Ciladas da curiosidade
Quem já não teve o desejo de conhecer o futuro, de consultar uma cartomante ou fazer um mapa astral para saber se fechará aquele grande negócio? Quem é que já não teve o desejo de saber se conseguirá conquistar ou reconquistar uma pessoa? Ou se encontrará a cura para seus problemas de saúde? Ou se conseguirá realizar aquela viagem tão sonhada? A verdade é que o comércio da futurologia encontrou um espaço que é exatamente do tamanho das ansiedades e inseguranças humanas e, assim, um número enorme de consumidores, de todos os sexos e idades, submetem-se a consultas de quiromancia, numerologia, tarot, astrologia e afins. Mas quantos, na realidade, encontraram alguma clareza ou lucidez nessas consultas? Quantos foram lembrados por seus consultores sobre a lei de causa e efeito no comportamento humano? Quantos foram alertados para o fato de que o homem é que atrai, com suas atitudes, palavras e pensamentos, todos os acontecimentos de sua vida? Quantos saíram dos consultórios dessas pessoas compreendendo melhor a questão da responsabilidade sobre os próprios atos? Na verdade, qualquer coisa que tenha a ver com responsabilidade foge do escopo dos espaços destinados à curiosidade. E a existência destes só faz comprovar que o homem é um desconhecido para si mesmo e que nada sabe a respeito do seu próprio destino. Machado de Assis, em seu conto “A Cartomante”, narra a história de um triângulo amoroso vivido por Vilela, sua mulher Rita e seu amigo de infância, Camilo. Com a convivência dos três, Camilo e Rita acabam se apaixonando um pelo outro e, não resistindo à tentação, entregam-se ao romance, passando, a partir de então, a encontrar-se às escondidas. Um dia Camilo recebe uma carta anônima chamando-o de imoral e pérfido e dizendo que a aventura era sabida de todos. Amedrontado, ele decide rarear as visitas à casa de Vilela, o que causa estranheza a este. Rita, assustada, corre a uma cartomante para consultá-la sobre os acontecimentos, ocasião em que é tranqüilizada: tudo estaria bem, não haveria razão para se preocupar... Camilo, quando fica ciente do fato, repreende-a por ter feito o que fez, alegando que não deveria se envolver com crendices populares...
Nas semanas seguintes, Camilo recebe outras cartas anônimas, o que o deixa mais sobressaltado. Rita relata-lhe que o marido, justamente a partir de então, começara a mostrar-se mais sombrio, falando pouco, como que desconfiado. No dia seguinte ao recebimento de algumas cartas, o rapaz recebe um bilhete de Vilela: “Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora.” Ele entra em pânico. Depois de todas aquelas cartas da véspera... E a letra do bilhete afigura-se-lhe trêmula. Imagina Rita chorando, Vilela transtornado e pronto para matá-lo. Chega até a pensar em ir armado, mas rejeita a idéia. Dirige-se para o Largo da Carioca, entra num tílburi e manda seguir a trote largo para a casa do casal. Afinal, não poderia deixar de ir até lá. Após algumas quadras, o cocheiro depara-se com uma rua atravancada por uma carroça que caíra, e o tílburi tem que parar. Camilo repara então que está bem defronte à casa da tal cartomante. Sua agitação é grande, extraordinária. Pensamentos angustiados atormentam-lhe a cabeça. A casa parece olhar para ele... Nunca ele desejara tanto crer na determinação das cartas. Durante todo o tempo de retirada da carroça da rua, ele se debate em dúvidas, mas tão fortes são o medo e a ansiedade e tão grande a curiosidade a fustigar-lhe o sangue que ele não resiste à tentação de fazer uma consulta. A cartomante tranqüiliza-o, sorrindo. Estava assustado? Nada tinha a temer. – Mas, e ela? – pergunta-lhe Camilo. Ora, tampouco corria perigo, pois o marido nada sabia. Eram apenas intrigas, fruto de invejas. O rapaz respirou aliviado. Estava deslumbrado. – A senhora restituiu-me a paz de espírito – disse ele, sorrindo, estendendo-lhe a mão. – Quanto custa? – perguntou-lhe. – Pergunte ao seu coração – respondeu ela de forma insinuante. Camilo tira então do bolso uma nota de dez mil réis. Os olhos da cartomante faíscam. A consulta custava apenas dois mil réis. Em seguida, ele desce as escadas, saltitante e feliz, ouvindo a voz de sua consultora atrás de si: – Vá! Vá tranqüilo!... Chega à casa de Vilela e o encontra com as feições descompostas. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: ao fundo, sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pega-o pela gola e, com dois tiros de revólver, estira-o morto no chão. O conto ironiza o efeito da credulidade conjugada ao charlatanismo. O desfecho trágico é chocante mais pela falsidade das previsões do que pelo efeito natural dos desatinos humanos. Afinal, é o próprio homem que determina, através de suas atitudes, o seu destino. Todos os acontecimentos de sua vida representam a colheita daquilo que ele próprio plantou. Assim, o que as pessoas chamam de “surpresas” da vida não passam de efeitos do que elas mesmas provocaram com seu comportamento... O trio amoroso em questão – constituído por Vilela, Rita e Camilo – ilustra um dos resultados da inconsciência espiritual: os homens, na grande maioria, ignoram a razão e o sentido do seu existir e, por isso mesmo, acabam vivendo à deriva, escravos dos desejos da mente. Tal estado de adormecimento não