Fundamentalismo democrático
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Fundamentalismo islâmico

 

 

Democracia: bela palavra que designa as aspirações mais elevadas do ser humano, como a fraternidade, a justiça e a liberdade! Mas não é preciso ser um grande observador para perceber que os regimes que se dizem democráticos estão longe de encontrar-se à altura de tão nobre significado, apresentando-se, a bem da verdade, como as mais contundentes manifestações de engodo político da história das civilizações.

São bem conhecidos os funestos efeitos da atuação de regimes despóticos como as monarquias absolutistas e as ditaduras. No século XX, as sociedades, já cansadas de sofrê-los, elegem a democracia como a melhor forma de governo. Mas este regime, paradoxalmente, terminou por revelar-se uma nova forma de ditadura. Muitos de seus representantes não têm hesitado em recorrer aos mais baixos subterfúgios – manipulando cordões, impondo condições e comprando votos – quando o que está em jogo é a conservação do poder.

Cruel e tirana como as mais opressoras formas de governo, essa pseudodemocracia, autora da maior parte dos bombardeios da História, peca ainda por lançar mão de um meticuloso disfarce com o qual submete as populações a terríveis pressões econômicas e as hipnotiza através da ação alienante de recursos como o álcool e a mídia. Será que essa opressão é melhor que a tirania declarada? Até que ponto é válido dizer que a democracia é menos opressora que a mais radical das ditaduras?

O recente atentado terrorista contra o Pentágono e o World Trade Center nos EUA ilustra a grande tensão que se criou entre a falsa democracia e essa outra forma de radicalismo que é o Fundamentalismo islâmico. Mas a História ensina que, apesar do que possam sugerir as aparências, as ideologias que se combatem são no fundo bastante semelhantes...

"Este é o castigo mais importante do culpado:
Nunca ser absolvido no tribunal de sua própria consciência"
Décimo Junio Juvenal, Sátiras, XIII, I

Democracia é coisa antiga, suas origens remontam à Grécia da Antigüidade1. E desde que surgiu, já expressava uma elevada aspiração, a de que o governo deveria ser “de todo o povo para o bem comum”.

A partir do século XVIII, época do Iluminismo, esse conceito é retomado e sintetizado numa nova definição, adotada pelo presidente dos EUA Abraham Lincoln em 1863 2. Segundo este presidente, um governo democrático seria um governo “do povo, pelo povo e para o povo”. Assim, a esperança para a realização dos mais nobres anseios humanos, como a liberdade, a justiça e a fraternidade, era facilmente associada à democracia. Esta palavra traduzia, pois, um ideal, e este ideal acabou adquirindo as características de uma crença que se propagou por toda a civilização do Ocidente. Acreditava-se piamente que, através de reformas políticas, seria possível compor um governo angelical verdadeiramente capaz de zelar pelo bem-comum. Tal crença transparece com nitidez na seguinte passagem da obra Modern Democracies, de James Bryce, renomado pensador irlandês do século XIX 3:

“O legislativo será composto de homens capazes e íntegros, pensando apenas em servir à nação. O suborno, a corrupção entre funcionários públicos terá desaparecido. Os líderes poderão nem sempre ser completamente impessoais, nem as assembléias sábias, nem os administradores eficientes, mas apesar disso haverá honestidade e zelo, de modo a prevalecer a atmosfera de confiança e boa vontade. A maior parte das causas de dissensão terminará, pois não haverá privilégios nem vantagens que excitem o ciúme. Os cargos serão ambicionados apenas por darem oportunidade de bem servir ao interesse público.” 4

Que triste surpresa teria Bryce se pudesse assistir agora ao resultado das experiências democráticas! Sua descrição só pode nos soar hoje como uma anedota irônica... Já não é segredo que, por baixo do verniz de sucesso, esconde-se uma verdadeira panela de pressão prestes a explodir a qualquer momento.

O “modelo” democrático norte-americano

O célebre documento da Declaração da Independência dos EUA, redigido por Thomas Jefferson em 1776 e baseado nas idéias de Rousseau (1712-1778) e Charles-Louis de Secondat, barão de Montesquieu (1689-1755), foi o ponto inicial da experiência das democracias modernas. Nele se inspiraram, em certa medida, a Revolução Francesa de 1789 5, as democracias européias e as constituições latino-americanas.

O início da Grande Democracia do Norte foi bastante festejado na Europa, e no mundo inteiro difundiu-se a idéia de que a experiência democrática nos Estados Unidos da América era um grande sucesso. O francês Alexis de Tocqueville, em seu clássico A democracia na América 6, descreve com entusiasmo essa experiência:

“O povo reina sobre o mundo político americano como Deus sobre o universo. É ele a causa e o fim de todas as coisas, tudo sai do seu seio, e tudo se absorve nele.”

Mas a verdade é que os EUA da época eram uma terra cheia de oportunidades e de oportunistas, que viam no mundo uma fonte infinita de recursos à disposição para satisfazer seus desejos. Eles tinham mesmo a quem puxar: a Inglaterra, seu país padrinho, com sua antiga vocação imperialista e “respeitável” tradição em pirataria, enriquecera a olhos vistos com a Revolução Industrial que começara naquele país a partir de 1700.

A nova classe burguesa industrial, que no século XVIII surgia na Europa, buscava o apoio do povo a fim de consolidar em suas mãos o poder político. E foi através do sedutor discurso sobre democracia, liberdade e justiça que ela finalmente conseguiu esse apoio. A Inglaterra e a Holanda, que lideraram a Revolução Industrial, foram os primeiros países europeus a adotar o regime democrático. Nascia assim o Capitalismo.

Na América, os verdadeiros interesses capitalistas escondidos por trás da fachada do ideal democrático não tardaram a transparecer. Na segunda metade do século XIX, a economia do país se expandiu. Concomitantemente, sua indústria conheceu um notável desenvolvimento acompanhado de uma crescente e abusiva concentração de capitais e recursos em poucas mãos 7. Diante disso, era de se esperar que o governo americano interviesse. E o que o governo da época fez, cedendo a pressões populares, foi declarar a Lei Antitruste, que exigia o fracionamento das grandes empresas com o intuito de evitar os monopólios. Mas essa lei foi facilmente burlada, pois nada impedia que, ainda que as empresas fossem divididas, os mesmos empresários de antes continuassem a possuir a maior parte das ações 8.

De modo que, assim nos EUA como na Europa, o Capitalismo, no teatro democrático, foi o ator que roubou a cena. Mais e mais dominada por valores materialistas e pelo grande capital, a sociedade norte-americana gradualmente vai então perdendo o seu referencial moral. Tanto é que, com o tempo, ela se tornou uma das mais injustas e violentas da História. As estatísticas mostram um claro aumento do índice de criminalidade nos EUA, refletido pelo aumento do número de pessoas presas, hoje três vezes maior que na década de 70. Esse aumento da criminalidade, por sua vez, reflete o agravamento do quadro de injustiça social: em 1979, 16.4% das crianças viviam em condições de pobreza; em 1998, eram já 19%. A desigualdade na divisão de renda é gritante: atualmente, 1% da população norte-americana detém o poder sobre uma fortuna maior que aquela que é compartilhada por 95% da população do país! 9

Essa situação, é claro, é incompatível com o ideal democrático de liberdade, igualdade e fraternidade proposto pela ascendente classe burguesa nos tempos da Revolução Francesa. O discurso democrático não passa hoje de um pretexto para fazer a apologia do american way of life, aquela forma de vida tecnologicamente bem arrumadinha da qual tanta publicidade se faz através da mídia em geral e por trás da qual se escondem as mais escabrosas negociações imperialistas, como, por exemplo, aquelas que são efetuadas nas reuniões do grupo Bilderberg, em que se traçam os destinos das populações mundiais 10. O que temos hoje de fato, com o triunfo global da ideologia dita neoliberal, é uma ditadura global de poderosos grupos econômicos.

Portanto, os resultados da experiência política da Grande Democracia do Norte ficaram muito aquém das expectativas de dois séculos atrás. Os Estados Unidos, embora detenham um know how tecnológico admirável, em grande medida herança da parte que lhes coube no espólio da Segunda Guerra, e embora contem com a vantagem de ser sustentados pelo fruto bilionário da extorsão a que submetem os países que dominam, ainda estão longe de ter conseguido desfrutar de uma forma de vida realmente justa e humana. O autor norte-americano Christopher Lasch, na introdução de sua obra O mal-estar democrático, desabafa:

“Os norte-americanos estão menos otimistas quanto ao futuro do que estavam antes, e com razão, tendo-se em vista o declínio das indústrias, com a conseqüente diminuição dos empregos; o encolhimento da classe média; o número cada vez maior de pessoas pobres; a ascensão do índice de criminalidade; o crescente tráfico de drogas; a decadência das cidades – e as notícias não param por aí. Ninguém tem uma solução plausível para esses problemas incuráveis, e quase tudo o que passa por discussão política sequer se refere a eles.”

