época crime capaz de conduzir à crucificação. Por exemplo:


Ressuscitar os mortos aos sábados.
Fazer ver aos cegos aos sábados.
Defender uma mulher adúltera dos que iriam apedrejá-la.
Ousar afirmar ser o Messias e Filho de Deus.
Transmitir a doutrina de um Deus único a todos os homens, independentemente de serem romanos, gregos ou egípcios.
Chamar de ninhada de víboras, mentirosos e filhos da
mentira os detentores do poder e da chave do cofre.


Só o fato de terem optado por um protagonista que não passa de uma figura ridícula e grotesca já é, por si só, mais que uma ofensa: é um acinte a quem sente verdadeiro respeito e afeição pelo Homem de Nazaré.

Cumpre, a bem da justiça, destacar dois personagens do filme. O primeiro, pela marcante interpretação do ator: trata-se de Herodes Antipas. Figura de tradicional família de políticos, cujo pai, um assassino contumaz, já havia convencido Marco Antônio a nomeá-lo “rei dos judeus”, deixou de herança a seu filho, pornográfico e macabro personagem, a coroa comprada desse Imperador, cravejada de rubis que pareciam verdadeiras gotas de sangue. Herodes, que era edumeu e judeu, conseguiu,embora não fosse nascido em Roma, obter o status de cidadão romano por meio de sua hereditária habilidade política. Se fôssemos comparar a desnaturada geração dos Herodes a alguma outra no mundo, só poderíamos encontrar similar grau de criminalidade na família daquele que se encontra hoje no comando do país que ultrapassa Roma no que nela havia de pior e fica muito aquém das qualidades daquela que se celebrizou pela arte e pela cultura. É difícil saber qual das duas matou mais criancinhas: os Herodes ou os Bushs.

Destacamos também a atriz que representa Maria. Esta, durante toda a trama, a tudo só observa, impassível, servindo de testemunha às nossas próprias observações, como quem diz: “Não posso me emocionar nem me envolver porque se trata de uma farsa”. E, misteriosamente, durante as penosas e quase intermináveis duas horas, praticamente não abre a boca a não ser para dizer: “Meu filho, eu estou aqui!” E tem-se a nítida impressão de que ela completa a frase dizendo: “Calma, tem paciência, daqui a pouco isso acaba, pois se trata apenas de quase um filme”.

Aliás, diga-se de passagem que quase um filme qualquer um pode fazer: basta ter dinheiro. Ou ainda, em outras palavras, com quaisquer milhões de dólares qualquer fariseu pode fazer qualquer porcaria.

E, finalmente, observa-se que o espectador sai do recinto impactado pelas exorbitantes cenas de violência e torrentes de sangue, e abandona a sala desnorteado. Ainda que tecendo alguns comentários, totalmente induzido pelo que já havia lido e ouvido na mídia do sistema, na verdade sente-se arrebatado por um profundo vazio... E então acontece o inimaginável: as pessoas saem da sala muito mais distantes de Jesus do que quando entraram.

Para finalizar, examinando bem, o equívoco já se inicia no próprio título do filme. Essa designação – Paixão de Cristo – é algo totalmente improcedente, um verdadeiro apodo para referir-se à Sagrada Via percorrida pelo Messias. O acontecimento que mudou o rumo da História, cuja força é sentida até hoje, e para sempre, é a ilustração iniciática mais enriquecedora de ensinamentos que existe. Oxalá um dia as pessoas que não se ativeram ainda a esta questão compreendam o mistério e a força da palavra e se sintam livres da influência frenético-fanática da paixão, para poderem então sentir a suave brisa do Amor de Cristo em seus corações. E que essa mesma brisa sopre silenciosamente alto nos ouvidos do “diretor” do “filme”, e que seu murmúrio se faça ouvir, atingindo a sua consciência: “Pai, perdoai-os porque eles não sabem o que fazem!”