lhes permite serem senhores de si nem enxergarem a dimensão da responsabilidade pelos seus atos. Camilo é presa fácil de uma das ciladas da ilusão: a sedução, manifestada por Rita. Traidor da confiança de um amigo, destruidor de um lar e, portanto, insensível ao sofrimento que pode causar ao seu semelhante, ele não titubeia em mandar às favas os escrúpulos para dar vazão aos seus instintos passionais. Que poderia esperar então da vida? Que a mesma fosse condescendente para com ele? Diante de tal pretensão, só poderia mesmo ouvir o riso zombeteiro do destino materializado nas atitudes da cartomante, que sorri matreiramente e o aconselha: – Vá! Vá tranqüilo!... Tolo! Não busca a consulta para ouvir o que precisa ouvir, mas sim o que quer ouvir. E deseja ouvir que nada tem a temer, apesar de estar carregado de culpas. Mas se estivesse em busca da verdade e a encontrasse, teria que ouvir que os sustos da vida são exatamente do mesmo tamanho daquilo que se precisa entender. Quem se deixa arrastar pela correnteza dos vícios e paixões não faz por merecer a recompensa que recebem os que se comportam com firmeza e dignidade. O efeito de atitudes tão diferentes não pode ser o mesmo. Quanto à Rita, seu comportamento representa a cumplicidade nas fraquezas humanas. Trazendo dentro de si o germe da desobediência, não demora a sintonizar alguém que tem os mesmos tipos de desvio. Sua pretensão de ser feliz às custas da traição e do sofrimento alheio é análoga à de quem espera ter estabilidade morando numa casa construída sobre a areia ao alcance do mar... À semelhança de Camilo, vai buscar na cartomante uma forma de fugir à reflexão sobre os próprios atos, procurando narcotizar a consciência, como se isso pudesse acontecer. Esse caminho é inverso ao do aperfeiçoamento pessoal, uma vez que o dever de cada um é aprender a ouvir, cada vez mais, a voz da própria consciência, até chegar ao ponto de se guiar exclusivamente por ela, que é, aliás, o melhor de todos os consultores. Todos os homens já trazem dentro de si essa maravilhosa criação divina, o que contribui para a conquista da dignidade humana, pois quem pratica seus conselhos evita, entre outras coisas, ser usado comercialmente e cair no ridículo.
Vilela, por sua vez, é também inconsciente e, por isso mesmo, fraco diante da cilada do ódio e da vingança. É usado pelo destino para justiçar a traição. Mas a coisa mais útil que poderia ter feito seria admitir seus próprios erros, reconhecendo que havia falhado na escolha da companheira. Afinal, tudo o que o homem seleciona tem a ver com seu mundo interior, com seu estado de espírito e, principalmente, com seu grau de amadurecimento espiritual. E, como se sabe, a vida não deixa de cobrar um preço pelas más escolhas, preço esse que é proporcional à gravidade do erro cometido. Ele deveria rever seu comportamento como marido e chefe de família, procurar descobrir as brechas que havia aberto, através das quais haviam entrado em sua casa a vileza e perniciosidade; e, além disso, perguntar-se o que, afinal, havia traído para receber, como retorno, a traição. O auto-exame é uma atividade bem mais proveitosa ao espírito do que o ruminar da revolta contra a vida ou o ódio contra o semelhante. E sentir-se uma vítima é perda de tempo, simplesmente porque não há vítimas no universo. A justiça divina é perfeita e só permite que aconteça aos homens aquilo que eles merecem, daí não fazer sentido querer fazer justiça com as próprias mãos. Os consultores do mercado da curiosidade são “criações” da mente humana, um meio equivocado através do qual o homem tenta compreender o mistério da sua existência. Tal equívoco tem origem na falta de orientação espiritual das pessoas, lacuna que não tem sido preenchida nem pela família nem pelas religiões institucionalizadas. E, aproveitando-se da credulidade alheia, o charlatanismo oportunista acabou se profissionalizando: tem escritório montado e uma clientela garantida, que não só aceita ser enganada como paga para que isso aconteça. Esses espaços reservados à curiosidade funcionam como negação dos processos de auto-exame e auto-avaliação porque neles impera o critério da facilidade, que é, aliás, uma manifestação da mente desgovernada. E a curiosidade é fruto do plano mental e alheia ao espiritual. O homem dominado pela mente torna-se tão manhoso que é capaz de usar pirâmides, cristais, amuletos, duendes, leitura de mãos ou de cartas, números, búzios e outros recursos (que fazem parte de um festival de adivinhações) para isentar-se de qualquer responsabilidade ou participação mais ativa em seu destino e no destino de seu semelhante. Ele considera, ilusoriamente, que existe uma “trama” dos astros que decide em seu lugar tudo o que concerne à sua vida. A única forma de uma pessoa se prevenir contra as artimanhas de sua mente é a aquisição do discernimento espiritual, a partir da qual ela se torna capaz de realizar a leitura dos acontecimentos da vida com sabedoria, compreendendo que o presente é um resultado do passado e, ao mesmo tempo, o terreno de semeadura do futuro. É preciso, pois, aprender a enxergar o que se planta para não ter que se surpreender com o que se colhe e, além disso, para evitar cair nas ciladas que são preparadas pelo destino aos incautos e imprevidentes. |