Lasch não exagerou, conforme o atestam diversas estatísticas, inclusive oficiais. E, na verdade, não é preciso ser pesquisador para constatar quão indigente é a forma de viver norte-americana do ponto de vista do bom senso e da educação, entendida esta em seu mais amplo sentido. O país é um dos maiores campeões do planeta em índices de tabagismo, alcoolismo (incluindo-se, no caso deste segundo vício, grande número de mulheres e crianças), tráfico de drogas, obesidade (devido à alimentação excessiva e artificial), doenças cardíacas e câncer (decorrentes também, em grande parte, de problemas com a alimentação), ingestão abusiva de medicamentos, violência, criminalidade e número de presos.

Além disso, os norte-americanos são fortemente estimulados à prática do perdularismo, isto é, a consumir mais do que o necessário. Esse infeliz hábito os leva a desperdiçar aquilo que faz falta a nada menos que 90% dos habitantes do planeta, atitude que constitui uma verdadeira afronta a esta significativa parcela da população do mundo. Além disso, o consumo desenfreado de bens deriva daquela pretensiosa idéia – que lhes é inculcada desde a infância – de que pertencem à nação mais importante do mundo, diante da qual todas as demais nações devem obrigatoriamente se curvar.

Esse triste quadro reflete uma ideologia que privilegia a economia – ou o lucro – em detrimento dos valores do espírito humano. Grosseira evidência da disseminação dessa ideologia nos EUA é a inclusão da palavra Deus nas cédulas americanas de um dólar, nas quais, como se sabe, lê-se a sentença In God We Trust 11. Haverá retrato mais fiel de uma sociedade que, adotando como meta principal a especulação e a acumulação de capital, presta-se com tão grande ardor a um autêntico culto ao dinheiro?

Então, embora a sociedade norte-americana se declare predominantemente adepta do Protestantismo religioso, a verdade é que, conforme ilustrado por essas cédulas, ela trai os princípios cristãos, uma vez que contraria o ensinamento de dar “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, ou seja, de não misturar assuntos profanos com assuntos sagrados. E não é também de autoria norte-americana a conhecida sentença de que tempo é dinheiro, na qual essa lamentável mistura uma vez mais se verifica? Como igualar ambas as coisas se o tempo é expressão do sagrado atributo da vida, passagem a ser percorrida por todos os seres da natureza, e o dinheiro não passa de um instrumento de aquisição e venda de mercadorias? Descobre-se aqui, uma vez mais, a total falta de coerência das democracias de fachada.

Há quem se conforme com os problemas da democracia por considerar que, apesar de tudo, ela ainda continua a ser a menos ruim de todas as formas de governo. Sim, mas é inadmissível que um sistema injusto, por “menos ruim” que seja, pretenda servir de modelo a todas as nações do mundo! Com sua arrogância sem parâmetros, o sistema democrático norte-americano chega ao ponto de atribuir a si próprio o monopólio da liberdade, como se os EUA possuíssem os direitos autorais sobre o ideal de democracia.

As imitações do “modelo”

Na verdade, em quase todos os países em que o regime democrático foi implantado verificou-se um agravamento das injustiças sociais. A maior parte dos desvios que fazem parte da realidade dos Estados Unidos da América podem ser constatados também nos países latino-americanos democráticos, onde abundam empresários mercenários, juízes prevaricadores e políticos venais, sempre prontos a ser condecorados mas bem pouco dispostos ao trabalho. Seus discursos oficiais, palavras ocas sem quaisquer chances concretas de aplicação, não passam de recursos retóricos destinados a arrancar aplausos de audiências predispostas a uma exaltação momentânea. Nesses países, o que se observa é que a imitação, como é de praxe, ficou ainda pior que o original, tanto no aspecto social como no político.

Na segunda metade do século XX, diversas nações da América Latina ficaram oscilando entre dois aparentes opostos, a ditadura e a democracia liberal, numa contínua e por vezes violenta troca de governos. Quando a situação de um país governado ditatorialmente se tornava crítica, a democracia aparecia sempre como a iminente salvadora. Nesse sentido, os regimes ditatoriais foram criados para justificar a posterior implantação de democracias, ao gosto, é claro, dos interesses financeiros hegemônicos. Em outras palavras, criava-se a serpente para depois matá-la, para grande alívio do povo (que ignora o que ocorre nos bastidores) e para fazer o vilão passar então por herói.

Dentro desse contexto, merece especial destaque a atuação da School of the Americas (SOA), em Fort Benning, Georgia, rebatizada em 2001 como o Western Hemisphere Institute for Security Cooperation. Desde 1946, sessenta mil militares e policiais latino-americanos passaram por essa escola. Sua relação de ex-alunos inclui quase que a totalidade dos ditadores, torturadores e assassinos de opositores dos tempos mais negros das ditaduras na América Latina (alguns dos quais causaram inclusive o genocídio de indígenas12): Roberto Viola e Leopoldo Galtieri (Argentina), Manuel Noriega e Omar Torrijos (Panamá), Juan Velasco Alvarado (Peru), Guillermo Rodriguez (Equador) e inúmeros outros. Os atuais alunos da SOA estão na Colômbia comandando grupos paramilitares de direita e envolvidos em seqüestros, assassinatos e massacres.

A FBI define o terrorismo como “atos violentos com o objetivo de intimidar ou coagir a população civil, influenciar as políticas de um governo ou alterar a conduta de um governante”. Ora, essa é uma descrição precisa das atividades dos formados pela SOA! Em 1996, o governo americano foi forçado a divulgar o conteúdo de sete manuais de treinamento dessa escola. Chantagem, tortura, assassinato e seqüestro de parentes de testemunhas se revelaram então algumas das “disciplinas” cobertas em suas aulas.13

Portanto, não é preciso fazer grandes esforços para perceber que, na verdade, democracia de fato é coisa que nossa civilização ainda não teve a graça de conhecer. O que se tem testemunhado, sobretudo nos séculos mais recentes, é apenas o uso indevido da palavra democracia, a exploração de seu rico significado (que é capaz de expressar os mais nobres e elevados ideais humanos), no intuito de mais facilmente manipular a opinião pública e obter assim vantagens diversas.

A ditadura do sufrágio

A pseudodemocracia atual, que pretende descender diretamente da definição de Lincoln de um governo do povo, pelo povo e para o povo, adota como princípio básico a adesão ao sufrágio universal. Essa adesão, como se sabe, é justificada sob a alegação de que, através do voto, o povo poderia escolher seus governantes e ter assim um maior controle sobre os assuntos que lhe dizem respeito. O argumento mais insistentemente apregoado pelos defensores do regime democrático é o do direito à liberdade. E essa liberdade, explicam, se legitimaria, principalmente, pelo direito ao voto. Aliás, segundo eles, nada é mais democrático que isso.

Mas, considere-se: e a não votar, o cidadão tem direito? Ele é livre para não ir votar? Nem sempre. Em muitos países, principalmente na América Latina, a obrigatoriedade do voto ainda prevalece.

Ora, obrigar as pessoas a comparecer às urnas – mesmo que seja para anular seu voto ou deixá-lo em branco – é tão democrático quanto proibi-las de fazê-lo; e é tão democrático, ainda, quanto, por exemplo, obrigar os cidadãos do sexo masculino a cumprir o serviço militar. E aqueles que decidem que o voto é obrigatório são, em última instância, os próprios políticos, que dependem do voto para assumir o poder e temem um boicote coletivo nos dias de eleição.

E haverá acaso algo menos democrático que a forma como os candidatos são selecionados? Eles são escolhidos por seus respectivos partidos e se assemelham entre si como os integrantes de um time de futebol, que só se distinguem uns dos outros pelos números de suas camisas. E depois que um candidato imposto é eleito, criam-se leis para garantir seu poder de ação.

 

 

Por outro lado, aqueles que são eleitos pelo povo são políticos profissionais que para conseguirem seus cargos fazem inúmeras concessões. Agrupados em partidos, despejam sobre o eleitorado sofismas populistas no intuito apenas de conquistar o maior número de votos, provando ser verdadeira aquela afirmação do general Perón de que a política é a arte da hipocrisia, proferida por ele, com hombridade, num rompante de indignação e autocrítica. Grupos de interesse, sejam religiosos, sindicais ou outros, comprometem-se a votar “em bloco” em troca de que seus interesses sejam servidos. Mas um governante que se elegeu vendendo seus ideais (supondo-se que os tivesse) não é livre para realizá-los. E se ficou algum na vitrine, este, certamente, será vendido às elites econômicas, que têm por hábito subornar os governos, sejam eles do partido que forem, para que não lhes venham a criar problemas.

Dentro desse triste contexto, a vontade do povo, entendida, tal como o postulam alguns teóricos, como um vivo e ativo interesse no bem comum, desapareceu. Ela foi substituída pela tolerância da mentira e da corrupção dos governos. O povo parece ter sido forçado a acreditar que, tolerando as constantes humilhações sofridas e contentando-se com as migalhas do tesouro da nação que lhe chegam às mãos, está cumprindo um dever civil exigido pelo espírito democrático e obtendo ainda a “vantagem” de uma vida pacífica, sem sobressaltos. E, assim, tudo permite, desde que possa continuar votando. Afinal, errarum humanus est, e todos, eleitores e eleitos, têm lá suas fraquezas. E a falcatrua de cada indivíduo termina onde começa a do outro...


Pseudo-liberdade: pior que escravidão

“Vive-se hoje muito depressa; vive-se de uma maneira muito
irresponsável, e exatamente a isso se chama liberdade.”
Nietzsche


O fato é que, pela forma infeliz como tem sido colocada em prática, a democracia se viu rebaixada à categoria de um sistema macabro a serviço da alienação e do embrutecimento dos seres humanos. O principal instrumento desse sistema é a mídia: sob o pretexto de dinamizar a comunicação entre os cidadãos e de possibilitar-lhes o acesso a variadas fontes de informação, os governos estimularam o desenvolvimento dos meios de comunicação em massa e os colocaram em mãos de monopólios de duvidosa reputação14. Foi o que bastou para que os meios de difusão começassem a impor modas e modos representantes da ideologia do sucesso fácil e do prazer imediato. Fez-se a apologia da promiscuidade e da violência, e difundiu-se assim a idéia equívoca de que liberdade e licenciosidade são a mesma coisa.

A partir dessa imposição, desencadeou-se um processo de idiotização das massas: a opinião pública, “amparada” agora pelos meios de comunicação, tornava-se mais manipulável que nunca, e não faltou quem tirasse partido da situação. Simulou-se um sério compromisso com a verdade e a liberdade a ponto de se ter permitido nas telas de TV a exibição de verdadeiros capachos fantasiados de críticos, os quais gesticulam e falam como se fossem grandes opositores do sistema. Bem observadas, entretanto, suas críticas se revelam superficiais e até infantis, e nunca são acompanhadas de qualquer providência efetiva no sentido de combater os problemas apontados. Por outro lado, doenças sociais como a prostituição e a corrupção são não apenas toleradas mas também organizadas pela maioria dos governos democráticos, e a mídia se encarrega de vender a imagem de que ambas são normais e inevitáveis nas sociedades humanas. Na TV, o bombardeio de anúncios publicitários e dogmas implícitos é tão intenso que o telespectador dificilmente consegue manter sua individualidade, e a população, atordoada, acaba rendendo-se às idéias que através dela lhe são sub-repticiamente inculcadas.

E ai de quem ousar questionar as ideologias implícitas nos programas de TV ou as normas que subjazem a essa sociedade manipulada: correrá sério risco de ser tachado de antidemocrático e fascista, ou até mesmo de perder o emprego! Portanto, os que vivem nos regimes democráticos, por mais que se considerem livres, não o são. E tal situação é pior que a da falta de liberdade declarada. Sendo a liberdade uma aspiração do homem, existe dentro dele uma força que o impulsiona a conquistá-la, e por isso, quando ele se sabe escravo, luta para libertar-se. Mas se uma pessoa é escravizada e enganada a ponto de se julgar livre, por que haveria de lutar?

A grande incoerência democrática manifesta-se, sobretudo, na forma como os EUA se relacionam com as demais nações. Embora se autodenominem o mais democrata de todos os países, os Estados Unidos da América orgulham-se (sic!) de ter o maior e mais poderoso arsenal bélico do mundo. Campeões absolutos em matéria de bombardeios, têm atacado todos os povos que ousaram pôr em risco sua supremacia econômica e poder político, e atingiram o ápice da desumanidade e da contradição bombardeando até mesmo países na miséria.15

Além disso, as elites financeiras, em grande parte sediadas nos EUA e com a cumplicidade do governo norte-americano, sufocam diversos países através dos juros exorbitantes e outras formas de pressão econômica aos quais os submetem, recursos que configuram uma verdadeira guerra econômica. E a guerra econômica é bastante favorável a qualquer governo mal intencionado, porque, ao contrário do que acontece nos conflitos armados, não dá lugar a uma violência declarada, além de evitar os inconvenientes gastos com a manutenção de exércitos. Por outro lado, os EUA conseguem ainda impedir, por meio desse tipo de guerra, que seus subordinados reflitam sobre o que está acontecendo à sua volta, dado que a situação de opressão que estes vivem não lhes permite ocupar-se senão com a própria subsistência.16

Essa tendência dos governos democráticos a repetir os mesmos erros que condenaram em seus oponentes, procurando disfarçá-los depois sob o manto da benevolência, não é exclusividade da democracia, mas caracteriza as ideologias em geral. Outro caso de espelhamento entre ideologias opostas foi retratado pelo escritor inglês George Orwell (1903-1950) em A Revolução dos Bichos (Animal’s Farm). Nessa obra, os animais de uma fazenda, indignados contra o tratamento recebido dos homens, planejam livrar-se deles e constituir uma nova sociedade em que só os bichos reinassem soberanos, zelando pela liberdade, justiça e harmonia. Por fim, expulsam os fazendeiros do local. Mas o alívio dura pouco: os porcos acabam conseguindo convencer o grupo de que são os únicos suficientemente aptos a governar a fazenda e, a partir de então, usando de uma série de artimanhas para fazer-se passar por justos, começam paulatinamente a instituir um regime que cada vez se assemelha mais ao anterior. No final da história, os porcos se parecem tanto a seus antigos opressores que já andam em duas patas, e os demais bichos, que vivem momentos de verdadeiro terror sob seu domínio, sequer conseguem saber quem é quem: se os porcos são homens ou se os homens são porcos.

Por meio dessa inteligente alegoria, Orwell tinha em vista atacar o Stalinismo, ideologia comunista que, como se sabe, foi desenvolvida e aplicada na Rússia em princípios do século XX. Os stalinistas lograram derrubar o regime czarista da Rússia prometendo às massas uma maior justiça social. Uma vez no poder, porém, o governo stalinista não tardou a ensangüentar a nação, exterminando um número de pessoas como nunca se havia visto na História. Mas a obra A Revolução dos Bichos, mais do que uma crítica a um regime específico, vale como alerta sobre o perigo das ideologias, além de mostrar que duas correntes inimigas podem ser no fundo praticamente iguais.

O poder é a droga

Outra forma de idiotização bastante comum nos regimes democráticos é aquela que se dá através das drogas. Eis aí uma tática perversa: por meio delas, consegue-se afetar, em especial, o impetuoso potencial de contestação que é próprio da adolescência e juventude, já que grande parte dos usuários de drogas encontram-se, justamente, nessa faixa etária. De fato, a droga é uma das mais eficazes armas contra os possíveis questionamentos por parte da juventude em relação ao sistema social, e funciona como grande trunfo no sentido de minar seus princípios morais e sua dignidade, uma vez que torna as pessoas passivas, apáticas e predispostas aos mais baixos tipos de sedução. Estimula-se, por exemplo, a cumplicidade promíscua e inescrupulosa, capaz de transformar um humano num mero boneco de carne, totalmente desprovido de vontade própria. Quanto ao consumo de narcóticos por pessoas mais maduras, principalmente por aquelas que ocupam cargos públicos, o que se visa é torná-las vulneráveis e, portanto, passíveis de serem chantageadas.

O uso de drogas, ao contrário do que se costuma alegar, é incentivado pelos governos, tanto é que estes permitem a realização de intensa propaganda para o consumo de tabaco e álcool. E a tolerância em relação a elas não abrange apenas as que são legalizadas, mas inclui também as ilegais. O governo norte-americano fornece aos governos de países produtores de entorpecentes (como, por exemplo, o México e a Colômbia) que conseguem cumprir determinados requisitos no combate ao narcotráfico um certificado que lhes permite receber, junto a instituições financeiras, verbas destinadas a reforçar esse combate. Mas, na realidade, tudo não passa de um esquema destinado a sugerir que os EUA seriam fiéis defensores da moral e dos bons costumes.

A grande verdade sobre essa luta contra as drogas que é fomentada pelo governo dos EUA é que por meio dela procura-se combater apenas o tráfico em âmbito doméstico nacional, ou seja, deixa-se de lado aquilo que mais interessa combater: a rede internacional de narcotráfico. Por isso mesmo é que, até hoje, ainda não se pegou nenhum “tubarão”, mas apenas peixes pequenos. Entretanto, qualquer pessoa com um mínimo de visão percebe que a cúpula do tráfico de drogas não são os “Pablo Escobares” da vida nem tampouco os “Comandos Vermelhos”, os quais, na verdade, não passam de micróbios diante da gigantesca rede internacional que permanece ainda incólume. E se ela permanece assim é porque conta com o apoio e com recursos de poderes que se mantêm fora do alcance da lei. É sabido que existem fortes indícios (dentre os quais, inclusive, depoimentos) de que a própria CIA estaria envolvida em operações internacionais de tráfico de entorpecentes. O dinheiro assim arrecadado teria sido usado, com o conhecimento de funcionários de altos cargos do governo americano, para financiar ações terroristas que estivessem de acordo com os interesses desse governo17.

A receita do narcotráfico é uma das maiores que existem. Poucas outras atividades no globo movimentam um montante de dinheiro tão significativo quanto aquele que é gerado pela comercialização de drogas. A ONU estima que há no mundo mais de cinqüenta milhões de pessoas que usam regularmente heroína, cocaína e drogas sintéticas. Outros milhões estariam envolvidos nas atividades de produção e tráfico dessas drogas. A organização que move o narcotráfico internacional, alimentada por acordos internacionais de livre comércio, possui dimensões comparáveis à das maiores multinacionais18. Mas a parte do leão é embolsada pelos EUA, que transformaram a narco-economia no seu mais importante setor, enquanto que os países produtores de matérias-primas, os do “terceiro mundo”, ficam com as menores fatias do bolo e ainda na mão dos grandes traficantes. A indústria norte-americana de drogas movimenta entre 750 bilhões e um trilhão de dólares ao ano, produzindo o maior lucro que já se viu no mundo: 3.000%! O consumo de cocaína nesse país chega a 240 toneladas por ano.

O negócio começa nos países semi-coloniais, que entram com a produção (Colômbia, Peru e Bolívia no caso da folha de coca e Afeganistão no caso da papoula, por exemplo), fruto do trabalho de milhões de camponeses que vendem o quilo da matéria prima por alguns poucos dólares. Numa segunda etapa, os narcotraficantes latino-americanos processam a matéria-prima, transformando-a na droga tal como é consumida, a qual vendem já por alguns milhares de dólares. A terceira etapa está nas mãos dos distribuidores nos grandes centros de consumo – principalmente nos EUA, que consomem 240 toneladas de cocaína por ano, e na Europa – e é controlada por uma máfia internacional nunca perseguida nem denunciada. Aquilo que essa máfia lucra é depois dividido com os grandes bancos internacionais que fazem a lavagem dos narco-dólares, transformando-os em capital financeiro, principalmente especulativo, o qual voa pelo mundo afora em prol da globalização.

O pretenso combate ao tráfico de drogas pelos EUA utiliza o chavão do perigo do narcotráfico apenas para justificar sua crescente intervenção nas forças de segurança de outros países. Por detrás dessa máscara insinua-se a penetração de militares norte-americanos em toda a América Latina e outras partes do mundo, os quais se colocam a serviço da manutenção do controle econômico e político das nações em que se infiltram.

Na época da invasão da URSS no Afeganistão, os EUA vendiam armas a grupos afegãos de resistência que lutavam para expulsar os russos19. A moeda corrente na compra de armas era então o ópio. Sua produção nesse país correspondia a 75% da produção mundial. Em 2000, quando o Afeganistão passou a ser controlado pelo Taleban, proibiu-se em território afegão o cultivo da papoula, porque o comércio da droga era contrário aos rígidos princípios religiosos desse grupo20. Segundo fazendeiros afegãos, o mullah Omar enviava helicópteros às áreas de plantação de papoulas para arrasá-las através de explosivos. Assim, até 2001, o Taleban havia conseguido reduzir em 95% a produção do ópio no território controlado pelo regime. E, em decorrência disso, houve uma redução de 95% nos lucros auferidos pelos caputs do narcotráfico internacional, o que, com certeza, os levou a derrubar o governo dos mullah e colocar em seu lugar o grupo político Aliança do Norte, cuja principal atividade sempre fôra o cultivo da papoula.

LIBERDADE DEMOCRÁTICA: UM HIPOPÓTAMO METAFÍSICO

Alegar que a tão apregoada liberdade democrática existe é fazer como aquele homem que, certa vez, decidiu advertir outro a respeito de um fato singular: um hipopótamo, sem qualquer cerimônia, acabava de invadir-lhe os aposentos. Este, incrédulo, retrucou:
– Como assim? Um hipopótamo no meu quarto? Mas isso é um completo disparate!
– Por que um disparate?
– Simplesmente porque no meu quarto não vejo hipopótamo algum!
– Bem – replicou o primeiro – trata-se de um hipopótamo invisível, mas nem por isso menos real...
– O quê? Um hipopótamo invisível, mas real? E como entra semelhante paquiderme em meu quarto e eu não tropeço nele?
– Permita-me esclarecer-lhe que não estamos falando de um hipopótamo vulgar, mas de um que é invisível e impalpável. Ele atravessa as paredes e, portanto, não se pode tocá-lo.
– Mesmo assim! Meu cachorro o ouviria e sentiria seu cheiro...
– Ele tampouco produz ruídos ou desprende cheiro. Além de invisível e impalpável, é inaudível e inodoro. E digo-lhe mais: esse hipopótamo não apresenta massa nem energia, e sua presença não pode ser detectada sequer pelos mais sofisticados instrumentos de laboratório.
– Mas, afinal, que hipopótamo é esse?
– Ora, é um hipopótamo metafísico...

Quantidade em detrimento da qualidade

O processo de degeneração social, moral e cultural sofrido pelos povos de países democráticos está vinculado à opção por favorecer a quantidade em detrimento da qualidade. Observe-se o que ocorre no plano social. A lei que determina que a escolha dos governantes compete à maioria define que cada homem vale um voto. E, para justificar essa norma, estabeleceu-se o axioma de que todos os homens são iguais. Mas a realidade demonstra que não existem dois homens iguais, e então, a fim de forçar esse nivelamento, despojou-se cada homem de todo o seu “conteúdo qualitativo”, esvaziando-o completamente até que se visse reduzido, simplesmente, a um número. Surgiu assim o homem medido e numerado, o animal eleitoral, o animal de rebanho de que falava Nietzsche. Nesse sentido, o ato de votar tem um lado que depõe contra a dignidade humana.

Além disso, ao mesmo tempo em que se tenta fazer o povo engolir o sapo de que todos os homens são iguais, ele é obrigado a conviver com condições absolutamente desiguais, e a maioria ainda está longe de se dar conta do veneno hipnótico que essa frase mágica destila. E que dizer do fato de que, nas democracias, a maioria escolha a minoria? Com esse procedimento, pretende-se que a quantidade eleja a qualidade, o que, evidentemente, é uma grande insensatez. Pois, se a quantidade (representada pela base da pirâmide social) elegesse a qualidade (pico dessa pirâmide), a qualidade tornar-se-ia então fruto da quantidade. Mas quantidade nunca foi e nunca será garantia de qualidade, e o povo é um rebanho sem pastor, desprovido das mínimas condições para escolher. Sendo assim, os eleitos pela quantidade não podem ter qualidade, e tudo não passa mesmo de uma grande farsa.

O terrorismo democrático

Ao longo da História, grandes povos sempre oprimiram os pequenos. Atualmente, algo bem diferente acontece: pequenos grupos aterrorizam os grandes povos. Assim, os brancos norte-americanos têm medo dos negros, os negros dos porto-riquenhos, os judeus dos palestinos, os árabes dos judeus, os sérvios dos albaneses, os chineses dos vietnamitas, os ingleses dos irlandeses... Não são mais as minorias que vivem no terror. Quem vive assim, agora, é a maior parte da população do mundo.

O século XX assistiu à proliferação dos assim chamados regimes democráticos. Lado a lado com esse processo, observou-se ainda, no mesmo século, um segundo fenômeno: o do surgimento de um terrorismo organizado, com um grau de sofisticação nunca antes visto. Esses dois fenômenos estão relacionados: o grande atentado terrorista de setembro de 2001, que fez cair por terra o World Trade Center, centro do Capitalismo mundial localizado no país que se autodenomina a maior democracia do mundo, é um símbolo histórico disso.

O terrorismo é uma reação desumana e covarde diante da injustiça. Quanto maior a injustiça, maior o terrorismo por ela gerado. Há inúmeras ilustrações disto na História contemporânea. As sangrentas revoluções francesa e soviética, por exemplo, apoiaram-se na revolta popular contra sua situação de opressão e acabaram levando à implantação de regimes dispostos a praticar ações terroristas para manter-se no poder. Na América Latina, as infames tiranias das ditaduras dos anos 60 e 70, como a de Somoza, que tratava a Nicarágua como se fosse sua fazenda particular, é que induziram a uma forte adesão da população ao terrorismo.

É claro que um ato de violência não pode justificar novos atos de violência, mas o fato é que exploração tem limite. Um pai que não tem leite para dar aos filhos é um revoltado em potencial. Um homem desesperado é uma besta, pois o desespero afeta sua estrutura pessoal. E quanto mais os métodos de coação se tornam sutis e abusivos, levando as populações a sentir-se violentadas e impotentes, maior é o risco de que alguns acabem insurgindo-se contra essa violência disfarçada através do terrorismo.

Vemos então que, contrariamente ao que determinados discursos (como o do próprio George W. Bush) pretendem nos fazer acreditar, a democracia por si só não é, nem pode ser, um remédio contra o terrorismo. E os EUA poderão sofrer novas conseqüências de sua política opressiva caso insistam em mantê-la, cobrando juros que impedem os países de se desenvolverem normalmente e de terem vida própria. Democracia, no verdadeiro sentido do termo, é a realização da aspiração humana de ter o direito de alimentar-se, vestir-se e ter moradia digna, de ter uma vida saudável, de escolher o que se vai comer e aquilo que se vai ler. E recorrer ao discurso democrático de liberdade para justificar a prática da opressão é o ato mais criminoso e terrorista que pode haver.

Se ao invés de terem adotado uma política prepotente os pseudo-representantes do povo americano tivessem tido alguma sensibilidade diante do sofrimento por eles infligido a grande parte do mundo, se não tivessem sido arrogantes a ponto de supor que ficariam livres de ter que colher um dia aquilo que semearam, teriam economizado cerca de um trilhão de dólares, valor equivalente ao dos prejuízos resultantes dos atentados de setembro de 2001. Dessa forma, teriam demonstrado maior inteligência e proporcionado ainda algum conforto à maioria dos habitantes do planeta, os quais se encontram sufocados pelo exacerbado materialismo e egoísmo com que, um após o outro, os governos norte-americanos têm agido.

O Governo do rabo

 

 

Quando a baixa compreensão chega ao governo, acontece então como na história da cauda e da cabeça da serpente.

A cauda da serpente havia seguido por muito tempo a direção da cabeça, e tudo estava bem. Um dia, a cauda começou a estar descontente com este arranjo da natureza e dirigiu-se à cabeça nos seguintes termos:

– Há muito tempo que observo com indignação o teu injusto procedimento. Em todas as nossas viagens és tu que tomas a dianteira, enquanto eu, como um criado servil, sou obrigada a seguir-te. Apareces primeiro em toda parte, mas eu, qual escravo miserável, tenho que ficar atrás. Isto é justo? É direito que seja assim? Acaso não somos membros do mesmo corpo? Por que não poderei dirigi-lo tão bem como tu?

– Tu –exclamou a cabeça– tu, rabo estúpido, queres dirigir o corpo? Mas se não tens olhos para ver o perigo, nem ouvidos para te avisarem dele ou cérebro para saber evitá-lo. Não compreendes que é para tua vantagem, e do corpo todo, que eu dirijo e guio?

– Para minha vantagem??!! Eis aí o discurso de todos os usurpadores: sempre pretendendo reger para bem de seus servos! Mas eu não me submeterei por mais tempo a semelhante estado de coisas. Insisto em tomar a dianteira!

– Pois bem –replicou a cabeça– assim seja. Guia tu.

A cauda regozijou-se e tomou a dianteira. Uma vez na direção do corpo, sua primeira façanha foi arrastá-lo para uma fossa de lodo. A situação não era das mais agradáveis. Ela lutou muito, andou às apalpadelas e, com grande esforço, finalmente conseguiu sair. O corpo todo ficou coberto de imundícies e lama.

A segunda façanha da cauda foi dirigir-se a um espinheiro, onde o corpo inteiro se embaraçou. A dor foi intensa e muitos foram os ferimentos. Quanto mais a cauda se debatia, mais o corpo acabava se ferindo. E aqui teria acabado a miserável existência da cauda, assim como a da cabeça e do resto do corpo, se a cabeça não tivesse tomado a iniciativa de livrar a todos de tão perigosa situação.

Não contente, a cauda ainda teimou em levar a dianteira. Continuou a marchar... Porém, quis o acaso que entrasse numa fornalha acesa. Bem depressa, começou a sentir os dolorosos efeitos do elemento destrutivo. O corpo inteiro ficou abrasado. Foi um lance terrível. A cabeça, uma vez mais, apressou-se em intervir, concedendo à cauda seu auxílio amigável. Mas, ai dela! Era tarde demais: a cauda estava consumida... O fogo, sem demora, atingiu então as partes vitais do corpo, que foi destruído, tendo sido a cabeça arrastada na ruína total.

Qual foi a causa da destruição do corpo? Pois não foi o ter sido guiado pela cauda estúpida? Tal será o destino de uma sociedade que se permita guiar pelo peso morto da quantidade ao invés de pela qualidade de uma elite. Não de uma elite econômica, mas espiritual.

 


Fundamentalismo Islâmico
X
Fundamentalismo Democrático

O conceito de Fundamentalismo, em princípio, abrange qualquer corrente ou movimento de cunho conservador que divirja do sistema (normalmente religioso) a que pertence por apregoar a obediência rigorosa e irrestrita ao seu conjunto de fundamentos ou princípios básicos. Porém, na prática, o Fundamentalismo acaba se tornando uma corrente extremada e fanática que, deixando de respeitar a livre e espontânea vontade de cada um, rejeita de forma veemente qualquer tipo de visão que não seja a sua. Trata-se, em suma, de uma postura de intolerância extrema: os fundamentalistas, para alcançar seus objetivos, podem chegar à violência e utilizar-se de diversos tipos de coação.

O Fundamentalismo islâmico nasceu como uma tentativa de resgatar as raízes e os fundamentos da religião contidos no Corão. Após a perda de territórios da Palestina, Egito, Síria e Jordânia para Israel na guerra de 1967, o movimento revestiu-se de novas conotações. Enquanto Maomé esteve presente, ele uniu os nômades e elevou o mundo árabe a um nível de civilização e dignidade moral jamais alcançado por esse povo. Porém, após sua morte, que deu lugar a inúmeras cisões, o Corão começou a ser interpretado ao pé da letra, gerando-se assim uma série de conflitos e complicações.

Um dos aiatolás que lançaram as bases da revolução fundamentalista islâmica que derrotou o regime do xá Reza Pahlevi evidenciou ao mundo a intolerância desse movimento quando afirmou:

“Aqueles que ignoram tudo sobre o Islã pretendem que ele recomende não fazer a guerra. São insensatos. O Islã manda matar todos os infiéis da mesma maneira que eles nos matariam.”

Mas o Fundamentalismo religioso, essa excrescência fanática que, buscando zelar pelos princípios de uma religião, acaba traindo esses mesmos princípios, não é exclusividade do Islamismo. Veja-se, por exemplo, o caso daqueles que na Idade Média se diziam representantes do Cristo. É bem sabido que, atendo-se antes à letra morta que ao espírito vivificante, eles acabaram cometendo grande número de desatinos totalmente incompatíveis com a essência dos ensinamentos cristãos. E tais desatinos permitem classificá-los, igualmente, como fundamentalistas. Também entre judeus há Fundamentalismo religioso, cujas manifestações violentas em Israel são bem conhecidas.21

Fundamentalistas são, também, muitos regimes políticos, dentre os quais os democráticos e, sobretudo, o norte-americano. Já dissemos antes que democracia de fato é coisa que nunca existiu, porque os regimes que se dizem democráticos são na verdade formas veladas de ditadura. Acrescente-se aqui, então, que em lugar de democracia o que existe hoje é, apenas, um Fundamentalismo democrático.

À primeira vista, a democracia ianque parece não ter nada em comum com o radicalismo de grupos islâmicos fundamentalistas como o Taleban, que controlou o Afeganistão de 1996 até o final de 2001 e que ela combateu duramente e acabou por derrubar dois meses após os ataques de setembro de 2001. Entretanto, o fato é que, sob vários aspectos, assemelha-se a ele muito mais do que gostaria de admitir. Ambos coincidem, em primeiro lugar, naquilo que caracteriza todas as formas de Fundamentalismo: a traição aos próprios princípios. O Fundamentalismo democrático, apoiado na crença da superioridade absoluta de sua concepção de mundo, alimenta em relação a qualquer forma alternativa uma mal disfarçada intolerância que o levou a distanciar-se de seus objetivos iniciais: a conquista de liberdade e justiça para todos. E o Fundamentalismo islâmico do Taleban, por sua vez, afastou-se de seu objetivo religioso – o de resgatar os preciosos fundamentos do Islã – para tornar-se uma entidade política que, longe de proporcionar aos afegãos uma vida melhor, criou-lhes inúmeros problemas.

George Bush no muro das lamentações
rezando para que seu filho
George W. Bush siga a sua carreira

 

Político profissional

"Loiro alto, vesgo, bonito sensual
Talvez eu seja a solução de seu problema
Ambicioso, a nível mundial
Demagogo e artificial
Inteligente e à disposição
Prum relacionamento íntimo e discreto
Realize, seu sonho eleitoral
Pra qualquer tipo de Convenção
Sem compromisso de tipo moral
Só financeiro
E o endereço para comunicação
É a caixa do diretório tal
Do político profissional
Favores sem preconceito
Sigilo total
Amplexo total
Político Profisional..."

Mohammed Omar
1989 - Kandahar

 

Líder político e religioso

Líder do grupo Taleban, Mohammed Omar residiu em Kandahar até a época dos bombardeios norte-americanos. De sua casa, que, segundo consta, foi presente de seu genro, Osama Bin Laden, Omar comandava todas as operações do grupo. Figura polêmica, evita aparecer em público e não se deixa fotografar. A foto acima foi tirada em 1989. Sabe-se que ele tem hoje cerca de 45 anos e que, nos anos 80, perdeu o olho direito em combate. Avesso a todo tipo de cultura ocidental, tomou medidas drásticas para preservar a tradição moral do afegãos. Até a invasão americana, Mohammed Omar conseguiu controlar 95% do território Afegão além de ter organizado milhares de madrassas (escolas religiosas).

As semelhanças, porém, não param por aí. Eis, aqui, outros pontos de contato:

1) Uso de violência

A segunda grande semelhança, e a que mais salta aos olhos, é, sem dúvida, a do recurso à violência, contra civis inclusive. A mais recorrente forma de violência norte-americana é aquela que se dá através de bombas, bastante conhecida no mundo inteiro, e já mencionada nas páginas anteriores. Quanto à perpetrada pelo Fundamentalismo islâmico, usada em defesa de interesses não apenas políticos mas também religiosos, cabe dizer que pode ser representada pela atuação do grupo terrorista Al Qaeda.

O Al Qaeda, que, segundo se crê, realizou os ataques em Washington e Nova Iorque, foi fundado em 1989 por Osama Bin Laden para expulsar os norte-americanos da Arábia e da Somália. Estendeu seu combate a todos os governos não islâmicos ou aliados de Israel. Foi autor, também, do atentado à embaixada norte-americana no Quênia (213 mortos). O mullah Mohammed Omar, líder do Taleban, abrigou o Al Qaeda de Bin Laden, seu genro, e instituiu em seu país, o Afeganistão, as práticas de amputação de membros e execução de criminosos, as quais se tornaram procedimentos de rotina.

A morte de civis em guerra não é encarada pelos seguidores dessas duas ideologias como crime, mas como uma simples fatalidade. Em ambos os casos, o que se observa é a imposição dos próprios interesses a qualquer preço. No caso dos EUA, há também, como já dissemos, a imposição por meios sutis, o que não quer dizer que os governos desse país titubeiem quando eles não parecem prometer sucesso.

2) Supervalorização do supérfluo

Não é novidade que a cultura democrática norte-americana, com seu exacerbado materialismo e consumismo, tende a supervalorizar o supérfluo em detrimento do essencial. Mas, e que dizer dos talebans, inflexíveis em relação à obrigatoriedade do uso de barba pelos homens e do xador (túnica e véu) pelas mulheres, assim como no que se refere à proibição de ouvir músicas que não as marciais e religiosas por eles autorizadas? E acaso proibir as mulheres de ser atendidas por médicos do sexo masculino, arriscando assim suas vidas, não era, igualmente, supervalorizar o secundário em detrimento do essencial?

3) Tendência aos extremos no âmbito moral

A bem conhecida permissividade moral e sexual que vigora nas culturas democráticas – e, sobretudo, na norte-americana – é tão extrema quanto a repressão taleban com todas as suas restrições impostas ao sexo feminino. Neste ponto, a semelhança reside no extremismo, pois ambas as ideologias, cada qual à sua maneira, pecam pelo exagero. O contraste é surpreendente. Os EUA vêem minorias sexuais clamarem abertamente por seus direitos, a promiscuidade sendo encarada com “naturalidade”, a indústria do sexo sendo explorada até os últimos limites e as mulheres atuando no campo de trabalho tão intensivamente quanto os homens (em muitas famílias americanas é comum, inclusive, que a mulher saia para trabalhar enquanto o marido cuida da casa). Já no Afeganistão, até a queda do Taleban, as mulheres, além de não poderem exibir em público o rosto ou qualquer parte do corpo nem tampouco ser atendidas por médicos do sexo masculino, eram proibidas até mesmo de estudar e trabalhar fora do lar (se pudessem formar-se médicas, poderiam tratar umas às outras e não ficariam sem atendimento). Tanto num caso como no outro, o que se tem é um grande distanciamento em relação àquilo que constitui um dos maiores desafios humanos: o ponto de equilíbrio. Sabe-se que grande é a tendência do ser humano a resvalar para os extremos. Então, não é de estranhar que cada uma dessas duas formas de Fundamentalismo tenha se mostrado tão violenta, já que uma das manifestações mais freqüentes do desequilíbrio é a violência.

4) Imposição de valores e hábitos

O Fundamentalismo islâmico considera que quem não compartilha seu próprio ponto de vista irá para o inferno ou em vida estará condenado a viver como um réprobo, e o Fundamentalismo democrático, conforme já comentado no decorrer deste artigo, à semelhança do primeiro, procura impor a diversas culturas sua própria concepção de mundo, sintetizada no american way of life. Justamente uns poucos dias antes do atentado, a OEA havia determinado que se um Estado, ainda que eleito pelo povo, não aplicasse métodos e normas devidamente “democráticos” (isto é, dentro dos moldes tolerados pela constituição dos EUA), seria passível de severas sanções que poderiam, inclusive, levar à sua derrocada pela força. Assim, o governo norte-americano não é menos radical que os próprios talebans quando se trata de impor os próprios princípios, mas dispõe-se, igualmente, a fazê-lo a ferro e fogo, se preciso for.

5) Exibicionismo religioso

O Fundamentalismo democrático, principalmente às vésperas de eleição, exibe seus líderes saindo de missas dominicais com a Bíblia na mão, sugerindo assim que eles teriam sentimentos religiosos. E os fundamentalistas islâmicos deitam-se ao chão para orar defronte à Meca num gesto de aparente humildade que, é claro, não necessariamente condiz com o que sentem ou fazem no seu cotidiano.

6) Intolerância cultural

Movidos pelo fanatismo religioso, e no intuito de coibir o culto a qualquer outra religião no país que não a islâmica, os talebans bombardearam e destruíram no Afeganistão imagens colossais de Buda (com aproximadamente 40 m de altura), as quais haviam sido esculpidas em pedra e constituíam verdadeiras obras de arte. A truculência do ato acabou atraindo violência ainda maior, o ataque dos EUA ao país através da recente série de bombardeios que dizimaram milhares de vidas humanas, numa nova demonstração de que a cultura democrática norte-americana afronta todas as demais culturas do mundo ao pretender forçá-las a uma padronização definida segundo seus próprios critérios. Essas são algumas das inúmeras atitudes desrespeitosas dos fundamentalistas, que, por orgulho e arrogância, esquecem-se de levar em conta a liberdade alheia.

Quanto aos representantes dessas duas formas de Fundamentalismo, o mullah Mohammed Omar e George W. Bush, é preciso reconhecer que existe, entre eles, uma diferença fundamental. Se há algo que os dois definitivamente não tem em comum é a coragem: enquanto o líder afegão conseguiu expulsar os russos de seu país numa árdua luta corpo a corpo, o texano Bush, no momento em que soaram as primeiras explosões das torres gêmeas, correu a refugiar-se num abrigo nuclear nas montanhas do Nebraska. No mais, eles se parecem em muitos aspectos...


O feitiço virou contra o feiticeiro

Não há como negar que os governos norte-americanos, com sua política disfarçadamente violenta e usurpadora, acabaram fazendo com que sua própria nação se tornasse vítima de violência. Pois, por ironia do destino, os grupos fundamentalistas islâmicos do Afeganistão, assim como seu líder milionário Osama Bin Laden, foram apadrinhados financeira e militarmente pelos EUA. Ao vincular-se a esses grupos, o governo americano pretendia utilizar-se do arraigado nacionalismo étnico dos fundamentalistas para montar um exército capaz de expulsar os russos, que haviam se instalado no Afeganistão em 1977.

Logo no início dos combates, Bin Laden, na época um engenheiro recém-formado de rica família saudita, chega ao Afeganistão. Ele paga a passagem de outros quatro mil voluntários árabes, torna-se o líder dos “árabes-afegãos”, participa dos combates, constrói estradas e abrigos para armas e munições e trava fortes relações com os líderes fundamentalistas, entre eles o mullah Mohammed Omar, que mais tarde emergiria como o líder supremo do Taleban. Usando foguetes americanos, os Mujahedden, aliança islâmica radical afegã montada pelos EUA, abatem os helicópteros dos russos, que, em 1989, finalmente abandonam o Afeganistão. As atrocidades então cometidas pelos Mujahedden foram na época basicamente ignoradas pela mídia internacional. Ironicamente, os mesmos veículos de comunicação que hoje os tacham de terroristas costumavam referir-se a eles, simplesmente, como combatentes da liberdade.

Logo em seguida, em 1990, os americanos invadem o Kuwait e 540.000 soldados dos EUA instalam-se na Arábia Saudita, deixando os religiosos islâmicos enfurecidos. Mesmo depois de acabada a crise do Kuwait, o governo americano, buscando garantir a casa real saudita (cliente dos americanos desde 1932) e assegurar o suprimento de petróleo para as multinacionais americanas, mantém instalados na Arábia aproximadamente vinte mil soldados dos EUA.

A partir de 1995, o feitiço começa a voltar-se contra o feiticeiro: os grupos terroristas islâmicos, que haviam sido fomentados e usados durante anos pelos EUA para combater a URSS, voltam-se agora contra os próprios norte-americanos. A existência de forças militares instaladas em determinados locais da Arábia Saudita soa aos afegãos como ofensa grave. São então realizados ataques no quartel da Guarda Nacional em Riyadh e, em 1996, tem lugar um atentado em Al Khobar, perto da base americana de Dhahran. Bin Laden participa ativamente do movimento anti-americano, convocando um jihad (guerra santa) contra a presença dos EUA na Arábia Saudita. Em 1998, uma frente islâmica internacional divulga o seguinte comunicado:

“Há mais de sete anos os EUA estão ocupando a terra mais sagrada do Islã, a península da Arábia, saqueando suas riquezas, manipulando seus governantes, humilhando seu povo, aterrorizando seus vizinhos e transformando suas bases na península em pontas de lança para combater os povos muçulmanos vizinhos.”

Em seguida, veio a Fatwa, o decreto muçulmano:

“A ordem de matar os americanos e seus aliados, civis e militares, é um dever para cada muçulmano que puder executá-la em qualquer país onde isso seja possível, para libertar a mesquita de El-Aqsa [em Jerusalém] e a Mesquita Sagrada [em Meca] de suas garras, e para que seus exércitos se retirem de todas as terras do Islã, derrotados e incapazes de ameaçar de novo qualquer muçulmano.”

Bin Laden responsabiliza os EUA pela morte de seiscentas mil crianças em conseqüência do bloqueio americano contra Saddam Hussein. Em 2001, finalmente, acontece o grande atentado contra o Pentágono e o World Trade Center.22

O que o governo americano tem pretendido fazer no Oriente Médio e na Ásia é equivalente àquilo que já havia feito na América Latina. Durante anos, os EUA dispuseram-se a tirar e colocar no poder, neste continente, governantes dos mais diferentes matizes, desde que estes viessem a favorecer seus interesses de hegemonia e propaganda alienando a população a ponto de induzi-la a um envolvimento quase unânime com os interesses deles.23

Veja-se, por exemplo, o que ocorreu no Panamá. Depois de colocar na presidência o General Manuel Noriega, ex-agente da CIA, e depois de tê-lo usado por considerável tempo a seu serviço, o governo americano tirou-o do poder de uma forma humilhante, fechando-o numa penitenciária nos EUA onde se encontra até hoje. E ele deve ter levado bastante tapa no ouvido até ficar atordoado, porque acabou virando pastor, e é bem provável que funde uma igreja no dia em que conseguir sair da prisão. Na Nicarágua, com Somoza, foi praticamente a mesma coisa: depois de terem-no usado até onde lhes pareceu conveniente, os EUA o deixaram tão vulnerável que ele acabou sendo eliminado tal como o foi Noriega, e puseram então, em seu lugar, um cantinflas de esquerda, Daniel Ortega, que estava mais para sandice que para Sandinismo e que gostou tanto do poder que passou a fazer viagens a Nova Iorque e gastar, só em óculos, U$5.000. Ao mesmo tempo em que fazia papel de comunista, era adepto do exacerbado consumismo norte-americano.

Na verdade, o fanatismo religioso islâmico é, ao menos em parte, resultante da atitude fanática dos EUA, que, para conseguirem seus objetivos, não titubeiam em recorrer aos meios mais sórdidos.

George W. Bush
X
Osama Bin Laden

O que pouca gente sabe é que, independentemente da questão dos russos no Afeganistão, favores foram prestados pelos Laden aos Bush no passado. O avô do atual presidente dos EUA, Preston Bush, que foi diretor da CIA em 1976, travara, ainda nos anos sessenta do século passado, relações de amizade com o xeque Mohammed Bin Laden, pai de Osama Bin Laden. Um dos irmãos de Osama, o xeque Salem Bin Laden, foi parceiro de George W. Bush em negócios petrolíferos, tendo-o socorrido financeiramente por diversas vezes para levantar sua empresa Spectrum 7. E agora, Bush, esquecido de tudo, invade o Afeganistão em busca da cabeça daquele que é filho do amigo (já falecido) de seu avô e irmão de seu antigo benfeitor.24

George W. Bush foi eleito numa disputa decidida no Supremo Tribunal em meio a fortes suspeitas de fraude eleitoral na Flórida e vários outros Estados. Durante a campanha, dominada pelo poder econômico, a mídia ignorou acintosamente a existência de outros candidatos que não os dois majoritários. Não houve nenhum debate público com a presença de Ralph Nader ou Pat Buchanan, candidatos não totalmente coniventes com o sistema. Não é de surpreender, pois, que 49% dos eleitores não tenham sequer votado. Bush, além de manter um declarado vínculo com a indústria petrolífera, estaria fortemente ligado à sinistra organização do “reverendo” Moon.

Se fosse dotado de alguma vontade humanista, esse presidente teria aproveitado a oportunidade de estar investido do cargo político de maior envergadura do globo para tentar melhorar as condições gerais de vida da humanidade. Ao contrário, ele assumiu o governo de forma totalmente inexpressiva e medíocre, continuando, uma vez eleito, a levar praticamente a mesma vida que levava antes, jogando golfe, cuidando de sua fazenda no Texas e tirando férias depois de seis meses sem fazer nada de útil.

O fato é que George W. Bush nunca mostrou estar empenhado em encontrar uma forma inteligente de amenizar o sofrimento dos países que se encontram em petição de miséria por estarem exauridos de recursos em decorrência de uma conta que, além de impagável, aumenta a cada segundo devido a uma das coisas mais desumanas e pestilentas que existem na Terra, a usura. Afinal, a usura contraria o princípio eterno e natural de que quem não trabalha não come, bem como o princípio universal de todas as religiões (ainda que não praticado pela grande maioria delas) de que cada um deve amar seu próximo como a si mesmo.

Então, com sua indiferença, incompetência e inoperância, Bush causou ao mundo um sério problema. Na medida em que nada fez para combater o sofrimento gerado pela insana política de seus antecessores e afins, provocou uma reação, manifestada nos ataques de setembro de 2001. De modo que, ainda que indiretamente, afetou a vida de bilhões de pessoas e ocasionou enormes prejuízos a seu país e a inúmeros outros.

Se o total em dinheiro que os EUA perderam em função desses ataques tivesse sido usado para pacificar o planeta, hoje certamente não se estaria falando em riscos de guerra, e ter-se-ia proporcionado a todos a esperança de não terem dúvidas de que são seres humanos25. Mas, em lugar de investir na paz, o presidente desse país optou por manter sua posição de sumo terrorista fantasiado com os trapos daquilo que ainda insiste em chamar de democracia. Através dos furos desse trapo é possível enxergar, bem gordo, seu ego americanalhado.

A rigor, ao invés de ficar mobilizando o mundo para uma guerra, Bush deveria dignar-se a fazer uma profunda autocrítica e a reconhecer os erros cometidos a fim de não agravar ainda mais a situação de ignorância e penúria mundial. Francamente, não se pode definir quem é mais terrorista, se o xeque Osama Bin Laden ou o “cheque” George W. Bush. Sem dúvida, o melhor (e mais econômico) para a humanidade seria que os dois tivessem resolvido a questão mano a mano, numa luta sobre um ring. Com os recursos de TV via satélite de hoje, pessoas do mundo inteiro poderiam tê-los visto lutar sem nem mesmo ter que sair de casa.

Uma nova Cartago

Os Estados Unidos da América quiseram ser uma nova Roma, mas tudo o que conseguiram foi ser uma nova Cartago. E talvez a visão de sua cidade primeira em chamas seja augúrio de que o império ianque acabará também como Cartago. Eis o destino de todas as esquizofrenias políticas: hoje no poder, amanhã na sarjeta da História. Os talebans já não poderão negá-lo.

Se o grupo Aliança do Norte não mais se dispuser a proteger o comércio do ópio e se mantiver isento do fanatismo do Fundamentalismo islâmico e da corrupção do Fundamentalismo democrático, isso será um refrigério para o tão sofrido povo afegão, berço da sabedoria sufi, cujos representantes, à margem da parafernália político-religiosa que em sua própria casa lhes foi imposta, têm se sentido, nela, verdadeiros estranhos no ninho.

Tudo é possível desde que haja coragem. O homem de coragem é idealista e, ao mesmo tempo, pragmático. Se os poucos corajosos que há no mundo tiverem que arcar com o estigma de iconoclastas, isto não deverá impedi-los de prosseguir com seu trabalho nem de questionar os dogmas vazios dos pseudovencedores da História. E seu trabalho é o de lutar para que os homens possam alcançar uma nova e mais humana concepção de vida, porque isto não poderá ser feito nem por usurários, nem por traidores, nem por golpistas disfarçados de liberais.

Séculos e séculos de lutas e intrigas serviram para ensinar que a solução para os problemas humanos não pode residir nas ideologias. Quantas já terão sido inventadas? Já está provado que não é através delas que os desequilíbrios sociais serão sanados. E como poderiam, se suas causas não se encontram fora do homem, mas dentro dele? Orgulho, inveja, ganância e ódio: eis os verdadeiros inimigos. A eles sim é preciso combater sem clemência, pois a paz só será alcançada no dia em que cada um tiver conseguido aniquilá-los dentro de si.

Que cada um possa, então, tornar-se um centro espiritual capaz de atrair e irradiar as mais serenas vibrações que emanam do amplexo infinito da Força Superior. Somente esta força sensibilizará os homens a ponto de torná-los capazes de realizar a mudança copernicana que, com certeza, faz-se imprescindível no mundo. É tempo de que a humanidade reconciliar-se com sua verdadeira identidade e compreender que sua existência não consiste numa mera justaposição de patéticas imagens hollywoodianas e clichês estereotipados. Abandonada a ilusão ignara, a miragem democrática por fim se dissolverá. Nascerá assim, por fim, a primeira democracia de fato.

Esta carta de Ghandi, enviada a Hitler há sessenta e dois anos, poderia bem ter servido, em fins do ano passado, ao presidente norte-americano George W. Bush. A resposta de Hitler todos conhecem. E a de Bush, foi diferente?

Índia, 23.7.1939

Querido amigo:

Amigos exortaram-me a escrever-lhe pelo bem da humanidade. Eu resisti a seus pedidos por causa do sentimento de que qualquer carta de minha parte seria uma impertinência. Mas algo me diz que eu não devo calcular, e que devo fazer meu apelo qualquer que seja o seu valor.
É bastante claro que o senhor é hoje a única pessoa no mundo que pode evitar uma guerra capaz de reduzir a humanidade a um estado selvagem. Deverá o senhor pagar tamanho preço por um objeto, não importa quão valioso este possa parecer-lhe? O senhor escutará o apelo de alguém que deliberadamente descartou o método da guerra, não sem considerável sucesso? De qualquer maneira, antecipo-me a pedir-lhe perdão se errei em escrever-lhe.

Seu sincero amigo,

M. Ghandi

Legítima Defesa

A alegação de "legítima defesa" por parte de George W. Bush para justificar os recentes bombardeios ao Afeganistão não é válida, segundo esclarece o juiz espanhol Baltazar Garzon. Em entrevista ao jornal La Nación, Baltazar diz ser favorável à eliminação de bases de treinamento de terroristas, mas não à guerra. "A legítima defesa exige uma coincidência temporal entre a ação e a resposta, e a reação dos EUA não caracterizou legítima defesa." - explicou ele.

 

Melhor seria se, ao invés de terem se escondido - um em seu bunker subterrâneo no Nebraska, e outro nas cavernas subterrâneas afegãs -, Bush e Osama tivessem se enfrentado numa luta corpo a corpo. Teria sido realmente uma ação humanitária, através da qual mlhares de mortes poderiam ter sido evitadas e bilhões de dólares economizados. Além disso, o mundo teria tido a oportunidade de assistir a uma verdadeira palhaçada via satélite.

 

Notas

1. O termo foi usado por Aristóteles em referência à politeia. Essa fórmula até funcionava bem nas pequenas cidades-estado do mundo grego, que não continham mais que cinqüenta mil habitantes, mas definitivamente não funcionou desde que surgiu em épocas mais recentes.
2. Em seu famoso discurso em Gettysburg.
3. James Bryce nasceu em 1830 na Irlanda e faleceu em 1922. É autor de The American Commonwealth, famosa obra sobre a constituição americana.
4. Bryce, James. Apud Carl Becker, O dilema da Democracia.
5. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, documento emitido pelos revolucionários franceses, foi redigido com o auxílio do próprio Thomas Jefferson.
6. Obra escrita no final do século XVIII pouco depois da Revolução Francesa e ainda hoje estudada em cursos de ciência política.
7. Formaram-se naquela época grandes fortunas como a de John P. Morgan e John Davidson Rockefeller.
8. Do site http://www.zaz.com.br/voltaire/mundo/truste.htm
9. Do site http://www.inequality.org/factsfr.html
10. A esse respeito, leia Bilderberg: o plano oculto de dominação mundial, na Humanus II (ano 2001), e também, no presente número, Bilderberg (II).
11. Em Deus confiamos.
12. George Monbiot – Backyard Terrorism, The Guardian, 30 de Outubro de 2001, disponível on line em:
http://www.guardian.co.uk/waronterror/story/0,1361,583254,00.html
13. http://www.soaw.org/home.html – School of the Americas Watch – ONG de vigilância sobre a SOA
14. A respeito do mesmo assunto, vide neste número da Humanus o artigo Televisão: a boceta de Pandora.
15. Consta que os bombardeios norte-americanos no Afeganistão no final do ano de 2001 visavam obstruir os canais de acesso a extensas áreas subterrâneas habitadas por uma comunidade de monges tibetanos dedicados a alimentar uma resistência espiritual capaz de impedir a consumação de um sinistro plano de dominação mundial. Pelo que se sabe, os objetivos visados através dos bombardeios não foram atingidos. E o mistério permanece.
16. Esse parágrafo e o anterior baseiam-se em trecho do livro Um conto de Tolstoi à Luz da Oaska, de Joaquim José de Andrade Neto, Campinas, Sama, 1999.
17. http://www.ciadrugs.com
18. O atual chefe do cartel da Colômbia, Gilberto Rodriguez Orejuela, embolsa 4 bilhões de dólares anuais vendendo cocaína no mundo todo.
(http://www.mojones.com/mother_jones/MJ95/mafia-map.html). E, com tudo isso, é possível que ele sequer chegue a ser um dos “tubarões”. O Cartel Internacional da Droga movimenta US$500 bilhões por ano apenas com seus três “produtos” principais: cocaína, heroína e maconha. Isso é pouco menos que o Produto Interno Bruto do Brasil, dinheiro suficiente para adquirir a General Motors, a Microsoft e a IBM em apenas um ano. Esse cartel usa seu poder econômico para eleger em todo o mundo políticos dispostos a proteger seus interesses. (Yallop, David – The Unholy Alliance, 2001)


19. De acordo com especialistas em crime organizado, Nova Iorque, Los Angeles, Dallas e Miami são pontos chaves de entrada, nos EUA, de drogas e dinheiro oriundo do tráfico internacional não apenas de drogas mas também de armas. (http://www.mojones.com/mother_jones/MJ95/mafia-map.html)
20. A extinção do plantio de papoula em 2000 no Afeganistão foi confirmada por observadores da ONU. Em um ano, as áreas ocupadas por essa planta, as quais somavam 80.000 hectares, foram reduzidas a zero. E isso apesar de o ópio ser tradicionalmente o único meio de sustento importante do Afeganistão, que em 1998 foi o maior fornecedor mundial da droga. (Cohn, Martin Regg. The Toronto Star (http://www.afghanradio.com/news/2001/may/may20f2001.html). Por décadas, a papoula foi a única fonte de renda para os camponeses afegãos. Com a proibição de seu cultivo, muitos deles se viram reduzidos à miséria. Os raros transgressores foram presos. O Taleban contava com o auxílio das Nações Unidas para compensar esses lavradores, mas o programa de apoio durou pouco, pois foi abruptamente cancelado em dezembro de 2000 devido às relações do grupo com Bin Laden. Vários comandantes da Aliança do Norte têm conexões com o tráfico da droga.
21. Um dos grupos mais conhecidos é o Gush Emunim (Bloco dos Fiéis), cujos membros consideram que o confisco de terras árabes a qualquer preço é um ato de santificação e que as almas dos judeus são mais valiosas que as dos não judeus. Outra manifestação do Fundamentalismo judaico foi aquela que, em 1995, levou um radical chamado Yigal Amir a assassinar o primeiro ministro de Israel de então, Izhak Rabin. Durante o processo judiciário, Amir disse ter agido pela “lei do Talmud”. No dia em que ouviu a sentença de prisão perpétua, declarou: “Tudo o que fiz, fiz por Deus, pela Torá de Israel, pelo povo de Israel e pela terra de Israel” (http://www.parascope.com). Embora os fundamentalistas em Israel sejam uma minoria, eles têm uma grande influência na vida política do país e na opinião pública. Uma pesquisa feita em 1998 revelou que 2/3 da população israelense haviam aderido à idéia da expulsão dos árabes do país.
(http://www.hebron.com/israel-honors-serial-murderer-111597.html). A respeito do Fundamentalismo judeu, vide também Jewish Fundamentalism in Israel, de Israel Shahak e Norton Mezbinsky (Londres, Pluto Press, 1999).
22. Baseado em artigo de Dilip Hiro intitulado The Cost of an Afeghan “Victory”, publicado em The Nation em 15-02-1999. Disponível on line no site:
www.thenation.com
23. Resta saber o motivo pelo qual essa intervenção política americana em escala mundial tem sido tão pouco divulgada pela imprensa.
24. A história dessa relação Laden-Bush começou em 1960, quando o avô de Bush, Preston, envolvido com negócios de petróleo, tornou-se amigo de Mohammed Bin Laden, um empreiteiro árabe que viajava com freqüência para o Texas. Mohammed morreu em acidente aéreo em 1968 quando sobrevoava propriedades dos Bush. Em 1970, o filho de Preston, George Bush, decidiu incentivar seu filho George William, cujo desempenho na escola era medíocre, a fundar sua própria empresa petrolífera, a Bush Energy. George William procurou por Salem Bin Laden, o mais velho dos 52 filhos do falecido Mohammed, e por Bin Mafouz, casado com uma das irmãs de Salem. Mafouz era presidente da Blessed Relief, ONG árabe na qual trabalhava um dos irmãos de Salem, Osama Bin Laden. A empresa de George W. Bush, chamada Spectrum 7, se encontrava em apuros quando Salem Bin Laden, fiel aos laços de família, comprou àquele que considerava um amigo seiscentos mil dólares em ações no intuito de auxiliá-lo. Depois, firmou com ele um contrato de importação de petróleo no valor de cento e vinte mil dólares anuais. A partir de então, a situação melhorou sensivelmente para Bush, que logo embolsou um milhão de dólares e firmou um contrato com o emirado de Bahrein que deixou a Esso morrendo de inveja. (Baseado em artigo de Frei Beto intitulado Laços de família, publicado pelo jornal O Estado de São Paulo em 31-10-01. O artigo extrai informações de A Fortunate Son: George Bush and the Making of an American President, de Steve Hatfield.)
25. Para se ter uma idéia, foram torrados 20 bilhões de dólares com seguros patrimoniais e humanos. Além disso, os prejuízos em empresas de aviação atingem a marca dos 10 bilhões, e 40 outros foram liberados pelo congresso norte-americano para retaliação.